Há poucos meses, o estilista Antonio Castro achava que estava desenhando uma coleção sobre a alegria de voltar para vivenda. O diretor criativo da Foz, que desfila no próximo domingo (18) na São Paulo Fashion Week, pegou o coche em São Paulo e dirigiu até Maceió, em Alagoas, para viver o trajeto que pretendia levar à passarela —mas descobriu outra coisa no assento.
“Foi uma volta para vivenda de questionamentos. Não me encontrei ainda em São Paulo, mas também não me encontro mais em Maceió”, ele diz, em seu ateliê, no bairro paulistano de Pinheiros. A coleção carrega referências de “Bye Bye Brasil”, o road movie de Cacá Diegues de 1980, e dos lares do interno vistos a partir da estrada. A desfecho de Castro é que não existe vivenda idílica à espera de ninguém.
Esse sentimento de quem já saiu de um lugar e ainda não chegou ao outro serve também ao evento que o recebe. A São Paulo Fashion Week, a SPFW, chega à sua 61ª edição, encerrando a comemoração de seus 30 anos. Paulo Borges, fundador e diretor criativo do evento, tem uma resposta pronta para quem pergunta o que vem na sequência. “Depois dos 30, volta para o zero. Na prática, significa refazer tudo conforme o mundo está hoje”, diz.
A semana de voga começa nesta terça (13), com desfile de Alexandre Herchcovitch na Instauração Armando Alvares Penteado, a Faap. Veterano do evento, ele também reflete sobre transições culturais e sociais, olhando para o “fin de siècle” dos anos 1890.
Até o domingo, serão 24 desfiles, boa secção deles concentrados no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no parque Ibirapuera. Outros se espalham pela cidade, porquê a Forca, que ocupa a terreiro Charles Miller, no Pacaembu, e a cearense Marina Bitu, que se apresenta no Espírito Mater, prédio da dezena de 1920 no Ipiranga.
O tema que rege o evento vem de repertórios alegóricos, sem grandes otimismos. “Em momentos porquê esse, em que a sociedade está em transformação, as palavras perdem um pouco o sentido e os símbolos começam a surgir novamente”, diz Perdão Cabral, uma das fundadoras da SPFW e curadora do Inmode.
A frase que guia a edição é de Ailton Krenak —”o horizonte não existe, nós unicamente o imaginamos”—, e a dupla a lê também porquê autobiografia —quando a SPFW foi pensada, em 1995, era um tanto que não existia.
O noção ganha corpo numa exposição, com curadoria de Hanayrá Negreiros, montada no Pavilhão das Culturas Brasileiras. Ela partiu da lesma, símbolo da edição anterior, e de cosmologias racializadas para reunir 12 artistas, entre eles Goya Lopes, Aline Prelado e Silvana Mendes.
“Eu quis fazer um recorte pensando em imaginários brasileiros e quais símbolos podem descrever a história do nosso país, inclusive neste momento. Um recorte político da curadoria é pensar esses imaginários afro-brasileiros e originários”, diz Negreiros.
O andejar superior, que abriga as salas de desfiles, virou o que a curadora labareda de pavimento baiano —um “ouroboros” de Goya Lopes, artista têxtil que também é pioneira da voga afro-brasileira, ocupa uma parede inteira, ao lado de telas de Alberto Pitta e de uma estátua de Emanoel Araújo.
No térreo, pinturas e estampas de nomes porquê Patrícia Kamayurá, Larissa de Souza, Jacqueline Tranquilidade e De Saturno aparecem ampliadas e adesivadas nos vidros do pavilhão de Oscar Niemeyer.
Esta é a primeira edição da semana de voga paulistana depois do Rio Fashion Week, em abril. Os dois eventos são tocados pela IMM, empresa de entretenimento que assumiu a gestão dos desfiles. É também a primeira vez que a SPFW acontece anualmente —com o novo calendário, o Rio de Janeiro fica com o primeiro semestre e São Paulo, o segundo.
As semanas não devem se plagiar. “Tem características que são muito próprias do Rio e que cá não funcionam. E tem características daqui que também não funcionam lá”, diz Paulo Borges. Uma marca pode escolher desfilar nas duas capitais —porquê a carioca Handred, que participou em abril e se apresenta no Cultura Artística na sexta (16).
O que São Paulo pode tentar importar do Rio é o tom de entretenimento, voltado a um público mais jovem, que vai ao evento para viver a experiência e não por ofício. Borges atribui secção do sucesso carioca ao libido represado de uma geração que nunca viu um evento assim na cidade, órfã de semanas de voga há uma dezena.
“Nós testaremos ideias entre uma cidade e outra. É uma boa troca. Se funcionar, muito que muito; se não funcionar, mudamos de rota”, diz, reforçando que trabalha nos bastidores, abrindo espaço para que o Rio funcione com profissionais locais.
A transição mais visível da SPFW, porém, está na grade. A última edição, em outubro do ano pretérito, apresentou 38 nomes. Agora são 24, número resultado de uma transição interna de calendário e uma transmigração de marcas que se apresentam fora do evento.
LED e Gustavo Silvestre, que faziam secção do calendário, fizeram desfiles independentes nas últimas semanas, assim porquê Walério Araújo e Weider Silveiro, que armam uma passarela dupla na noite desta segunda (12).
Há uma mão potente da organização nessa transição, que encerra uma tentativa de renovação dos quadros da SPFW, que buscou um fluxo de novos criadores nos últimos anos, principalmente depois a pandemia. Borges diz que os cortes são resultado de um seguimento iniciado há quase três anos, com estudo de desfiles e redes sociais e questionários às marcas sobre vendas e planos de negócios.
O primeiro passo foi pedir que algumas marcas desfilassem só uma vez por ano. O segundo, invitar secção delas a dar um tempo. “Ninguém foi expulso, não há portas fechadas”, afirma.
O critério, segundo ele, não é volume de vendas, mas desenvolvimento do negócio. “Tinha marca que estava com a roupa de três estações detrás no site, outras que faziam um desfile imenso, mas não conseguiam produzir. Você não precisa vender 10 milénio peças, não é essa a questão. Mas qual é a qualidade disso, qual é o contexto, qual é a narrativa, quem é o público? Tudo isso tem que entrar na soma.”
A conta também pesa para o evento. “Na hora que liga a luz do gerador, bota segurança, limpeza, todas as equipes, cada horário de desfile custa mais de R$ 300 milénio”, afirma. Por isso, Paulo tem tratado cada interessado a entrar no lineup com pragmatismo. Nesta edição, as novatas são a Ammi, especializada em crochê, e a mineira Hisha, que debutou no Rio em abril.
O enxugamento tem um efeito paralelo que a SPFW não contorna —diminuiu a proporção de marcas comandadas por criadores negros, num evento que ajudou a pautar o tema com regras de isenção racial no casting e com o projeto Sankofa, que levou à passarela marcas porquê Meninos Rei e Ateliê Mão de Mãe. Daquele grupo, unicamente a Santa Resistência segue no calendário.
“Essas regras não mudaram. Não tem a ver com cor de pele, tem a ver com estrutura”, afirma Borges. “Não dá mais para colocar na passarela uma marca que está muito desestruturada.”
Para ele, um trabalho de base precisa voltar a ser feito fora da passarela principal, em procura de novos nomes. O projeto Estufa, que revelou nomes porquê a Aluf, deve ser relançado no ano que vem. Em paralelo, afirma que tem simples conversas de uma provável parceria com a Mansão de Criadores. “A São Paulo Fashion Week tem que ser muito criativa. Mas essas experimentações precisam ser baseadas em processo, não podem ser só um fantasia criativo”, afirma.
Enquanto isso, aceita o papel que lhe cabe. “Se eu assumisse o papel de ceifeiro, estaria fazendo a coisa mais errada do mundo, porque aí não faço ninguém crescer”, diz. “Sempre alguém tem que ser responsabilizado. Não tem problema que seja eu, desde que as pessoas reflitam sobre o próprio negócio.”





