Em vez de um documentário comportado sobre Dalva de Oliveira, “Minha Estrela Dalva” invade o palco uma vez que um assalto afetivo. Em um jogo cênico vertiginoso, Renato Borghi, aos 89 anos, divide a cena com sua própria juventude, interpretada por Elcio Nogueira Seixas. Elcio vive o Renato de 1969 — um jovem ator da contracultura que, entre a rebeldia do Teatro Oficina e o glamour do rádio, descobre em Dalva a psique do Brasil. Sem interesse em reconstituir uma biografia cronológica, o que Borghi quer é outra coisa: um encontro que a história não permitiu.
Na peça, ele mesmo invade o camarim de Dalva em 1954 — uma invasão fictícia, simples — para propor um “contraditório”: que ela cante Bertolt Brecht. A cantora da “dor de cotovelo” na Era do Rádio interpretando “Jenny dos Piratas”, uma lavadeira que sonha em se vingar dos patrões. Parece loucura, e é exatamente esse o ponto.
O espetáculo substitui a precisão factual pelo que Borghi labareda de “delírio documentado”. Não interessa o que aconteceu; interessa o que poderia ter ocorrido se uma mulher pública dos anos 1950, vigiada e punida pela moral burguesa, tivesse tido entrada a um repertório que transforma o sofrimento pessoal em estudo de classe.
Quando Dalva canta Brecht, a dor de cotovelo vira matéria-prima de revolta. É uma operação política disfarçada de teatro músico. Soraya Ravenle vive essa Dalva aos 63 anos. Há quarenta anos, ela cantava no coro da primeira montagem de Borghi sobre o mesmo tema, “A Estrela Dalva”, estrelada por Marília Pêra. A força dessa encenação é moldada por uma direção dividida entre o próprio Elcio Nogueira Seixas e Elias Andreato, que empresta sua sensibilidade para dar forma ao texto poético de Borghi e extrair o melhor do elenco.
Agora, é Ravenle quem ocupa o meio do palco. Durante uma sessão em São Paulo, a atriz interrompeu a peça para repreender uma espectadora que filmava a cena com o celular. O teatro parou. A ficção se rompeu. E, por um momento, o que sobrou foi uma mulher de 63 anos afirmando, com todas as letras, que aquele espaço era de presença viva, não de registo do dedo. Foi Brecht sem querer ser Brecht.
Ao seu volta, Ivan Vellame interpreta cinco homens que exerceram poder sobre Dalva. Ele não os transforma em vilões caricatos; somente repete o que eles disseram de indumentária. Herivelto Martins, Kiko, Bruno, a televisão. As falas são reais, e o machismo estrutural se expõe sozinho.
A cenografia de Márcia Moon, composta por escadarias brancas móveis, é empurrada pelo elenco e pela equipe técnica durante todo o espetáculo. Subir é a notabilidade; descer é o desabrigo. O maquinário fica visível porque ninguém ali quer fingir que aquilo é a vida real. É teatro. É suor. É escolha. E, no término, Dalva canta “Hino ao Paixão”, enquanto a plateia compreende uma coisa simples: ela não tinha possuidor. Nunca teve.
Três perguntas para…
… Soraya Ravenle
Você interpreta uma mulher que foi vigiada, julgada e cancelada pela prensa dos anos 1950. Ao mesmo tempo, o espetáculo mostra Dalva reagindo com sua própria arte. O que essa resiliência te diz sobre a exigência de artista hoje?
Que nós seguimos sendo vigiadas, julgadas e muitas vezes canceladas de formas diferentes, mas assim uma vez que Dalva, não desistimos. Vemos um exemplo agora em São Paulo com a Lei de Fomento ao Teatro sendo descumprida em suas regras e leis. Cancelaram 68 projetos que já estavam aprovados.
A Lei de Fomento, que existe há décadas e faz do teatro paulista uma força inigualável no quadro do teatro brasiliano, está sendo colocada aquém! Mas estamos no Brasil de 2026 e não existem mais escrúpulos.
Talvez essa seja a diferença em relação ao tempo histórico de Dalva: “às favas com os escrúpulos”, já dizia a peça de Juca de Oliveira. E uma vez que dizia Zé Celso, vamos re-existir, sempre. A arte não morre.
O Borghi inventa um encontro que nunca aconteceu — ele invade o camarim de Dalva em 1954 para propor que ela cante Brecht. O que essa liberdade ficcional permite que um documento histórico não permitiria?
Permite que o gesto impulsivo de paixão e paixão que se deu exatamente com as palavras que estão no texto — não no camarim e sim no saudoso restaurante Gigetto — seja materializado em toda sua intensidade.
A peça não se detém em datas e locais, mas na intensidade da amizade entre os dois. Revela o libido do jovem Renato em trazer Dalva para o seu mundo, que era o teatro brechtiano. Porquê se ele quisesse cruzar seu mundo do teatro de pensamento crítico, político, ao mundo da Dalva, do paixão romântico lacerado, que deixa o coração em músculos viva.
Ele queria inventar uma novidade poética que certamente transformaria os dois. Interessante que o próprio Renato se dê esse presente ao ortografar essa peça e que nós o ajudemos na realização desse sonho aos 89 anos.
Durante a temporada em São Paulo, você interrompeu uma sessão para repreender uma espectadora que filmava com o celular. Foi um ato impulsivo ou uma decisão consciente de preservar o teatro uma vez que espaço de presença?
Acho que as duas coisas. Me senti invisível, uma vez que se isso fosse provável (risos), mas de indumentária ela não estava ali. Estava na primeira fileira assistindo alguma coisa no celular e seus olhos não se erguiam. Ficou metade da peça de cabeça baixa mexendo no celular.
Eu portanto disse que achava “interessante” o que estava acontecendo, e que imaginava que ela não estava gostando do espetáculo que não estava vendo, e que inclusive ela tinha o recta de não gostar e não querer estar ali. Fui obviamente irônica e a plateia entendeu e aplaudiu.
Ela ficou absolutamente sem perdão e, a partir daquele momento, não ousou olhar para o aparelho; sorria com um sorriso amarelo, uma vez que que se desculpando. Diria que fui extremamente delicada para com a sua falta de instrução.
Teatro Sesi SP – avenida Paulista, 1.313 – Jardim Paulista, região meão. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 15h. Até 12/7. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Gratuito em sesisp.org.br/eventos
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