No palco, as palavras são quase todas incompreensíveis para a plateia. Cantadas em tamasheq, língua dos tuaregues do Saara, as músicas da orquestra Tinariwen falam de um cotidiano no deserto impensável para brasileiros. Ainda assim, no Brasil, o público dança, acompanha os riffs de guitarra e responde aos movimentos dos músicos.
Neste mês, a Tinariwen retornou ao Brasil, dez anos depois a última visitante, e fez uma série de shows no país. Foram do Circo Voante, no Rio de Janeiro, ao Sesc Franca e ao Sesc Pompeia, com duas datas, em 24 e 25 de setembro. Depois, o grupo seguiu para uma última apresentação no Mimo Festival, em Olinda.
Durante os shows, seis integrantes dançam no palco, trocam gestos com o público e arriscam “obrigado” e “merci”. No repertório, músicas uma vez que “Azawad”, que abriu a apresentação, “Imidiwan Takyadam”, “Amassakoul ‘n’ Ténéré” e “Tiwàyyen” fazem lembrar que o Tinariwen faz, mesmo, um grande show de guitarras.
“A música é uma língua que conecta todo mundo”, diz Abdallah Ag Alhousseyni, cofundador, vocalista e guitarrista do grupo. Para ele, não é necessário compreender as palavras para que uma melodia produza uma reação.
Formado em 1979, o Tinariwen surgiu entre comunidades nômades tuaregues espalhadas pelo Saara, em uma região atravessada pelas fronteiras atuais de Mali, Argélia, Líbia e Níger. O nome do grupo significa deserto, e sua música se tornou uma das pioneiras do chamado “desert blues”, combinação de ritmos tradicionais tuaregues, esquina coletivo e guitarras elétricas influenciadas pelo rock e pelo blues.
A história do grupo está ligada à história de deslocamento dos próprios tuaregues. Os integrantes viveram em campos de refugiados, passaram pela Argélia e pela Líbia, e alguns receberam treinamento militar. Em 1990, no Mali, alguns músicos participaram da revolta tuaregue contra o governo e, depois dos acordos de silêncio, o grupo deixou as armas e passou a se destinar à música em exílio.
Antes de saber palcos internacionais, o Tinariwen circulava pelo Saara, tocando em festas e casamentos e espalhando suas músicas por fitas cassete. O reconhecimento fora do setentrião africano veio sobretudo a partir dos anos 2000. Em 2012, o álbum “Tassili” ganhou o Grammy de melhor álbum de world music.
A identidade do grupo também aparece nas roupas que seus integrantes usam no palco. Os longos tecidos azuis e índigo, que dão origem ao sobrenome “povo azul”, cobrem o corpo, e o branco do rosto faz referência ao tagelmust, turbante tradicional usado pelos tuaregues, e às vestes empregadas para proteção contra o clima extremo do deserto.
Segundo Abdallah, um músico inevitavelmente leva para suas canções o envolvente em que vive. “Em São Paulo, poderiam surgir máquinas, aviões, o sonido da cidade. No deserto, aparecem outras sensações. Para quem conhece aquele envolvente, seria verosímil reconhecer na música alguma coisa da experiência do deserto. Para quem nunca esteve lá, talvez a percepção seja dissemelhante”.
Foi mal o grupo chegou a músicos uma vez que Robert Plant, Thom Yorke e José González. Nascente último, apreciador do Tinariwen desde o álbum “Aman Iman”, de 2007, participa de “Hoggar”, mais recente disco da orquestra, lançado neste ano. Cá no Brasil, os fãs da vez foram Seu Jorge e Juçara Marçal, que prestigiaram a orquestra na apresentação da sexta-feira no Pompeia.
Para Abdallah, as canções não existem exclusivamente para falar de tristeza ou guerra. Elas contam a história do povo tuaregue, falam de alegria e procuram levantar o ânimo das pessoas. Também podem estimular a perenidade das reivindicações da população.
O músico afirma que os tuaregues enfrentam dificuldades para viver de conformidade com seu modo de vida tradicional, marcado historicamente pelo nomadismo, diante das fronteiras estabelecidas pela geopolítica contemporânea.
O conflito que envolve os tuaregues, que se arrasta há mais de seis décadas, “é um conflito de tuaregues que querem ser livres e independentes”, diz Abdallah. Hoje, segundo o músico, militares malianos e mercenários russos do grupo Wagner têm atacado comunidades da região. As acusações são segmento do contexto político retratado em “Hoggar”, que transforma a experiência recente de violência e deslocamento em matéria-prima para as canções.
A própria circulação internacional da orquestra passou a ser afetada por fronteiras. A turnê que levaria o Tinariwen aos Estados Unidos foi cancelada depois que o governo Donald Trump ampliou restrições de ingressão que atingem cidadãos do Mali.
No bis, a apresentação chega à catarse. Na sexta (25), no Pompeia, um dos músicos, já sem os tecidos que cobrem seu rosto, surge usando um boné do MST, diante de uma plateia já entregue ao transe do grupo.
“Esperança é que o que mantém a música genuína durante todo o tempo, e é essa esperança que vai manter a geração conectada com a passagem do tempo”, diz Abdallah. “É essa esperança no coração que faz com que os músicos consigam que o tempo passe e a música permaneça.”




