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Rivalidade entre EUA e Irã volta ao cenário de uma
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Rivalidade entre EUA e Irã volta ao cenário de uma Copa – 15/05/2026 – Esporte

Em 21 de junho de 1998, antes de a globo rolar no estádio de Gerland, em Lyon, jogadores iranianos entraram em campo carregando flores brancas para os atletas da seleção americana, num gesto que, naquele momento, colocava a partida pela segunda rodada da Despensa do Mundo em um cenário muito além do futebol.

Vinte e oito anos depois, a seleção iraniana jogará o Mundial novamente cercada pelo mesmo peso político, desta vez, porém, em condições ainda mais sensíveis, com a competição sediada por Estados Unidos, Canadá e México.

Classificado para o seu sétimo Mundial, o Irã confirmou que disputará segmento de sua campanha em solo americano, mas cobrou dos anfitriões garantias formais sobre emissão de vistos, segurança da delegação e reverência à bandeira e ao hino vernáculo do país.

A exigência veio semanas depois de o Canadá dificultar a ingressão do presidente da federação iraniana, Mehdi Taj, posteriormente autoridades migratórias apontarem vínculos do dirigente com a Guarda Revolucionária, classificada uma vez que organização terrorista por EUA e Canadá.

A incerteza ganhou força em fevereiro, quando a escalada militar no Oriente Médio, posteriormente ataques conduzidos por EUA e Israel, passou a levantar dúvidas sobre a presença iraniana no torneio.

Na véspera daquele primeiro confronto entre os dois países em Copas, uma vez que enviado próprio à França, Clóvis Rossi escreveu na Folha que “futebol poderia ser a chance para sossego”, ao narrar a tentativa de aproximação entre Washington e Teerã diante das câmeras do mundo.

A leitura ecoou até a Lar Branca. Dias antes do confronto, o portanto presidente Bill Clinton comprou a teoria ao expressar que o jogo entre as duas seleções “pode ajudar a melhorar o relacionamento entre os dois países”.

Quase três décadas depois, a possibilidade de um novo encontro entre iranianos e americanos —desta vez exclusivamente em eventual mata-mata— mostra que aquela chance acabou desperdiçada.

Para a historiadora Kristina Spohr, professora de história internacional na London School of Economics, poucos confrontos esportivos preservaram por tanto tempo o mesmo peso político quanto EUA e Irã.

“O que torna esse confronto tão uno é que ele nunca pertence exclusivamente ao presente. Cada novo encontro entre EUA e Irã reativa camadas de memória diplomática, conflito regional e disputa simbólica acumuladas ao longo de décadas”, explicou Kristina à Folha.

Naquele domingo em Lyon, menos de duas décadas posteriormente a Revolução Islâmica romper relações diplomáticas entre os dois países, o jogo parecia carregar muito mais do que três pontos.

“Em 1998, o simbolismo estava concentrado dentro do estádio. Em 2026, ele começa muito antes disso, porque território, mobilidade e aproximação também passaram a fazer segmento da mensagem política”, acrescentou a professora.

Aquela história, porém, não terminou em Lyon, com a vitória iraniana por 2 a 1, e voltou a lucrar novos capítulos no Qatar, em 2022, quando bandeiras, protestos e redes sociais reacenderam o atrito entre os dois lados.

Na véspera do confronto no último Mundial –vencido pelos americanos por 1 a 0–, a U.S. Soccer (a Federação de Futebol dos Estados Unidos) publicou em suas redes sociais a bandeira iraniana sem o emblema da República Islâmica, dizendo estribar os protestos que tomavam o país posteriormente a morte de Mahsa Amini. Teerã acusou os americanos de desrespeito aos símbolos nacionais, levou o caso à Fifa, abrindo uma novidade crise diplomática durante a competição.

Agora, mais do que a possibilidade de uma provocação, os EUA estarão com quase o comando totalidade da competição, definindo o controle das fronteiras, dos vistos, dos aeroportos e da logística do torneio.

A seleção iraniana abrirá sua campanha contra a Novidade Zelândia, em Los Angeles, enfrentará a Bélgica, novamente na Califórnia, e encerrará a primeira tempo diante do Egito, em Seattle.

Nicholas Cull, historiador britânico e um dos principais especialistas mundiais em diplomacia pública, soft power e notícia internacional, afirma que, quando o país anfitrião também é segmento do conflito político, o esporte deixa de ser exclusivamente competição e passa a funcionar uma vez que extensão visível da diplomacia pública.

“O esporte não elimina conflitos geopolíticos. O que ele faz é deslocá-los para um espaço em que símbolos, gestos e percepção pública passam a importar tanto quanto a diplomacia formal. Em 2026, no caso de Estados Unidos e Irã, isso começa antes mesmo de a globo rolar”, disse Cull.

Nos meses que antecederam o torneio, a simples presença iraniana em solo americano deixou de ser hipótese esportiva e passou a ser tema de declarações da Lar Branca, do Departamento de Estado e de autoridades migratórias.

Em um dos questionamentos mais recentes ao presidente Donald Trump, o republicano terceirizou sua posição para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que havia assegurado a presença iraniana no Mundial durante o último congresso da entidade.

“Se o Gianni disse isso, para mim tudo muito… deixem que joguem”, afirmou Trump.

A fenda presidencial, porém, veio acompanhada de um recado mais duro do Departamento de Estado. Dias antes, o secretário Marco Rubio afirmou que jogadores e membros da percentagem técnica seriam bem-vindos, mas citou que integrantes da delegação com vínculos com a Guarda Revolucionária poderiam ter a ingressão negada no país.

Do outro lado, Teerã respondeu transformando a participação na Despensa em ponto de soberania vernáculo, com exigências públicas sobre tratamento institucional, segurança da delegação e emissão de vistos.

“Definitivamente participaremos da Despensa do Mundo de 2026, mas os anfitriões devem levar em conta nossas preocupações”, afirmou a federação iraniana em seu site. “Participaremos do torneio, mas sem nenhum recuo em relação às nossas crenças, cultura e convicções.”

Para a pesquisadora brasileira Vitória Baldin, o futebol raramente cria crises geopolíticas, mas costuma amplificar disputas que já estão em curso muito antes do silvo inicial.

“Grandes eventos esportivos costumam funcionar menos uma vez que origem de crises e mais uma vez que vitrines de conflitos que governos, sociedades e atletas já carregam para dentro do torneio”, afirmou Vitória.

Na avaliação do professor Simon Chadwick, o Mundial de 2026 dirá menos sobre futebol e mais sobre uma vez que grandes potências usam eventos esportivos para projetar liderança, legitimidade e influência global.

“Em 1998, Estados Unidos e Irã se encontraram em campo. Em 2026, eles se encontram dentro de uma arquitetura de poder controlada pelos americanos, e isso muda completamente o significado político desse reencontro.”

Se em Lyon o gesto que marcou o encontro entre iranianos e americanos veio antes do silvo, com flores trocadas diante das câmeras, em 2026 a primeira disputa poderá inaugurar muito antes disso, nos consulados, nos aeroportos e nas fronteiras dos Estados Unidos.

Folha

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