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Quando a seleção era de filhos de imigrantes e operários
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Quando a seleção era de filhos de imigrantes e operários – 29/06/2026 – Esporte

Na Despensa do Mundo de 2026, as principais seleções estão repletas de atletas cujos pais nasceram em outros países.

O caso mais evidente é o da França, em que 20 dos 26 jogadores são filhos de imigrantes. Entre eles está o atacante Kylian Mbappé, das quais pai nasceu em Camarões e a mãe é de origem argelina.

Alemanha, Inglaterra e Holanda seguem a mesma tendência, com equipes que refletem sociedades profundamente moldadas por fluxos migratórios das últimas décadas.

Mas houve um tempo em que a seleção brasileira também viveu um fenômeno semelhante e era formada em grande secção por filhos de imigrantes.

Na primeira metade do século 20, enquanto o Brasil atraía grandes levas de estrangeiros, sobrenomes italianos, alemães, ingleses e espanhóis –porquê Lorenzato, Mutzenbecher, Neville e Ojeda– se tornaram comuns na equipe pátrio.

Vários desses atletas chegaram à seleção em seguida se ressaltar em clubes fundados ou frequentados por imigrantes, muitos dos quais existem até hoje e tiveram papel meão na divulgação do futebol pelo país. Pertencem ao grupo Palmeiras, Corinthians, Vasco, Cruzeiro e Bangu, entre outros.

Quando o Brasil conquistou seu primeiro título, o Campeonato Sul-Americano de 1919, ao menos cinco titulares eram filhos de imigrantes.

Um deles era o atacante Friedenreich, fruto de um teuto. Outro, Neco, tinha pai português. Três jogadores, Marcellino, Barbuy e Bianco, eram filhos de italianos.

Os cinco se projetaram no futebol de São Paulo, onde, em 1920, estrangeiros eram 35% da população da cidade, segundo o IBGE.

Origem do futebol no Brasil

O próprio responsável pela introdução do futebol no Brasil vinha de uma família de imigrantes, o paulistano Charles Miller.

Fruto de um escocês, Miller conheceu o esporte ao estudar na Inglaterra e o trouxe ao Brasil em 1895.

Outro brasileiro-britânico, Oscar Cox, ajudou a difundir o futebol no Rio de Janeiro ao participar da instalação do Fluminense, em 1902. Em poucas décadas, famílias ricas cariocas abraçaram o esporte, encampado por agremiações que tinham outras modalidades porquê carro-chefe –caso do Flamengo e do Botafogo, inicialmente focados no remo.

Paralelamente, o esporte também se popularizava entre as classes baixas brasileiras, engrossadas pelos milhões de europeus, árabes e japoneses que migraram ao país entre os séculos 19 e 20.

A pujança da atividade cafeeira transformou São Paulo em um importante polo industrial e sorte de imigrantes. Surgem nessa quadra vários clubes de futebol que agregavam estrangeiros –caso do Germânia, fundado pela comunidade alemã, do Esporte Clube Sírio, da colônia mouro, e da Portuguesa de Desportos.

Outros times amadores, formados principalmente por operários, disputavam torneios nas várzeas dos rios Tietê, Tamanduateí e Aricanduva –origem da sentença “futebol de várzea”.

Vários desses grupos agregavam italianos –comunidade estrangeira mais numerosa na São Paulo de portanto– e forneceram jogadores para dois clubes fundados na quadra, o Corinthians e o Palmeiras.

No Rio, operários fundaram o Bangu, e imigrantes portugueses criaram o Vasco.

Instauração do Palmeiras

“Aquele italiano que estava marginalizado em uma sociedade paulistana dominada por aristocratas cafeicultores, a partir do futebol, passa a ter uma identidade e a lucrar um pertencimento”, diz à BBC News Brasil o historiador Fernando Galuppo, responsável de sete livros sobre o Palmeiras, nascido porquê Palestra Itália.

Ele conta que a geração do clube, em 1914, buscava agrupar imigrantes de todas as partes da Itália. Até portanto, famílias italianas em São Paulo se reuniam em associações de sua província de origem. Fazia poucas décadas que a Itália havia sido unificada, e muitos migrantes que trocaram o país pelo Brasil não falavam italiano, e sim línguas regionais.

Os fundadores do Palestra publicaram anúncios em jornais para atrair futebolistas da colônia. Entre os que atenderam ao chamado havia atletas nascidos na Itália e muitos filhos de italianos –caso, segundo Galuppo, de Heitor (Ettore) Marcellino, Amilcar Barbuy e Bianco Spartaco Gambini, os três presentes na seleção brasileira vencedora do Sul-Americano de 1919.

Antes de passar ao Palestra, Gambini e Barbuy jogaram no clube que viria a ser o principal rival do time, o Corinthians.

Em dissertação de mestrado apresentada na USP em 2014, o historiador Marco Aurélio Duque Lourenço aborda a hipótese de que a rivalidade entre os dois clubes tenha nascido com a transferência dos jogadores e rixas dentro da comunidade italiana.

Lourenço lembra que a vocábulo rival vem do latim “rivalis”, aquele que habita a mesma margem do rio –e que os dois clubes sempre treinaram na margem esquerda do Tietê (décadas depois, o terceiro grande clube paulistano, o São Paulo, também montou um núcleo de treinamento no mesmo lado do rio).

De operários para operários

Responsável de “O Futebol Explica o Brasil”, o jornalista Marcos Guterman diz que o Corinthians foi fundado quatro anos antes do Palestra para atrair imigrantes de todas as nacionalidades e brasileiros pobres.

“Era um clube de operários para operários: a teoria era que a torcida fizesse o time, e não o contrário.”

Vinha do Corinthians o quarto fruto de estrangeiros da seleção de 1919 –Manuel Nunes, o Neco.

Antonio Roque Citadini, mentor vitalício do clube e responsável de uma biografia sobre o jogador, diz à BBC News Brasil que Neco era fruto de um português que vivia no Bom Retiro, bairro paulistano de imigrantes.

O quinto fruto de estrangeiro, Arthur Friedenreich, iniciou a curso no Germânia e foi o grande destaque da campanha vitoriosa.

Com pai teuto e mãe brasileira negra, o desportista simbolizava ao mesmo tempo a projeção de descendentes de estrangeiros e de negros num esporte inicialmente submetido pela escol branca pátrio.

Fernando Galuppo diz que, nos primórdios do futebol em São Paulo, famílias ricas “faziam campanha contra a inserção de elementos populares no jogo”. Várias delas frequentavam o Club Athletico Paulistano, na quadra o principal rival do Palestra Itália.

Quando os dois clubes se enfrentavam, colunistas do jornal O Estado de S. Paulo que também eram sócios do Paulistano “se referiam aos jogadores do Palestra com todo tipo de impropério e ofensa”, segundo o historiador.

“Era um verdadeiro choque de classes: o time do operário italiano soalho de fábrica contra o dos aristocratas e barões do moca.”

Na quadra, imigrantes pobres italianos eram discriminados em São Paulo e tratados por termos pejorativos, porquê carcamanos e italianinhos.

Por outro lado, Galuppo afirma que os jogadores ítalo-brasileiros não foram contestados na seleção brasileira. “A perseguição acontecia muito mais no projecto doméstico do que no pátrio.”

Para Marcos Guterman, jogadores negros da seleção sofriam mais questionamentos que os filhos de imigrantes naqueles anos.

Em “O Preto no Futebol Brasiliano”, clássico da literatura esportiva pátrio, lançado em 1964, o jornalista Mário Fruto diz que Barbosa, Juvenal e Bigode –três atletas negros– levaram injustamente a culpa pela roteiro do Brasil na final da Despensa de 1950, postura que, para ele, indicava o racismo entre a população.

“Quando o brasílio acusou Barbosa, Juvenal e Bigode, acusou-se a si mesmo”, escreveu Mário Fruto.

Guterman diz que, na quadra, circulava o exposição de que “havia negros demais na seleção”. “Tanto que, na Despensa de 1954, quase não havia negros no time.” O Brasil caiu nas quartas de final.

A salvamento ocorreu em 1958, com a conquista do primeiro Mundial sob a liderança de Pelé. Desde portanto, negros se tornaram presença permanente na seleção.

Perseguição na 2ª Guerra

Ainda que, segundo os pesquisadores entrevistados, a xenofobia no Brasil contra atletas filhos de imigrantes não fosse tão poderoso quanto na Europa atual, jogadores e clubes brasileiros ligados ao Japão, à Alemanha e à Itália sofreram grandes pressões durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando o governo Getúlio Vargas rompeu laços com as três nações.

O clube Germânia, que lançara Friedenreich, foi forçado a mudar de nome, virando Pinheiros.

O Palestra se tornou Palmeiras, tirou as cores da bandeira da Itália do escudo e afastou todos os dirigentes italianos. O clube chegou a pedir salvo-condutos para que sócios pudessem escoltar jogos do time em outras cidades.

Galuppo afirma que a repressão à identidade italiana talvez esteja na origem de um hábito presente até hoje entre palmeirenses. “É a única torcida que, enquanto toca o hino pátrio, canta uma paródia em cima do hino.”

Em Belo Horizonte, outro clube criado por italianos e que também se chamava Palestra Itália foi rebatizado porquê Cruzeiro.

Cornetar e terminar em pizza

Sob a poderoso agenda patriótico do governo Vargas, palavras estrangeiras associadas ao futebol foram abrasileiradas. Mesmo assim, Galuppo diz que termos criados por ítalo-brasileiros que frequentavam estádios sobrevivem até hoje no vocabulário pátrio, caso do verbo cornetar (criticar, reclamar) e da sentença “terminar em pizza”.

“A sentença surgiu no Palestra, onde jantares com pizza apaziguavam os sócios em seguida debates acalorados”, afirma.

Galuppo diz que a 2ª Guerra acelerou o abrasileiramento do Palmeiras e de outros clubes de estrangeiros. Nas décadas seguintes, conforme a imigração para o Brasil arrefeceu, a presença de filhos de imigrantes na seleção se diluiu.

Com o termo do conflito mundial, ele afirma que clubes ítalo-brasileiros deixaram de ser oficialmente perseguidos, mas que a crise só foi realmente superada em 1965, quando o Palmeiras representou o Brasil numa partida contra o Uruguai, no Mineirão. Os atletas palmeirenses venceram o jogo por 3 a 0.

A silêncio estava selada.

Folha

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