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'Terra de Empusas', de Olga Tokarczuk, escancara misoginia 10/07/2026
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‘Terra de Empusas’, de Olga Tokarczuk, escancara misoginia – 10/07/2026 – Ilustrada

O ChatGPT veio ao mundo em 2022, no mesmo ano em que Olga Tokarczuk publicou “Terreno de Empusas” na Polônia. O livro chega agora ao Brasil em meio à polêmica em que a ganhadora do Nobel de Literatura se envolveu ao expressar em um evento que usou recursos de perceptibilidade sintético ao ortografar o seu romance mais recente, ainda não lançado.

“Terreno de Empusas”, assim, não teria zero a ver com o quiproquó. Incomodado ao terminar a leitura da obra, mas, não fui capaz de não relacionar as coisas. Para justificar esse desconforto, preciso falar um pouco sobre o texto.

O livro, traduzido para o português por Luiz Henrique Budant, narra a história de um estudante de engenharia polonês que, em 1913, se hospeda em um sanatório para tratar uma tuberculose em estágio inicial. Ali convive com outros doentes, com os quais passeia pelas florestas das montanhas locais, bebe licores “medicinais” e discute (ou finge discutir) variados assuntos em uma Europa às vésperas do início da Primeira Guerra Mundial.

A referência mais evidente da obra é “A Serra Mágica”, que Thomas Mann começou a ortografar em 1912 e publicou só em 1924. O plumitivo germânico testemunhou a turbulência e as contradições de seu país e do continente e, em “tempo real”, deu forma literária elevada a algumas das crises que levaram a situação a tal proporção de ruptura.

Tokarczuk, centena anos depois, sabendo o que sabemos e vivendo o que vivemos, mantém o envolvente e as circunstâncias, altera a estrutura narrativa e rebaixa de modo formidável a discussão.

Se Hans Castorp, o protagonista engenheiro de Mann, era “medíocre”, a falta de “qualidade” de Wojnicz, o acovardado personagem principal de “Terreno de Empusas”, é de outra natureza, e infinitamente maior.

E a desproporção é ainda mais acentuada se pensarmos naqueles que o cercam. O romance de Tokarczuk, que tem uma vez que subtítulo “Uma História de Horror no Sanatório”, está povoado de imbecis pretensiosos de tino moral precário. Só que o conflito de ideias banalizadas é entremeado por intrigas de histórias policiais e pela presença permanente de elementos sobrenaturais.

As “empusas”, termo que a autora toma emprestado do heleno clássico, tornam-se figuras fantasmáticas de mulheres em procura de vingança e justiça, e o texto aos poucos nos ensina que esse “nós” coletivo controla eventos e pode assumir o comando da narrativa: “Nós sabemos”, “nós os vemos”, “zero mais diremos”.

Simultaneamente, a trouxa de preconceito nas falas dos personagens, em peculiar a misoginia, vai se tornando cada vez mais possante à medida que a trama progride.

A orquestração de tantos aspectos ao longo de mais de 300 páginas é magistral. A engrenagem posta em movimento por Tokarczuk é muito precisa. O tecido de fundo policial, o envolvimento sobrenatural, a alternância de vozes, o ritmo, o jogo de referências (inclusive nos nomes dos personagens), a sátira que se torna a cada capítulo mais contundente a um mundo desde sempre moldado por e para homens —e na nossa atualidade por eles tão destruído—, tudo no romance funciona muito muito.

Mas, ao terminar o livro, nos deparamos com uma nota da autora que informa o seguinte: “Todas as visões misóginas sobre mulheres e seu lugar no mundo são paráfrases dos textos dos seguintes autores”. E aí vem uma lista de mais de 30 nomes, de Platão e Ovídio a Conrad e Darwin, de Hesíodo e Simônides de Ceos a Freud, Nietzsche e Sartre, de Shakespeare a Kerouac.

De trajo, o “cânone ocidental” é masculino (e branco e europeu). O livro já deixava isso simples sem a nota, compartilhando e ecoando um grito de alerta que vem sendo emitido há décadas e que segue sendo pouco ouvido.

Talvez a exposição de nomes tão importantes seja um instrumento válido, mas tenho sensação de que, ao “denunciar” Ovídio ou Shakespeare, por exemplo, fundindo neste presente voraz passados tão distantes e distintos e misturando discursos de autores e personagens, Tokarczuk está usando informações de um modo similar ao ChatGPT.

E assim uma vez que não seria difícil encontrar passagens misóginas em ficções de Clarice Lispector ou Virginia Woolf (que obviamente não têm zero a ver com o que pensam as autoras), a partir de agora, uma IA ou qualquer um que queira poderá usar trechos do romance de Olga Tokarczuk do mesmo modo. Daí o incômodo.

Folha

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