Filha de faxineira se tornou artista mundialmente célebre – 21/05/2026 – Ilustrada
No último Dia da Consciência Negra, Rosana Paulino chegou ao Museu de Arte do Rio de Janeiro, o MAR, não unicamente uma vez que uma artista visual consagrada, mas também uma vez que curadora.
Era o lançamento de uma série de minidocumentários sobre 20 artistas brasileiros negros e negras que desenvolvem trabalhos “de vantagem”, uma vez que ela destacou ao lado do diretor Fabiano Maciel.
“Isso não é uma vaga passageira. São artistas muito muito formados, com produções muito fortes e muito fundamentadas e que simplesmente não eram conhecidos”, ressaltou Paulino perante a plateia. “Estamos dentro de um momento histórico.”
O momento prolífico vem de caminhos abertos pela própria artista. Filha de um pintor de paredes e de uma faxineira, a paulistana é referência na arte brasileira e representa o país na 61ª Bienal Internacional de Veneza, ao lado da carioca Adriana Varejão.
No palco do MAR, estava à vontade no papel de decana da arte afro-brasileira. Voltar holofotes para o trabalho de outros artistas simboliza a nobreza dos seus 30 anos de curso —e o contraste com o início de sua trajetória.
“Trabalhei praticamente dez anos sozinha quando comecei”, conta a artista e educadora de 59 anos à BBC News Brasil, lembrando a pouquidade de artistas negros na cena contemporânea em meados dos anos 1990.
“Agora, a proliferação de artistas, críticos e curadores [afro-brasileiros] que temos… Esse é um quadro que eu não esperava ver em vida”, comemora.
“Falta muito? Falta. Mas é muito encorajador ver tantos nomes.”
Paulino vem enfileirando feitos nos últimos anos. Teve exposições individuais em cidades uma vez que Buenos Aires, Bruxelas e Novidade York, onde descortinou um quadro de nove metros de profundidade na High Line.
Teve obras compradas pela Tate Modern, em Londres, e pelo MoMA (o Museu de Arte Moderna de Novidade York), além de ter recebido prêmios uma vez que o Munch Award (que a destacou uma vez que “voz de liderança do feminismo preto” em sua primeiríssima edição, em 2024) e o Jane Lombard de Arte e Justiça Social (em reconhecimento por “História Oriundo”, de 2016, livro em que explora as histórias entrelaçadas da ciência e da violência racial).
Em um país com mais de 55% da população negra e parda, fingir que a visualidade brasileira é só aquilo que está nos museus, seguindo os critérios europeus ou o americano, é uma “sandice”, diz Paulino.
“Não podemos ter um sistema de artes visuais uma vez que tínhamos, ou ainda temos. Isso é uma anomalia. O Brasil é um país que não olha para si mesmo, que não se enxerga. A ingresso de negros e negras no quadro do país é salutar. Temos uma visualidade muito possante, e boa segmento vem das produções negras e indígenas.”
Comigo Ninguém Pode
Ao lado de Adriana Varejão, Rosana Paulino comanda o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, em uma edição composta unicamente de mulheres, sendo duas negras – a curadoria deste ano coube a Diane Lima, a primeira mulher negra competência a nascente missão.
“É uma oportunidade de discutir a formação do país de uma maneira sofisticada, apresentando para o mundo, junto com a Varejão, um Brasil dissemelhante, que muita gente não sabe que existe e que é fortemente marcado pela questão negra e pela relação com a natureza”, diz Paulino.
“Colocar essas discussões em um palco privilegiado uma vez que Veneza é realmente fantástico.”
O título da mostra, “Comigo Ninguém Pode”, vem de uma das obras de Paulino, da série “Senhora das Vegetação”, em que retrata mulheres com galhos, folhas e raízes em plena mudança com vegetais de poder.
Popular e com potencial tóxico, a comigo-ninguém-pode fala de “proteção, resiliência e estratégias de sobrevivência em contextos hostis”, descreve Paulino.
Não é a primeira vez de Paulino na Bienal de Veneza. Em 2022, ela foi convidada pela curadoria internacional para a mostra principal.
“É muito simbólico que Rosana esteja no pavilhão brasílico depois de estar na exposição principal”, diz Igor Simões, que foi cocurador de sua mostra individual no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o Malba, em 2024.
“A curiosidade estrangeira veio antes de o Brasil entender o quão gigante é a sua produção. Tê-la no pavilhão faz crer que o país esteja interessado em olhar para si mesmo, e para a material da qual é feito.”
Trabalhando com desenhos, pinturas, bordados, gravura, colagem, estátua e instalações, Paulino desenvolve obras que refletem sobre a posição da mulher negra, a ancestralidade e as marcas do colonialismo e da escravidão na sociedade brasileira.
Ela desconstrói imagens e teorias racistas de pseudociências que propagavam a inferioridade do preto para justificar a escravidão. “O racismo científico foi pouco estudado, mas é fundamental para entender a desumanização e a desvalorização desse corpo, a ponto de ser totalmente descartável”, afirma.
“Sem isso, a gente não entende uma vez que a polícia mata do jeito que mata. A gente não entende uma vez que 117 pessoas foram mortas no Rio de Janeiro naquele massacre [nos complexos do Alemão e da Penha]. A morte do cachorro Ouvido causou mais comoção do que 117 mortos enfileirados.”
Entrelaçando artes e biologia
Paulino nasceu e cresceu na Freguesia do Ó, na Zona Setentrião de São Paulo, à estação ainda um bairro rústico, onde a mãe criava galinhas e mantinha uma horto. O pai começou a vida descarregando caminhão de açúcar, até aprender o ofício de pintor de paredes. A mãe foi faxineira durante boa segmento da vida e bordava para complementar a renda.
“Nunca passamos rafa, mas não tínhamos luxos”, lembra Paulino, uma entre quatro irmãs. Ela passou uma puerícia de interno, brincando na rua, subindo em árvore, fazendo experimentos com térmita, coisa de quem logo cedo decidiu que iria estudar biologia, e juntou numerário na juventude para assinar a revista Ciência Hoje.
Ao lado do fascínio pela natureza, havia o sabor pelo que podia produzir com as mãos. Com barro tirado de um braço de rio perto de morada, sua mãe modelava mesinhas e cadeiras para as bonecas das filhas, que entravam no jogo. Adoravam traçar e brincavam com personagens que criavam no papel.
“Uma coisa que poderia ser um empecilho, que era falta de numerário para comprar brinquedo, ela acabou transformando em um motor para originalidade”, diz Paulino sobre a mãe, que até logo só havia completado a terceira série, mas tinha possante percepção para instrução. “Acho que o germe da escolha pela profissão de artista vem muito da minha puerícia.”
Quando a mãe descobriu um curso de traçado no Liceu de Artes e Ofícios, incentivou a filha logo com 15 anos a se matricular. Chegou ao vestibular com o coração bifurcado. Passou em biologia na Unicamp e em artes visuais na Universidade de São Paulo (USP). Nunca fez o primeiro curso, mas acabou entrelaçando os dois campos, trazendo a natureza para sua obra.
Paulino chegou ao doutorado na Escola de Comunicações e Artes Visuais da USP e se especializou em gravura no London Print Studio, em Londres, com uma bolsa da Capes, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
A temporada na Inglaterra foi importante para seguir o que estava acontecendo e sendo discutido fora do país, em uma estação em que a internet engatinhava.
Na primeira semana do bacharelado na USP, em uma das primeiras aulas, ouviu do professor: “Esqueçam tudo que vocês aprenderam. Agora vocês serão artistas eruditos”.
“Tá, agora eu faço o quê? Tiro minha pele e largo lá na porta?”, ela rememorou no Ducto Curta!. “Porque não é tema, é vivência. Não é tema, é premência. Não é tema, é ancestralidade.”
Abre-alas da arte afro-brasileira
Depois de desbravar os espaços elitizados da arte contemporânea, Paulino ajudou a retirar uma geração de artistas negras e negros, muitos amadrinhados por ela, que carinhosamente a chamam de “dinda”.
Alguns são retratados nos minidocumentários da série “Raiz”, do Ducto Curta!, uma vez que o artista Dalton Paula e o curador Igor Simões.
Simões ressalta seu papel de professora, orientadora e abre-alas para inserir “vozes negras no cubo branco da arte brasileira”, tomando emprestado o nome do ciclo de debates que o aproximou de Paulino, uns 15 anos detrás, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul —e que acabou virando um marco em sua curso e ensejando sua tese de doutorado.
“Rosana nunca se contentou com a possibilidade de ser a única negra da sala. Ainda mais uma sala repleta de pensamentos, ideologias e imaginários brancos. Ela fez de sua trajetória uma porta ocasião para que outras pessoas pudessem chegar”, afirma o curador, que agora comanda uma mostra de artistas afro-brasileiros em Novidade York.
Paulino conta que optou por não ter filhos porque não queria renunciar à curso. Foi logo que os afilhados começaram a chegar. “Eles que me escolhem uma vez que madrinha, não sou eu que adoto”, diverte-se.
Ela responde uma vez que a orientadora generosa que muitos pós-graduandos sonham em ter, mostrando o caminho das pedras. “Eu digo: ‘Você vai ler isso, você precisa falar com fulano e beltrano, você precisa ir para tal museu, você precisa desenvolver isso no seu trabalho’. Primícias a dar uma série de referências de artistas e teóricos. Uns dizem que sou a mãe de santo das artes”, conta ela, filha de Ogum com Iansã.
‘Não acredito em fazer numerário e trespassar do país’
O reconhecimento na esfera internacional proporcionou a Paulino “muitas cantadas” para trespassar do país, “sobretudo de universidades americanas”.
No entanto, ela permanece com os pés fincados na Zona Setentrião paulistana, onde nasceu. Seu ateliê, uma morada de três andares com luz oriundo e paredes virente simples, fica em Pirituba, bairro de classe média desassociado pela Risca 7 do Trem Metropolitano de São Paulo.
“Não acredito em fazer numerário e trespassar do país, ou em fazer numerário e sumir da minha região”, diz ela.
Em Pirituba, ela comprou uma morada em frente ao seu ateliê. Basta passar uma rossio, onde há sempre crianças brincando e onde sua equipe distribui cachos de bananas que crescem no quintal.
Sua teoria é transformar o espaço em um núcleo de pesquisas para receber estudantes e jovens artistas, com uma livraria especializada em arte, diáspora, questões afro-brasileiras e bibliografia da América Latina, Ásia, Oriente Médio, uma vez que uma tentativa de preencher lacunas de uma formação centrada na Europa e nos Estados Unidos.
“Tenho que ter uma ação comunitária além da produção de arte, senão minha vida não teria sentido”, afirma.
No espaçoso quintal da novidade morada, há espaço para suas plantinhas e uma horto que quer plantar, mas ainda não teve tempo, e um horizonte livre com vista para o virente da mata e o Pico do Jaraguá.
“O meu temperamento sempre foi assim, muito inquieto. Essa coisa de permanecer paragem, reclamando, chorando, não funciona comigo”, diz Paulino. “Não que transformar o status quo seja fácil. Não é.”
“Mas temos que arregaçar as mangas e ir em frente”, ela afirma. “Paladar de mudança. Paladar de ver o país se olhando, se reconhecendo e avançando.”





