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Teatro Riachuelo recebe Piaf com Laila Garin no Rio
Celebridades Cultura

Teatro Riachuelo recebe Piaf com Laila Garin no Rio – 08/10/2026 – Mise-en-scène

Quando uma atriz se propõe a interpretar alguém que existiu de verdade, é fácil desabar na insídia de plagiar trejeitos, cacoetes e o modo de falar da figura retratada. Uma vez que se bastasse reproduzir a superfície para trazê-la de volta à vida. Laila Garin, no entanto, recusa esse tramite.

Ao dar corpo a Édith Piaf (1915-1963), ela não se limita a reencenar a imagem que o público já conhece há tempos. Sobe ao palco, isso sim, para investigar com o próprio corpo a violência de uma existência atravessada por fraturas —e o modo uma vez que essas fraturas, inevitavelmente, acabam convertidas em arte.

A montagem de “Piaf – Eu Não Me Arrependo”, dirigida por Sergio Módena, com texto de Newton Trigueiro e Alessandro Toller, entende muito onde está o coração do espetáculo. Em papeleta a partir de 10 de outubro no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, tudo na cena —da cenografia firme de André Cortez à música conduzida por Cláudia Elizeu— existe para sustentar e dar espaço à jornada que Garin constrói ao longo de duas horas e meia de entrega totalidade.

E essa jornada aparece no corpo da atriz, no modo uma vez que o tempo e o cansaço vão se instalando nele. No prelúdios, Garin surge enxurro de juventude, elétrica e luminosa uma vez que a moça de quinze anos que descobre na rua sua primeira voz. Conforme a história avança, essa pujança vibrante vai, aos poucos e quase sem que a gente perceba, dando lugar ao desgaste causado pelas drogas, pelos acidentes e pela artrite que não dá trégua.

Laila traduz esse declínio nos pequenos gestos: os dedos que endurecem, os ombros que se contraem, o corpo que muda de eixo e parece encolher sob o peso da dor que não passa. E é justamente contra esse invólucro cada vez mais frágil que se ergue uma voz vulcânica, controlada com extrema precisão.

Com um domínio originário da prosódia francesa, a vocábulo de Garin limpa o repertório de décadas de verniz mercantil. Em “La Vie en Rose”, ela extrai uma melancolia áspera onde o grande público costuma ver somente romantismo açucarado. Em “Mon Dieu” e “Hymne à l’Amour”, o quina vira reação física, quase desespero diante do luto e do descuramento. No orgasmo com “Non, Je Ne Regrette Rien”, o fôlego sustentado e a firmeza da voz transformam a recusa ao compunção em um verdadeiro manifesto de vida.

Ao festejar trinta anos de curso, Laila Garin eleva o teatro músico de grande porte a um nível de densidade dramática raramente visto no giro mercantil. Sua Piaf é a prova de uma tradutor no auge de sua expressividade, que faz da voz seu instrumento mais preciso.

Três perguntas para…

… Laila Garin

Há um momento em que a partitura corporal precisa trair a partitura vocal: uma vez que é trovar com toda a potência de Piaf mantendo o diafragma e a caixa torácica presos à postura encurvada e rígida de um corpo em colapso?

Piaf sempre foi uma voz potente em um corpo de pardal. A voz é o que a mantém de pé e o que fez dela quem ela foi. Essa voz luta, quer se erguer, não se curva. A voz de Piaf continua viva entre nós até hoje. Não morreu. É a incoerência da própria vida: a morte e a existência convivendo. É ela se consumindo para poder trovar —e só permanecendo viva justamente porque canta.

Interpretar figuras devoradas pelo próprio mito costuma deixar resíduos no corpo de quem atua. O que você faz fisicamente posteriormente o fechar das cortinas para entregar Piaf ao camarim e resgatar a Laila?

Faço fisioterapia (risos), exercícios de mobilidade torácica, desaquecimento e economia vocal [princípio de alcançar a máxima eficiência fonatória com o mínimo esforço ou trauma físico nas pregas vocais].

Ao completar trinta anos de palco de forma tão intensa, você parece tratar a voz uma vez que um documento ético. O que na sua Piaf pertence estritamente ao Brasil de hoje e zero tem a ver com a Paris do século pretérito?

Somos brasileiros contando Piaf. Talvez a nossa Santa Teresa traga alguma coisa de “Auto da Compadecida”. O texto é de dois autores brasileiros de agora, contemporâneo. Cá, Piaf assume a própria narrativa, e isso é muito 2026.

Eu sou franco-baiana. Sempre fui híbrida, mas sempre vivi no Brasil; não sei separar essas duas metades. Eu convertido com ela, com o que imagino que ela seja. Manipulo seus gestos e traços, brinco com o meu imaginário e com o do público. E nós estamos fincadas no presente. No palco, estou mais do que nunca no agora: é presença absoluta. E eu, apesar de franco-brasileira, vivo a verdade daqui.

Quando quina “Les Mômes de la cloche” (“As Garotas de Rua”), todas as minhas referências são do Brasil. A minha consciência de classe é brasileira, ainda que com pai galicismo. Sou filha de mãe parda brasileira. Minhas marcas e cicatrizes são daqui, somente com um olor cultural e uma genética francesa.

Acho que a nossa montagem é o olhar do Brasil contando Piaf. Porque somos nós em cena, não teria uma vez que ser dissemelhante. Está tudo misturado, mas são brasileiros narrando essa história. E, no ponto exato em que sinto minha psique encontrar a dela, já não existe nacionalidade alguma.

Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 38, Núcleo – Rio de Janeiro. Quinta e sexta, 20h. Sábado, 15h30 e 20h. Domingo, 15h. Até 1º/11. Duração: 150 minutos (15 minutos de pausa). Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 25 (meia-entrada balcão) em www.ingresso.com


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Folha

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