O cheiro de marcela toma o ar do envolvente e invade o olfato, suave porquê um chá quente servido antes de dormir. Não parece que estamos numa exposição de arte, mas, sim, num envolvente de incitação aos sentidos.
Típica da flora brasileira, a marcela —disposta em um montinho no pavimento do primeiro andejar do Itaú Cultural— fica próxima a arranjos semelhantes de capim, fubá, algodão e folhas de taioba. Destes montinhos emergem formas ovaladas de bronze e cerâmica, porquê frutos prestes a lucrar vida. O conjunto forma um campo dentro do qual é provável passear.
“É uma lavoura”, diz a artista Solange Pessoa ao mostrar a obra “Campos Peregrinos”. “A semente tem essa coisa, o vento leva a semente para longe. Essa natureza peregrina. Por isso o nome da obra.”
Pessoa fala baixinho. Sua voz é tão mansa quanto a instalação “Campos Peregrinos”, trabalho simbólico da relação da artista com os elementos da terreno e que abre uma exposição de suas obras no núcleo cultural paulistano. Ali, “Campos Peregrinos” foi montada em versão reduzida, depois de ser apresentada num espaço maior em Glasgow, no ano pretérito, com vegetais e ervas encontradas na Escócia.
Ao trabalhar com materiais naturais, a artista de 65 anos nos informa sobre o meio envolvente, os elementos do solo, os lugares intocados pelo varão —ou a prenúncio que ele representa aos ecossistemas. Ela opta por matérias-primas não usuais desde que começou a curso, há mais de três décadas, muito antes de museus e galerias passarem a expor trabalhos de terreno e cerâmica, uma praxe nos últimos anos dada a subida da arte ligada a pautas identitárias.
No subsolo do Itaú Cultural está o principal da exposição —um conjunto de 150 desenhos criados pela mineira, de 1991 até hoje. As ilustrações, que ela labareda de “inéditas e dispersas”, estavam guardadas em gavetas e pastas de seu ateliê em Belo Horizonte, e são agora reunidas em núcleos temáticos pelo curador Franklin Espath Pedroso, parceiro de trabalho de Pessoa há décadas.
É uma chance de ver a produção mais intimista da artista, acostumada a fabricar obras de maior graduação —porquê as esculturas em pedra-sabão que estiveram na Bienal de Veneza de 2022 e no Quadro da Arte Brasileira, dois anos mais tarde— ou de tamanho gigantesco, a exemplo de “Catedral”, uma obra de 100 metros de extensão com cabelo humano e crina de cavalo acoplados a largas tiras de epiderme.
Nas ilustrações, vemos seres de paisagem surrealista inspirados em homens, animais, vegetais e formas ameboides, num traço que transita entre o figurativo e o abstrato. Esses trabalhos remetem à arte rupestre, dão conta de situações imaginárias onde a termo não chegou, porquê se a artista fosse uma arquiteta visual das manifestações do inconsciente e dos sonhos.
Toda a obra de Pessoa, argumenta o curador, tem relação com a natureza e o corpo. “Vejo sempre presente no trabalho dela um ciclo de vida —o promanação, o desenvolvimento, com suas várias transformações, e a morte. E, a partir da morte, um ressurgimento, um ciclo contínuo”, afirma Pedroso.
Ele labareda a atenção para o veste de muitos desenhos serem feitos com gordura, óleo e jenipapo, materiais que se modificam com o tempo e alteram delicadamente a figura das ilustrações, porquê se o próprio material de pintura da artista estivesse vivo. Mas há também ilustrações com materiais experimentais porquê o Merthiolate, que sobreviveram intactas ao passar das décadas.
Pessoa expõe com frequência no exterior. No ano que vem, por exemplo, terá uma grande mostra de instalações na Instauração Cartier, em Paris. No Brasil, sua obra ganhou notoriedade na última dez, desde que entrou para o elenco de artistas da galeria Mendes Wood DM, uma das mais poderosas do país. Dois fatores contribuíram para a artista permanecer tanto tempo à margem, segundo o curador.
O primeiro foi o veste de ela —originário de Ferros, no interno de Minas Gerais— ter concentrado seu trabalho e sua vida em Belo Horizonte, sem passar detrás do sistema das artes visuais estabelecido em São Paulo e no Rio de Janeiro. E o segundo foi produzir com materiais que geravam estranhamento —nos anos 1990, por exemplo, já fazia obras com penas, outro tipo de matéria-prima hoje recorrente em trabalhos expostos em museus e galerias.
A mostra traz ainda dez vídeos da artista, que atestam seu paladar pela experimentação enquanto expandem para a tela a temática de suas obras. Em “Lesmaslongas”, de 2022, pessoas enroladas em sacos transparentes cobertos por terreno se contorcem e rastejam pelo piso de um apartamento, porquê se fossem bichos ou criaturas surgidas de vísceras. A ação acontece sobre uma trilha sonora de grunhidos de animais, dando uma atmosfera de tensão às cenas.
No Itaú Cultural, o visitante tem a sensação de ver uma obra conectada com o presente. Ao trazer matérias vivas para o espaço expositivo, a artista faz pensar no desmatamento e na crise climática. Ao pintar com jenipapo e urucum, remete à questão indígena. Mas seu trabalho não é panfletário ou óbvio, porque não teoria o público —somente o instiga a pensar. “O varão realmente é livre na arte, você faz o que quiser”, diz ela. “A arte é o território mais provável da liberdade.”





