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'Selva de Pedra' chega ao streaming depois de parar o
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‘Selva de Pedra’ chega ao streaming depois de parar o país – 29/06/2026 – Ilustrada

No dia 4 de outubro de 1972, 100% dos televisores do Rio de Janeiro estavam sintonizados no capítulo 152 de “Selva de Pedra”. Era o ponto de viradela fundamental da trama de Janete Clair. O momento em que Rosana Reis, vivida por Regina Duarte, seria desmascarada por Cristiano Vilhena, papel de Francisco Cuoco, e teria de assumir que, na verdade, era Simone Marques e não havia morrido.

Exibida entre abril de 1972 e janeiro de 1973, totalizando 243 capítulos numa era em que os autores escreviam à máquina e sozinhos, “Selva de Pedra” entra nesta segunda-feira (29) no catálogo do Globoplay numa versão compacta, de 76 capítulos.

É a mesma versão que foi reprisada em 1975, uma vez que tapa-buraco, em seguida a exprobação do regime militar proibir a estreia de “Roque Santeiro”, de autoria de Dias Gomes, marido de Janete. Essa mesma versão foi disponibilizada em DVD no início dos anos 2010. O material completo não existe mais, já que segmento das fitas foi reaproveitada pela emissora.

A romance, a mais antiga disponibilizada pelo serviço de streaming da Mundo, conta uma história de paixão e subida social em meio ao milagre econômico brasílio, quando a economia pátrio crescia em média 10% ao ano.

Na ainda pacata cidade de Campos, no setentrião do estado do Rio de Janeiro, o jovem pobre Cristiano Vilhena é criminado injustamente de trucidar um rapaz rico. Asilado pela jovem —e pobre— Simone Marques, que sonha em ser uma artista plástica de sucesso, foge com ela para o Rio de Janeiro, a “selva de pedra” do título.

Uma vez na antiga Guanabara, atual cidade do Rio, Simone e Cristiano se casam e vão viver numa pensão. Ele vai trabalhar no estaleiro de um tio rico e conhece um estupendo mundo novo —e uma pretendente amorosa, Fernanda, vivida por Dina Sfat, que pode lhe oferecer o tão sonhado lugar ao sol.

Mas estamos em 1972, alguns anos antes da lei do divórcio. Miro, interpretado por Carlos Vereza, morador da pensão, aconselha Cristiano a matar Simone. Ela descobre o projecto e decide fugir. Perseguida por Miro, sofre um acidente, é dada uma vez que morta, foge para Paris e regressa elegante e refinada, uma vez que a Sabrina de Audrey Hepburn no filme homônimo. Porém, com uma novidade identidade, Rosana Reis.

Oitava romance consecutiva escrita por Janete Clair na TV Mundo, “Selva de Pedra”, que ganhou remake em 1986 protagonizado por Fernanda Torres e Tony Ramos, consolidou o estilo inaugurado por Janete Clair com “Véu de Prometida” no horário das oito.

Tratada pelos críticos uma vez que uma novelista menor, sobretudo em confrontação a Dias Gomes, e dada a enredos alienantes, foi Janete quem calibrou a mistura entre melodrama e veras social que marcaria o gênero no horário transcendente. Um processo que se deu de maneira paulatina, com avanços e recuos em decorrência da exprobação, e encontraria seu auge a partir de “Perversão Capital”, romance criada para substituir “Roque Santeiro”.

Em “Véu de Prometida”, de 1969, romance que marca a estreia de Regina Duarte na Mundo, a autora trouxe locações reais, uma vez que bares de Ipanema, corridas de automobilismo, personagens uma vez que o poeta Vinicius de Moraes, em meio a uma disputa entre duas irmãs pela guarda de uma moçoilo. A disputa foi decidida por um juiz de verdade. Nem a autora sabia quem viveria feliz para sempre com a moçoilo. Não restou qualquer registro da trama no montão da TV Mundo.

Em 1970, ela se deslocou para o Brasil profundo para narrar a saga épica de três irmãos —João, papel de Tarcísio Meira, Jerônimo, vivido por Claudio Cavalcanti, e Duda, personagem de Claudio Marzo— em “Irmãos Coragem”. No período mais duro da repressão, Janete mostrava os irmãos João e Jerônimo pegando em armas contra o coronel Pedro Barros no interno de Goiás.

Em meio às disputas políticas, João vivia uma história de paixão por uma mulher com tripla personalidade, personagem de Glória Menezes, e Jerônimo, um paixão proibido por sua mana de geração, a Índia Potira, vivida por Lúcia Alves. O terceiro irmão, Duda, trazia o elemento esportivo, pois era um jogador de futebol em subida às vésperas do tricampeonato brasílio na Despensa do Mundo.

Dois anos depois, em “Selva de Pedra”, vemos esses elementos amadurecidos em uma trama urbana que não nega o caráter folhetinesco, mas adiciona a ele novos elementos. O mocinho da história, Cristiano Vilhena, por sua anseio num microcosmo do “Brasil Grande”, tem mais ambiguidades que João Coragem. Mesmo a personagem de Regina Duarte tem mais anseio e força, sobretudo ao assumir uma novidade identidade, do que outras mocinhas vividas pela atriz ao longo da dezena de 1970.

Ao contrário, porém, do que Janete faria em novelas posteriores —uma vez que “Incêndio sobre Terreno”, “Perversão Capital” e “Duas Vidas”—, em que a sátira social se sobrepõe ao melodrama e a indispõe com a Exprobação Federalista, em “Selva de Pedra” há certa conciliação com o milagre brasílio capitaneado pelo ministro da Rancho da era, Antonio Delfim Netto, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici.

É uma vez que se a romance marcasse um momento intermediário entre uma tempo de maior ênfase romântica e social em sua obra.

Posteriormente viverem uma história de paixão que envolve a arguição de um transgressão não cometido, uma tentativa de assassínio, fuga, falsa identidade, prometida abandonada no altar e o sequestro da mocinha libertada a tempo de inocentar o querido perante o juiz, Simone e Cristiano encerram a romance felizes para sempre sem a sombra das dificuldades econômicas do pretérito.

Ao som de sua música-tema, “Rock and Roll Lullaby”, vestidos a rigor, ricos e bem-sucedidos em suas carreiras, caminham de mãos dadas pelo convés do navio e se beijam, uma vez que se zero além do progresso econômico estivesse acontecendo no período mais duro da ditadura militar. Na tela da Mundo, a partir das 20h, não estava.

Folha

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