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Séries jurídicas brasileiras expõem falhas da Justiça 08/11/2026
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Séries jurídicas brasileiras expõem falhas da Justiça – 08/11/2026 – Ilustrada

Um varão rico é esfaqueado, e sua filha é a principal suspeita do transgressão. Amparada por bons advogados, ela responde em liberdade. Jonathan, um entregador de gás, é recluso sem provas. A trama de “Habeas Corpus” gira em torno da pena de pessoas sem numerário para provar a própria inocência, irregularidade recorrente da Justiça no Brasil.

A série da Netflix estreou em setembro uma vez que o primeiro drama jurídico brasílio. No formato de sucessos americanos uma vez que “Law and Order” e “Suits”, acompanha o cotidiano de tribunais e desvenda casos ao longo dos episódios. Na mesma toada, entrou no catálogo da Globoplay “Verônika com K”. Outras produções, uma vez que “Justiça 2” e a própria romance das 21h, “Quem Patroa Cuida”, transformam advogados em mocinhos e processos em entretenimento.

Mas a teoria não é seguir os moldes estrangeiros. As tramas nacionais tentam emular os tribunais brasileiros com precisão para explorar contradições reais do sistema. São histórias que falam de racismo estrutural, depravação no judiciário e da influência das elites nas instituições.

A multiplicação de tramas jurídicas nesse momento não é coincidência. A Operação Lava-Jato, a crise recente no Supremo Tribunal Federalista e as investigações do homicídio de Marielle Franco e dos ataques golpistas do 8 de janeiro geraram extenso debate público. Os casos atiçaram o interesse de brasileiros sobre os bastidores dos tribunais.

“A influência do STF no noticiário é gigantesca. As pessoas hoje estão mais interessadas em seguir julgamentos”, diz Augusto de Arruda Botelho, jurista e ex-Secretário Pátrio de Justiça. O perito é crítico à transmissão ao vivo de sessões do STF, feita pela TV Justiça.

O meio de 2002 foi o primeiro no mundo a transmitir em tempo real os julgamentos de uma Suprema Golpe. Criada por lei, o objetivo da emissora era promover a transparência. Críticos, porém, falam na espetacularização dos julgamentos. “É prejudicial porque transforma um tema técnico numa discussão pessoal ou política, com torcida”, diz Botelho.

Por coincidência, o problema é profetizado por Ines, personagem de Estiano, na primeira cena de “Habeas Corpus”. “O tribunal é o circo romano de nossas paixões. E você, a plateia, quer salvamento ou sangue. Nós, os gladiadores dessa estádio, queremos vencer a qualquer dispêndio”, diz ela, pouco antes de levar um tiro.

Por outro lado, Botelho comemora o aumento de tramas jurídicas. A ficção pode conscientizar sobre o funcionamento da Justiça e indicar falhas de uma intervalo segura, ele diz.

“Habeas Corpus”, por exemplo, foi inspirada nos dramas reais de pessoas presas injustamente. A equipe da série se consultou com a Innocence Project Brasil, organização dedicada a virar condenações erradas.

Ines, a personagem de Marjorie Estiano, é uma professora e advogada que enfrenta os antigos colegas do escritório renomado onde trabalhava. Ela quer inocentar Jonathan, o rapaz preto criminado sem provas de homicídio. “O recta de resguardo realmente vale para todos? Pobres são presos e ricos são defendidos por escritórios caros”, vocifera a protagonista, logo no primeiro incidente, para uma classe lotada de faculdade.

Para Haná Vaisman, diretora de ficção da Netflix Brasil, produções sobre o universo jurídico têm um grande apelo devido à tensão e reviravoltas constantes. “‘Habeas Corpus’ ganha força por discutir moral, privilégio e os contrastes da sociedade brasileira”, afirma.

“Verônika com K” vai por um caminho parecido. Verônika, interpretada por Roberta Rodrigues, é uma advogada criminalista bem-sucedida que entra em crise quando seu patrão é recluso sob suspeita de depravação. Ela passa a tutelar o traficante da favela onde cresceu e se envolve nas disputas de poder da comunidade.

A produção é uma parceria da Globoplay com a AfroReggae, organização que atua nas periferias cariocas. José Júnior, pai da série, diz que faltavam protagonistas negros nos enredos jurídicos.

As grandes investigações fora das telas, uma vez que a Lava-Jato, atingiram empresários e políticos influentes e abastados. “Isso era inédito no Brasil”, diz Esther Hamburger, professora da Universidade de São Paulo e autora do livro “O Brasil Antenado, a Sociedade da Romance”. As novelas dos anos 1980 e 1990, primeiras tramas livres de exprobação depois a ditadura militar, estavam pouco preocupadas em mostrar as engrenagens de um sistema desconceituado.

Os folhetins se ocupavam de denunciar a impunidade, uma vez que fez “Vale Tudo”, em 1989. No último incidente, o corrupto Marco Aurélio fugia de jatinho e com uma mala enxurrada de numerário. No firmamento, olhando para ordinário, fazia um gesto obsceno para o Brasil.

Advogados e juízes eram coadjuvantes, e cenas de tribunal reservadas ao vértice da trama nos episódios finais. Foi o caso de “Selva de Pedra”, em 1972. Cristiano Vilhena, vivido por Francisco Cuoco, é absolvido do homicídio de Simone, interpretada por Regina Duarte, que aparece viva no tribunal para provar a inocência de seu estremecido. Na reta final de “Bojo de Aluguel”, em 1990, as atrizes Cassia Kiss e Cláudia Abreu protagonizaram uma desavença judicial pela guarda de Vinicius.

Em 2017, Walcyr Carrasco introduziu mais elementos jurídicos em “O Outro Lado do Paraíso”. A protagonista Clara era internada à força em um hospital psiquiátrico pela sogra. Ela voltava anos depois para se vingar com a ajuda do jurista Patrick. Os julgamentos de seus algozes renderam algumas das sequências mais tensas da romance.

Carrasco aumentou a ração em “Quem Patroa Cuida”, atual romance exibida às 21h. O mocinho da trama é Pedro, vivido pelo galã Chay Suede, jurista certinho e ético. Ele está obcecado por provar a inocência de sua querida, a protagonista Adriana, interpretada por Letícia Colin.

A profissão de Pedro não serve unicamente de status social, uma vez que era geral em novelas. Ele é um ideologista devotado a enfrentar as falhas da Justiça. O galã move até uma ação contra o próprio pai, um jurista poderoso, para tutelar a mulher que o acusa de ataque sexual.

Pai e rebento debatem processos e a moral no recta. Com frequência, as discussões vazam para questões pessoais, uma vez que acontece também na vida real.

“As séries estão captando as tensões do momento, em que a Justiça está punindo os mais favorecidos, mas, ao mesmo tempo, não é capaz de prometer a cidadania aos mais vulneráveis”, diz Hamburger.

Folha

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