A tarifa suplementar de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre o etanol brasiliano deve provocar impactos pontuais sobre empresas exportadoras, mas esse efeito tende a ser restringido sobre o conjunto da economia brasileira.
Especialistas ouvidos pela Sucursal Brasil avaliam que a medida tem possante componente político e ocorre em um momento quando o mercado norte-americano responde por menos de 16% do volume de etanol exportado pelo país.
A maior secção das vendas externas é, portanto, destinada a outros compradores internacionais, embora os EUA sejam atualmente o segundo principal rumo do etanol brasiliano.
“A participação dos EUA nas exportações brasileiras já vinha diminuindo há anos. Antes mesmo do tarifaço, esse peso já era relativamente pequeno”, contextualiza o professor do Instituto de Economia da Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Delorme Prado.
Na avaliação do perito em economia e negócio internacional, são pequenas as chances de essa tendência de tarifação ser revertida. “Evidente que é alguma coisa ruim, em peculiar para alguns setores específicos. Mas, verdade seja dita, não representa nenhuma tragédia para a economia do país”, acrescentou.
Para o professor da UFRJ, o mais provável é o Brasil fazer o que já vinha fazendo: buscar mercados alternativos para o etanol produzido no país.
Falta de previsibilidade
A procura por outros mercados – e a ajuda do poder público para essa procura – é alguma coisa cada vez mais necessário neste cenário de imprevisibilidades do governo de Donald Trump com relação às políticas comerciais que vêm sendo implementadas pelos EUA.
“Evidente que ninguém gosta de perder um mercado uma vez que o dos Estados Unidos, mas, nas circunstâncias atuais, pelo menos durante a atual governo estadunidense, esse mercado se tornou muito problemático porque não oferece previsibilidade nem racionalidade”, argumentou o professor da UFRJ.
Segundo Delorme, fazer investimentos voltados especificamente para atender esse mercado é, atualmente, alguma coisa extremamente aventuroso, motivo pelo qual o Brasil precisa buscar parcerias mais confiáveis.
“Não há garantias de que seja provável estabelecer políticas comerciais bilaterais minimamente previsíveis com os EUA porque o que move o tarifaço não são ganhos de natureza mercantil, mas a agenda política do governo deles para a América Latina”, acrescentou.
Participação minoritária
Em 2025, o Brasil exportou tapume de 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol (cada metro cúbico equivale a milénio litros), o que correspondeu a uma receita de quase US$ 1 bilhão. No mesmo período, os embarques para o mercado norte-americano somaram tapume de 253 milénio metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões.
De congraçamento com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), os Estados Unidos responderam por menos de 16% do volume exportado pelo Brasil e por tapume de 17,5% da receita obtida com as vendas externas do biocombustível.
Resumindo: mais de 84% do volume de etanol exportado (tapume de 82,5% do faturamento das exportações) tiveram uma vez que rumo outros mercados internacionais.
Competitividade
Segundo pesquisadores, a competitividade do Brasil no setor sucroalcooleiro representa vantagem na procura por mercados alternativos. Essas vantagens competitivas são estruturais, uma vez que o dispêndio de produção no país é menor e a produtividade por hectare é maior.
Professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Meio de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), Luis Augusto Barbosa Cortez explica que fatores uma vez que clima e solo ajudam significativamente o Brasil.
Ele lembra que os EUA produzem etanol basicamente a partir do milho. Já o Brasil, que sempre produziu a partir da cana-de-açúcar, passou, mais recentemente, a produzir também a partir do milho.
“E a tendência é de que a participação do milho na produção fique ainda maior”, afirma o coordenador do CCD Etanol.
Produtividade
Ele explica que o clima brasiliano possibilita a produção de milho em uma segunda safra, alguma coisa que ocorre em graduação muito menor nos EUA, uma vez que boa secção da superfície cultivada encontra-se em regiões que vivem as limitações climáticas de um inverno mais rigoroso.
“O produtor brasiliano pode colher soja até o mês de maio e, na sequência, plantar milho para colheita em outubro. Dessa forma, uma mesma superfície pode produzir duas safras por ano”, detalhou Cortez.
Atualmente, tapume de 75% do etanol produzido no Brasil tem origem na cana-de-açúcar, enquanto os 25% restantes são produzidos a partir do milho.
Segundo o pesquisador, a participação do milho na produção de etanol vem crescendo rapidamente. A expectativa é que alcance tapume de 30% da produção pátrio até 2030 e que, por volta de 2050, possa se igualar à participação da cana no setor.
Cortez explica que, um dos motivos para o aumento da produção de etanol de milho está associado à integração entre lavradio e pecuária, o que torna o setor ainda mais competitivo na corrida pelo mercado internacional.
“Produzir etanol de milho no Brasil está se tornando cada vez mais vantajoso. A atividade pode ser integrada à pecuária porque seu farelo serve de insumo para alimento bicho. Essa integração também traz ganhos ambientais, já que reduz a urgência de áreas de pastagem”, acrescentou.
O perito destaca também vantagens no processo industrial, uma vez que, no Brasil, secção da vigor utilizada nas usinas é gerada a partir da biomassa do bagaço, tanto da cana uma vez que do milho, o que reduz ainda mais os custos de produção.
“Nos Estados Unidos, eles precisam comprar vigor para secção do processo de produção do etanol. No Brasil, resolvemos isso dentro da própria usina. Por isso o dispêndio deles é maior”.
Na produção a partir da cana, há também a questão da produtividade, que é maior do que a obtida a partir do milho. O Brasil produz aproximadamente 7 milénio litros de etanol por hectare de cana plantada. Nos Estados Unidos, a produtividade chega, no sumo, a 5 milénio litros.
Questão é política
Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Niels Soendergaard avalia que as medidas adotadas pelos EUA contra o Brasil têm “caráter eminentemente político”, apesar de apresentarem uma “maquiagem técnica”.
“A governo Trump, diante da guinada para governos de extrema direita na América Latina, deixou de tratar a questão tarifária de forma técnica, uma vez que havia sido a abordagem do governo brasiliano, e embarcou em uma postura de tentar manipular os desdobramentos políticos no Brasil por meio de pressão econômica externa”, argumentou.
Para Soendergaard, do ponto de vista técnico, a argumentação dos EUA não procede. “O Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Transacção (OMC), e a queda das importações de etanol dos EUA deve-se ao aumento da produção de etanol fundamentado em milho no Brasil”.
Ele explica ser perceptível que o governo Trump faça afirmações “parciais ou inteiramente divorciadas dos fatos concretos” para pressionar outros países. “Vemos isso inúmeras vezes, motivo pelo qual o governo Trump não pode ser tratado uma vez que um interlocutor confiável”.
Contexto
Os Estados Unidos justificam a imposição de tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros com base em investigação do Escritório do Representante Mercantil dos EUA (USTR), segundo a qual determinadas práticas adotadas pelo Brasil seriam discriminatórias ou prejudicariam a economia norte-americana.
Entre os pontos questionados estão o chegada ao mercado brasiliano de etanol, regras relacionadas ao negócio do dedo e aos sistemas de pagamento eletrônico, questões de propriedade intelectual, medidas anticorrupção e o desmatamento proibido.
O governo brasiliano rejeita essas alegações e afirma que a investigação não tem respaldo nas normas multilaterais do negócio internacional.
Repercussão setorial
A tarifação recebeu críticas das entidades representativas tanto dos produtores de etanol a partir da cana uma vez que do milho.
Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), ao contrário do que os EUA alegam, “a política brasileira para o etanol está plenamente alinhada às regras da OMC, sendo aplicada de forma não discriminatória e em conformidade com os compromissos multilaterais assumidos pelo Brasil”.
A entidade argumenta que não existe qualquer congraçamento bilateral entre Brasil e EUA que obrigue o Brasil a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol norte-americano.
“Da mesma forma, a redução das exportações de etanol dos EUA para o mercado brasiliano decorre, sobretudo, da expansão da produção pátrio, mormente do etanol de milho, e não de alterações na política tarifária brasileira”, complementou.
A Unica disse incumbir na forma uma vez que o governo brasiliano tem transportado as negociações e reiterou a resguardo de uma solução baseada no diálogo e no reverência às regras do negócio internacional.
Unem
Posicionamento similar foi apresentado pela União Pátrio do Etanol de Milho (Unem). De congraçamento com a entidade, o Brasil não adota práticas discriminatórias, destacando que a tarifa brasileira de importação de etanol é aplicada de forma igualitária e em conformidade com as regras da OMC.
“Embora a emprego da tarifa tenha impacto direto restringido sobre as exportações brasileiras de etanol, uma vez que os EUA não constituem atualmente um mercado prioritário para o resultado brasiliano, a decisão preocupa pelos precedentes que pode estabelecer”, informou por meio de nota a Unem.
A entidade também credita a redução das importações de etanol norte-americano pelo Brasil à expansão da produção pátrio de etanol de milho, muito uma vez que aos ganhos de competitividade do setor.
Por termo, a Unem reafirma sua crédito no diálogo institucional entre os governos dos dois países e defende que eventuais divergências comerciais sejam solucionadas por meio da negociação, preservando uma parceria estratégica fundamental para a transição rumo a uma economia de inferior carbono.





