Testamentos: criador fala de personagens e mais temporadas – 26/05/2026 – Ilustrada
Há alguma coisa muito poderoso em ser uma pequena jovem. Até mesmo em Gilead, uma teocracia fictícia imaginada por Margaret Atwood, que ocupou o lugar dos Estados Unidos e onde as mulheres são meras perpetuadoras da espécie. “Não tem a ver com seu poder na sociedade, é uma coisa de potência física, sexual, emocional, de crescer, de ver tudo isso explodir”, diz o roteirista e produtor Bruce Miller.
Foi ele que transformou em série “O Raconto da Camareira” (“The Handmaid’s Tale”), obra-prima da canadense Atwood, e agora dá vida à sequência dessa distopia social tão presciente, “Os Testamentos: das Filhas de Gilead”.
A segunda temporada foi confirmada pouco depois ele conversar com a reportagem da Folha, no último dia 20. A primeira, que chega ao término nesta quarta (27) depois dez episódios na Disney+, é permeada tanto pela força súbita que o roteirista descreve quanto por uma esperança teimosa inimaginável na primeira adaptação, que ficou no ar de 2017 a 2025 e cavou um lugar definitivo na cultura pop.
“Acho que [essa mistura de forças] traz otimismo”, diz. Não importa o que tentem fazer com elas. Tentam arrancar a juventude delas, e isso não funciona.”
Não que “Os Testamentos” tenha um enredo infanto-juvenil, longe disso. Ainda assim, a teoria de racontar a história de um regime hediondo pelo ponto de vista de quem cresceu dentro dele subverte a lógica de sofrimento que marcou “O Raconto da Camareira”. É um fôlego bem-vindo nestes tempos em que o noticiário compete com a ficção quando os temas são autoritarismo, misoginia e retrocesso de direitos civis.
A série, porquê o livro, alterna relatos de três mulheres que Gilead forjou: Agnes (Chase Infiniti), a filha da protagonista de “O Raconto da Camareira” sequestrada e criada por uma família da escol lugar; Daisy (Lucy Halliday), uma pequena canadense cooptada pelos rebeldes e enviada ao núcleo do regime porquê espiã; e tia Lydia (Ann Dowd), a responsável por educar as filhas da fidalguia e já conhecida na série anterior porquê a implacável tutora das aias (as servas sexuais obrigadas a repovoar o país).
É uma visão daquelas que foram “privilegiadas” por Gilead, ainda que esse privilégio se manifeste de forma circunscrita. “Eles colocam [as meninas] em um pedestal, depois as derrubam e pisoteiam. Permitem que elas tenham vontades e depois dizem que ter vontades é alguma coisa terrível. Querem que elas se tornem criaturas perfeitas, mas que não pensem e sejam assexuadas”, afirma Miller.
O showrunner não faz a confrontação; é difícil, porém, ouvir seu observação e não pensar na promoção da cultura das “tradwives”, segundo a qual a felicidade, para as mulheres, está exclusivamente em servir ao marido. Por isso, talvez “Os Testamentos” sirva porquê sobreaviso para jovens (e velhos) que andem encantados com a retomada de um pretérito simples e idílico que na verdade nunca existiu.
“Há muita diferença em Gilead entre as pessoas que conheceram o mundo porquê ele era e aquelas que não conheceram zero. Para nós que assistimos, porém, as coisas não são claras asim. Veja Agnes e Hulda [sua colega, vivida por Isolde Ardies]. São mulheres fortes, tomam suas próprias decisões. E não são as decisões que o governo quer que elas tomem”, aponta, referindo-se à obrigação do conúbio na juventude com um varão que elas não escolheram.
Esse elemento traz uma anfibologia moral a “Os Testamentos” que não aparecia, ao menos não porquê um tema relevante, em “O Raconto da Camareira”. Já o mote secular de que os fins justificam os meios, recorrente tanto nos defensores do regime quanto nos rebeldes, continua a ser um firmamento da história.
É sob essa luz que temos o retorno da tia Lydia, personagem magistralmente interpretada por Ann Dowd. Nela residem as principais provocações e dualidades de “O Testamento”, mais evidentes quando temos um flashback de sua vida pregressa. Antes uma colaboradora, Lydia agora também é uma sobrevivente, frisa Miller.
Com a mudança na missão das tias —de tutoras de aias para educadoras de futuras esposas—, Lydia passa a se preocupar com seu legado, ao mesmo tempo em que desperta para a prevaricação no sistema de Gilead, onde nem as mulheres que supostamente estão no topo escapam de uma vida servil.
“Tem alguma coisa na forma porquê ela se autoexamina, a franqueza, sua perceptibilidade, as justificativas que dá a si mesma, que faz com que nos conectemos. Ela não está mentindo para si mesma de uma forma imbecil, ela está mentindo de uma forma que nós fazemos para mesmos.”
Miller conta que foi Dowd quem infundiu mais humanidade à personagem, deixando patente a ternura de Lydia pelas alunas, ou mesmo por algumas das aias, apesar de tudo. Se isso será suficiente para movê-la resta saber.
“Esse paixão está incrustado na Lydia da mesma forma que está incrustado na Ann Dowd, alguém que adora seus colegas de cena. Isso transparece. A incongruência da Lydia nasce na atriz. Isso é o melhor da TV, você consegue, com o tempo, levar coisas do tradutor para o personagem.”
O roteirista diz que não esperava deixar uma marca tão potente no imaginário pop quando começou, na dez passada, o projeto de levar a obra de Atwood às telas —o livro “O Raconto da Camareira” foi lançado em 1985; a sequência passou 34 anos em produção e só chegou às livrarias em 2019. (Miller comenta que a obra tem muitos fãs no Brasil, e solta um “sinto muito” sincero ao ouvir que há motivos para isso).
“Eu fiquei surpreso [com a repercussão], nunca estive envolvido em zero assim. Por aí você vê o poder desse livro, 40 anos depois, com a série, parece que foi escrito agora.”
Uma sátira que o responsável recebeu em relação a “O Raconto da Camareira” foi a de que a série se esticou por temporadas demais, esgarçando a história do livro. E em “Os Testamentos”, há mais temporadas por vir?
“Acho que cobri pouco do livro na série. Enquanto as pessoas estiverem interessadas na história, eu adoraria continuar acompanhando esses personagens, e a TV permite que você explore pequenos desvios na narrativa”, afirma. “Vou permanecer feliz se alguém fizer outra série com base nos livros. Sou tão fascinado pelo que está acontecendo [no seriao] que não acho que esteja esticando zero.”
Por ora, os desdobramentos no mundo real parecem corroborar a opinião de Miller. Não que isso seja bom sinal.





