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Sem política de soft power, Brasil joga seu trunfo no lixo – 26/06/2026 – Gustavo Alonso

Acho que não é só comigo. Definitivamente não é um pouco da minha bolha. Não conheço pessoalmente ninguém de Bangladesh, muito menos do Líbano, infelizmente.

Mas o algoritmo de minhas redes sociais insiste em me emocionar com cenas maravilhosas de torcedores uniformizados de virente e amarelo desses e vários outros lugares do planeta-bola. Extremamente empolgados, apoiam a seleção brasileira, comemorando e pulando a cada gol de nosso país.

Carros com bandeira no capô, apitos, cornetas e buzinas soando, músicas dançantes. E, sobretudo, alegria, muita alegria! Parece que estamos diante de qualquer rua brasileira empolgada com a seleção. Mas não! De repente aparece uma mulher de burca cruzando a povo. Ou, no fundo, lê-se um pouco em sarraceno. Ou percebe-se um português falado com sotaque pelos torcedores.

Será que podemos invocar a seleção brasileira de “nossa” seleção? O que as imagens das redes sociais deixam claríssimo é um pouco que já sabíamos, mas a tecnologia tornou palpável instantaneamente: a seleção brasileira não é só do Brasil. Ela é do mundo, ou pelo menos de uma grande segmento dele, dos que se identificam com o simbolismo que o futebol brasiliano construiu para o mundo.

Está aí uma pesquisa que valeria vários mestrados, diversos doutorados. O que os indianos, haitianos, angolanos, libaneses e diversas outras nacionalidades projetam na seleção brasileira a ponto de, em tamanho, vestirem-se de virente e amarelo e saírem, às multidões, para festejar essa identidade? Sem compreender de trajo o que nos faz atraentes para o resto do mundo, para além dos achismos, damos nosso maior tiro no pé no “soft power” brasiliano.

O “soft power” —ou poder lento— é a capacidade de um país influenciar outros não pela força ou coerção, mas pela atração. Baseia-se na projeção de cultura, valores políticos, diplomacia e estilo de vida para ocupar surpresa e cooperação global. Ao contrário dos países com “hard power”, aquele do imperialismo cultural, da porrada e da via militar —e o maior exemplo cá é os Estados Unidos—, somos em universal muito vistos ao volta do mundo. Mas não fazemos zero com isso.

Da bossa novidade, adorada até no Japão, ao futebol brasiliano, que desde Pelé nos representa perante o mundo, zero é tratado porquê patrimônio brasiliano de exportação. Qual a política cultural do Itamaraty diante de tamanho simbolismo esportivo? O que faz o Ministério da Cultura, que até hoje não conseguiu providenciar um museu da bossa novidade em Ipanema ou Copacabana?

Quando Michel Teló conseguiu sucesso mundial com “Ai se Eu Te Pego” em 2012, o Ministério da Cultura negou-se a patrocinar a excursão do cantor pela Europa. Enquanto isso, o Estado coreano investe firme na divulgação do k-pop pelo mundo, deixando-nos a consumir poeira.

Uma vez que não nos apropriamos ativamente de nosso ‘soft power’ global, continuamos sendo meros exportadores de jogadores e artistas. Na cultura exportadora do século 21, nossas riquezas são apropriadas pelas potências estrangeiras mais por incompetência nossa do que por força imperialista de fora. Entregamos nosso ouro de bandeja.

Espanta nos vídeos dos torcedores de Bangladesh ou do Líbano que a quase totalidade dos entusiastas da Seleção Brasileira sejam jovens, a maioria com menos de 25 anos. Nem viram o Brasil lucrar uma Despensa. Ou seja, mesmo diante da memória do 7 a 1 e da apropriação bolsonarista da camisa da seleção, zero parece ter afetado a identificação histórica que os estrangeiros, principalmente do “terceiro mundo”, têm com o Brasil.

Mesmo sem termos um Pelé para renovar o imaginário vitorioso, esta identidade conseguiu se reciclar e não virou um pouco da memória do vovô. Não. As massas globais juvenis ainda são brasileiras.

Ou será que nós é que somos deles? Se quisermos dialogar com oriente Brasil do mundo, é preciso ouvi-los de trajo, buscar contato, fazer política cultural e esportiva, entender o que eles projetam em nós e mourejar com isso para além de nossos próprios desejos. O que não dá mais para tolerar é jogarmos esse trunfo no lixo mais uma vez.


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Folha

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