No Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, Taís Araújo encena um manifesto cortante osco de comédia dramática, conduzindo risos nervosos e desabafos que andam de mãos dadas. Quem consegue viver a vida inteira uma vez que um outdoor de superação? É contra esse fetiche do mercado cultural, que se deleita no consumo da dor negra, desde que esteja envolta em luto ou miséria. A rebeldia da atriz em “Mudando de Pele” nos leva a uma visão dissemelhante.
Foram necessários anos para desenredar um texto que garantisse o recta mais recusado às mulheres negras: o recta à frivolidade do erro, à confusão mental e à autossabotagem, longe do pedestal da heroína inflexível. Essa rota de fuga se materializa em Mayah, a personagem principal, que explode sua própria vida às vésperas de completar 40 anos, confrontando a natureza corporativa e infestada de tokenismo da empresa que a emprega. Ao lutar contra isso, ela vê sua vida desmoronar em um único dia: perde o serviço, o relacionamento e a mansão. Sua única escolha é alugar um quarto no 15º marchar do prédio de Mildred, uma jamaicana de 90 anos.
O que é magnético na atuação de Taís é essa humanidade caótica. Sua personagem faz escolhas intempestivas, é irônica e exausta, deixando evidente que a vida negra é um microcosmo de qualquer crise existencial universal. Mas é no trabalho de corpo que Taís atinge seu vértice interpretativo. Ela se move entre a rigidez de quem tenta sustentar a imagem de “mulher poderoso” e o colapso físico de quem já não suporta mais performar. Os ombros caem, o olhar se quebra, os gestos oscilam entre a ironia afiada e a fragilidade contida. Cada tensão muscular, cada pausa no marchar, cada respiração ofegante traduz o cansaço estrutural de uma existência pressionada a ser exemplo. Taís habita uma pele que descasca, tropeça e recomeça.
Yara de Novaes dirige, com Ivy Souza, e o espetáculo brinca habilmente com o tempo muito mais do que retrata a história de um texto britânico de Amanda Wilkin, traduzido por Diego Teza. Mayah tem que pausar diariamente para subir ao apartamento em um ritmo mais lento do que o frenético ritmo da metrópole, o que atinge o cerne do cansaço dessa jornada da qual seu isolamento é arrancado enquanto ela é pressionada entre duas forças geracionais vitais para a decodificação de si mesma. De um lado está a ancestralidade viva de Mildred, a personificação das lutas pelos direitos civis dos anos 1960 e o sigilo de um velho paixão; do outro, a vitalidade de Kemi, uma pequena da Geração Z que rejeita a teoria de permissão ou um convenção sombrio para subsistir.
Embora a forma sugira o solilóquio, Taís é categórica ao declarar que leste é um solo coletivo, prova disso é a presença decisiva das multiartistas Dani Nega e Layla no palco. Elas são a vida interna de Mayah, incorporada externamente. Enquanto Dani toca ritmos eletrônicos urbanos que controlam o tino de impaciência da personagem; Layla abre a kora africana, uma harpa tradicional de 21 cordas dos quais som acústico serve de esteio para momentos de ruinoso e libertação. É essa rica fusão sonora que não só faz a peça não toar uma vez que um sermão, mas também lhe confere um ritmo maleável.
Tudo isso trabalha com a transformação visual do figurino de Teresa Nabuco, que cai e se monta gradualmente em consonância com o colapso pessoal da protagonista, harmoniosamente com os cenários de André Cortez e a iluminação de Gabriele Souza que desenha cortes planos e negros, alternando entre o pesadelo burocrático da cidade e momentos de liberdade. O espetáculo sela a maturidade artística de uma atriz que está determinada a usar seu auge para expandir os limites do que nos é permitido sentir.
Três perguntas para…
… Taís Araújo
O que mais a instigou no texto da Amanda Wilkin a ponto de você perceber que essa era a história ideal para marcar o seu retorno ou a sua pesquisa no teatro?
Eu já estava em uma pesquisa sobre novas narrativas sobre mulheres negras, escritas por mulheres negras, principalmente, que tivessem vivência na origem. Eu buscava conversas e narrativas onde a sobrevivência não fosse o tema principal, e sim as subjetividades que atravessam a todos os seres humanos. Queria dar um passo além nessa narrativa.
Fiquei muito instigada por três coisas. Primeiro, pelo filme “Ficção Americana”, do diretor Cord Jefferson, que fala justamente sobre isso. Achei o filme engraçado e me trouxe esperança quando o vi. Eu pensei: “Porra, “Ficção Americana” acabou de dar um toque para a gente dar um passo nessa narrativa, recontar outras histórias.”
O segundo ponto foi o projeto “AmarElo”, do Emicida — não sei em qual ordem, se um ou outro —, mas muito pelo verso: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Descobrir que essas mazelas me definem é o pior dos crimes”, né? É dar o troféu para o nosso verdugo e nos fazer sumir. E também uma música do Jota.pê, que é “Ouro Marrom”: “Todo pranto de rancor se apague. Nossas filhas verão mais paixão que nós”
Ouvindo essas músicas, vendo esses filmes e lembrando muito de bell hooks, Toni Morrison, Audre Lorde, Sueli Carneiro, Cida Bento, enfim, as filósofas, principalmente as filósofas negras e mulheres, senti muita urgência de uma novidade narrativa. Portanto, pesquisei vários textos e encontrei esse da Amanda.
A narrativa coloca a sua personagem em contato com figuras que representam diferentes gerações (uma vez que a memória de Mildred e o vigor de Kemi). Porquê você enxerga esse diálogo e o papel das redes de solidariedade comunitária na emancipação de mulheres de idades tão distintas?
Nossa, eu acho fundamental. É muito lindo quando ela se encontra com uma mulher de 90 anos e uma moçoila de 20. Uma mulher que batalhou pelos direitos civis, pelos direitos que ela usufrui agora e uma jovem que está usufruindo desse recta plenamente, sem nem se questionar se era recta ou não. É muito lindo isso. Eu acredito plenamente nessa troca.
Particularmente, eu tenho muitas amigas que têm mais de 80 anos. A Aracy Balabanian, por exemplo, foi uma pessoa muito importante na minha vida. A Arlete Salles é uma das minhas melhores amigas. Portanto, eu convivo com mulheres muito mais experientes do que eu e vivo trocando experiências com elas. Esse é um tema que também me ronda e que eu adoro.
A peça transita muito pelo humor ácido para tratar de dores cotidianas. Na sua visão, uma vez que o riso e a ironia conseguem furar canais de diálogo com o público que o drama convencional às vezes não alcança?
Eu não tenho incerteza de que, através do riso, a gente consegue tocar de forma até mais agregadora e afetuosa em assuntos que são mais espinhosos. Se você perceber, a peça “O Topo da Serra” [espetáculo que estreou em 2015 sob a direção de Lázaro Ramos] também tinha essa propriedade. Não era um humor tão ácido, mas era o que eu chamo de uma montanha-russa de emoções.
O texto te faz rir, te faz rir, e depois puxa o seu tapete e te faz refletir, chorar ou se emocionar. Ou rir mais um pouco, rir de si mesmo, rir do que você está acostumada a passar e rir do ridículo que a gente vive. Eu sabor muito de textos com essas características.
Teatro Sesc Ginástico – Avenida Perdão Aranha, 187 – Núcleo, Rio de Janeiro. Quinta e sexta, 19h. Sábado e domingo, 17h. Até 24/5. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 15 (credencial plena e conveniados) em ingresso.com. Gratuito para o público cadastrado no Programa de Comprometimento e Gratuidade (PCG) do Sesc





