Sofia Coppola e Arcand captaram temor sobre futuro dos EUA – 06/11/2026 – Ilustríssima
[RESUMO] Vinte anos separam os filmes “O Declínio do Poderio Americano” (1986), do cineasta franco-canadense Denys Arcand, e “Maria Antonieta” (2006), da americana Sofia Coppola. Tematicamente, estão ainda mais distantes: no primeiro, vemos intelectuais na ressaca da liberalização política e de costumes no Canadá nos anos 1980; no segundo, a mítica rainha às portas da revolução que estremeceu a França em 1789. A despeito disso, são ambos potentes retratos cinematográficos de um mesmo quadro político e social: uma vez que a ostentação, o hedonismo exacerbado e o isolamento das elites são antessala e sintoma do processo de decadência de um predomínio. O filme se repetirá agora nos EUA?
1) Novidade Roma
O contexto histórico você conhece. Se não viveu, ouviu falar. Com a itinerário do comunismo e a implosão da União Soviética, no início da dez de 1990 ingressamos no que alguns chamaram de “momento unipolar”.
Francis Fukuyama escreveu, embora tenha sido mal lido, mas muito citado, sobre o tal do “termo da História”. Com o fechamento da Guerra Fria, o clima universal era o de que não havia permanecido de pé qualquer rival à profundidade do liberalismo.
Mas se o clima no início dos anos 90 era de otimismo, o 11 de Setembro acelerou uma percepção generalizada na via oposta.
A política externa que se seguiu, e suas consequências mais trágicas e concretas, morticínio e gastos exorbitantes, provocou o alerta de que talvez, e só talvez, os EUA pudessem ser uma novidade Roma em declínio. Em pouco mais de uma dez, os norte-americanos deram um cavalo de pau, e passaram do Carnaval à Quarta-Feira de Cinzas.
Dois filmes captam à sublimidade esses momentos que antecedem a queda de um gigante: “O Declínio do Poderio Americano”, o filme de 1986 do cineasta franco-canadense Denys Arcand, e “Maria Antonieta”, o longa de Sofia Coppola de 2006, fundamentado na biografia escrita por Lady Antonia Fraser. São duas obras que tematicamente conversam entre si e que lançam alguma luz sobre os dias que se seguem.
O primeiro é, uma vez que o nome indica, uma reflexão sobre a decadência do predomínio, anos antes desse tema se tornar popular, ou de ser cogitado no debate público. Arcand, à voga de um Alexis de Tocqueville, sempre observou os EUA, e as consequências domésticas e externas de seu imperialismo, com perspectiva e astúcia política.
O diretor nasceu numa vila rústico do Quebec, em 1941, numa família católica e da classe trabalhadora. Já na universidade, filmou documentários para o “National Film Board of Canada”. Nesse período, rompeu com o catolicismo de sua instrução e foi cursar história, momento em que se apaixonou pelo estudo da filosofia política, tema presente em toda a sua obra.
2) Filhos da revolução
“O Declínio do Poderio Americano” é o primeiro filme da tetralogia na qual examina os efeitos, às vezes a ressaca, da Revolução Tranquila: o período que se seguiu ao governo conservador de Maurice Duplessis no Canadá (1936-1939 e 1944-1959).
Uma vez que reação a Duplessis, durante as décadas de 1960 e 1970 ocorrereu uma série de transformações políticas e culturais em Quebec.
A Igreja Católica perdeu força, houve a expansão do Estado de Muito-Estar, a naturalização de setores estratégicos da economia e, a reboque disso tudo, o propagação de um sentimento, digamos, patriótico, da identidade quebequense.
Arcand é o historiógrafo da classe intelectual que é resultado da Revolução Tranquila. Enquanto Sofia Coppola observa em “Maria Antonieta” os momentos que antecedem o processo revolucionário galicismo, ele acompanha as consequências do processo revolucionário canadense. Um analisa o antes; o outro, o depois.
Depois “O Declínio”, Arcand dirigiu “As Invasões Bárbaras” (2003), “A Era da Inocência” (2007) —não confundir com o homônimo de Martin Scorsese— e “A Queda do Poderio Americano” (2018). O primeiro filme se concentra no micro, não no mundo extrínseco. Ou, mais precisamente, é um estudo sobre o impacto do segundo no primeiro.
Acompanhamos um grupo de amigos, intelectuais cosmopolitas, quase todos escritores e acadêmicos, ao longo de pouco mais de um dia numa moradia de campo, cozinhando e conversando sobre temas variados, de indiscrições conjugais a tópicos filosóficos mais ou menos complexos.
O grupo uma vez que um todo se orgulha do seu desprezo pelas normas sociais padrão e ri das convenções burguesas. Nesse sentido, não são tão diferentes dos aristocratas retratados em “Maria Antonieta”. Logo compreendemos que mesmo suas bandeiras libertárias mais caras, a resguardo da liberdade sexual, por exemplo, produzem efeitos sociais assimétricos dependendo do gênero de quem é implicado.
No início do longa, acompanhamos uma entrevista com Dominique, feita por Diane, dois personagens do núcleo feminino. A conversa é sobre o livro que a primeira acaba de lançar, no qual defende que o noção de felicidade individual permeia a literatura de uma pátria à medida que a sua influência diminui.
Essa teoria de felicidade individual, segundo ela, se expressa, por exemplo, na preocupação ocidental contemporânea por gratificações instantâneas cotidianas.
Tanto a namoro de “Maria Antonieta” uma vez que a classe intelectual de “O Declínio”, uma espécie de fidalguia contemporânea, padecem do mesmo mal: um ensimesmamento que é razão e consequência de um hedonismo lento e erodente.
Uma vez que Dominique argumenta: “O noção de paixão conjugal difundiu-se com Diocleciano, no século 3º, com a crise do predomínio romano. E na Europa do século 18, o noção de felicidade de Rousseau deflagrou a Revolução Francesa”. Não é por eventualidade que observamos Maria Antonieta lendo Rousseau, no filme de Sofia, instantes antes de irromper a revolução.
Antes desse diálogo, assistimos a Rémy manifestar para seus alunos da universidade: “Não há espaço para a moralidade na história”. O que se segue a essa fala, ao longo do filme, é uma refutação, ou pelo menos uma tentativa de refutação, desse diagnóstico niilista.
Não é que Arcand, ao modo dos reacionários, eleja os intelectuais uma vez que cabrão expiatório do processo de decadência. Seu olhar para eles, e por consequência para si, é compassivo e simpático. A classe intelectual, ele parece nos manifestar, é sintoma, e não a razão da decadência do predomínio.
Ao mesmo tempo, se ele não é um reacionário, talvez seja um conservador. Quer manifestar, quem sabe não tenha sobrado alguma fagulhinha da velha instrução católica, escondida sob camadas de formação intelectual uma vez que um historiador progressista?
Porque, no termo, “O Declínio” nos sugere que, quando se preenche um vazio místico com unicamente niilismo e hedonismo, é aí que o caldo entorna e que o termo está próximo.
É meio boba a galera que procurou uma prelecção de história em “Maria Antonieta”. O filme segmento do ponto de vista da própria, que chegou da Áustria à França com unicamente 14 anos, e, a partir daí, ficou confinada em Versalhes, e se relacionou unicamente com uma namoro adulatória e interesseira. Mais ou menos o que Graceland foi para Priscilla Presley.
Uma vez que disse o crítico Roger Ebert, não há um filme de Sofia Coppola em que o envolvente extrínseco não defina ou expresse a vida interno dos personagens.
A estreia de “Maria Antonieta” no Festival de Cannes ocorreu sob vaias. Segmento do público se levantou e saiu no meio da sessão.
Na era, isso gerou estardalhaço na prensa. Besteira, porque qualquer um com alguma memória, e conhecimento mínimo da história do cinema, se lembraria que “Taxi Driver” (1976), de Martin Scorsese, “Coração Selvagem” (1990), de David Lynch, e até mesmo “Pulp Fiction” (1994), de Quentin Tarantino, tiveram o mesmo sorte: estreia trágica em Cannes, seguida de saudação sátira e popular fora do festival.
Há um antes e um depois de “Maria Antonieta”. Basta lembrar que seu contemporâneo é a versão de “Orgulho e Preconceito”, de Joe Wright. É um “filme de era” lançado em 2005, mas, do ponto de vista formal, poderia ter sido filmado nos anos 1980.
O longa de Sofia Coppola, paradoxalmente, é esteticamente mais próximo de “A Favorita”, o filme de era doidinho de Yorgos Lanthimos, de 2018.
Com alguma frequência Sofia é acusada de frivolidade, superficialidade e de um estetismo vazio. Todos os maneirismos que num Wes Anderson da vida são considerados uma “marca autoral” e, portanto, levados a sério e tratados uma vez que traços de genialidade, são, no caso dela, subitamente desconsiderados e minimizados.
Uma vez que alguém disse uma vez, Sofia é uma cineasta que teve a ousadia de levar a sério a vida interno de garotas adolescentes —e recusou a dualidade preguiçosa de tratá-las uma vez que “piadas ou sacos de pancadas”.
4) Ostentação e decadência
Foi Richard Brody, o crítico de cinema da New Yorker, quem disse uma vez que os planos subjetivos mais muito filmados da história do cinema, pelo menos desde Alfred Hitchcock, são os de Sofia Coppola. Em “Maria Antonieta”, a diretora domina silêncios e espaços com maestria. O uso criativo da trilha sonora, no entanto, é a cereja do bolo.
Logo de face, na cena inicial toca “Procedente’s Not in It”, do Gang of Four, e ouvimos: “The problem of leisure/What to do for pleasure” [algo como “o problema do ócio / o que fazer para se divertir”].
Estamos diante de uma ironia fina, que funciona em muitas camadas. Os Gang of Four eram uma filarmónica de pós-punk de Leeds, um dos principais polos industriais no setentrião da Inglaterra. Eram associados à Novidade Esquerda da era, e tinham uma potente influência marxista.
Escutamos esses primeiros versos e nos vem à mente a tese de Dominique, em “O Declínio do Poderio Americano”. O que nos alerta sobre a iminente queda de um predomínio é a centralidade na cultura, a preocupação mesmo, da teoria de prazer ou felicidade individual.
No final do século 19, Thorstein Veblen escreveu sobre a “classe ociosa” (“the leisure class”, no original). “Maria Antonieta” é uma reflexão sobre essas duas coisas: os costumes da classe ociosa, no caso em taxa a fidalguia francesa, e as consequências políticas de seus hábitos hedonistas particulares.
O que “O Declínio do Poderio Americano” e “Maria Antonieta” pareciam nos indicar, há 40 e 20 anos, respectivamente, é a teoria de que um regime de ostentação, hedonismo exacerbado e insularização das elites, sejam elas intelectuais ou aristocráticas, é, quase sempre, a antessala e o sintoma de um processo de decadência de um predomínio.
Agora, o negócio é o seguinte: o recado foi oferecido. Escuta quem quer, enfim.





