O teatro para crianças muitas vezes peca pelo excesso de didatismo, simplificando o mundo porquê se o público infanto-juvenil não acompanhasse pensamentos complexos. “O Pequenino Grão de Areia”, de João Falcão, vai na contramão: traz o espanto diante das coisas simples e foge da condescendência. A montagem não mastiga explicações; prefere incumbir na sensibilidade das crianças, deixando no ar perguntas sinceras sobre afeto e solidão, sem prelecção de moral.
Os grãos de areia da praia não são heróis perfeitos. Eles têm contradições, medos, teimosias, choros e risos. A rotina serena do grupo se quebra quando um deles se apaixona por uma estrela. Não há vilão: o conflito brota do choque entre a lógica prática da maioria e o libido desproporcionado do sonhador. O deboche inicial logo se desfaz, virando rede de base. Assim, o sonho, que parecia delírio solitário, acaba humanizando todo o grupo.
No palco, zero de telas ou truques digitais. A montagem aposta na força do encontro presencial e no trabalho consistente do elenco formado por atores e atrizes com trajetórias diversas no teatro, na música e no audiovisual, reunindo diferentes gerações, formações e linguagens cênicas.
O mar que destrói um fortaleza de areia, por exemplo, é evocado unicamente pelo peso e pelo ritmo dos corpos dos atores. Eles conversam com a plateia, mostram as costuras do teatro e brincam com os próprios erros, num jogo que mimetiza as brincadeiras de puerícia, em que as regras se reinventam a cada momento.
Esse jogo escancarado desfaz a seriedade do palco e convida o público para dentro da cena. Ao propor o hábito de encontrar formas de girafas, sapos e lagartas nas nuvens, a peça resgata a espontaneidade dos quintais e estimula o pensamento associativo das crianças.
A música nasce originário das falas, tocada e cantada ao vivo. O cenário limpo dá liberdade ao movimento, enquanto a luz conduz o testemunha do sol da praia ao mistério do oceano. Embalados por sapatos coloridos que desenham coreografias e acrobacias que simulam a procura pelo firmamento, o espetáculo não termina no ovação: oficinas e conversas estendem o aconchego no pós-peça, transformando o teatro em um diálogo real sobre porquê construímos nossos laços e lugares no mundo.
Três perguntas para…
… João Falcão
Uma vez que é o tirocínio de olhar para um texto escrito no início da curso e reescrevê-lo décadas depois? O que o tempo costuma pedir para um responsável trinchar ou alongar na própria obra?
É um pouco porquê se fosse um encontro comigo mesmo, com a idade e o pensamento que eu tinha na era. Foi uma experiência muito rica e divertida ao mesmo tempo. Acho que o tempo nos torna mais generosos. Durante o processo, enquanto buscava aprofundar os assuntos, foquei principalmente em tornar tudo mais simples e mais evidente para quem assistisse.
Suas montagens costumam dar um peso muito grande ao trabalho corporal dos atores e à música feita ao vivo, abrindo mão de grandes pirotecnias tecnológicas. Por que apostar no despojamento e no analógico em uma era tão dominada pelas telas digitais?
Penso que a origem do teatro está no trabalho do ator. O que mais me encanta nele é a representação ao vivo, em que o público percebe todo o truque, mas mesmo assim consegue se envolver com a mágica que a cena provoca. No palco, acho que a representação é sempre mais importante do que a remontagem.
Em tempos onde o consumo de entretenimento é tão rápido e efêmero, qual é a valia de estender a experiência do teatro para além do espetáculo, promovendo conversas e oficinas com o público posteriormente as sessões?
Conversar sobre o papel do teatro no mundo em que vivemos nos ajuda a compreender por que essa é uma arte que independe das atualidades de cada tempo. Ele é, sempre foi e sempre será um evento efêmero. Não se deixa vigilar porquê um filme ou um quadro na parede. Acho que, por isso mesmo, é eterno. Para amá-lo, é preciso compreender sua efemeridade porquê um valor.
Teatro Sesi SP – avenida Paulista, 1.313 – Jardim Paulista, região medial. Quinta e sexta, 11h. Sábado e domingo, 15h. Até 26/7. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Gratuito em sesisp.org.br/evento
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