Titãs têm comunhão com plateia em novo show 29/03/2026

Titãs têm comunhão com plateia em novo show – 29/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Algumas pessoas, provavelmente muito poucas, talvez ainda duvidem que “Cabeça Dinossauro” seja o maior disco do rock vernáculo. Mas quem esteve na moradia paulistana Espaço Unimed na noite deste sábado, na introdução de uma turnê que comemora os 40 anos do lançamento do álbum, deixou ali qualquer incerteza.

“Cabeça Dinossauro” mudou radicalmente a curso dos Titãs. Neste terceiro álbum, depois de dois discos com mistura de rock, pop, reggae e até pitadas de jovem guarda e música brega, o grupo mergulhou em rock rápido, quase punk, de letras contundentes.

A margem botou o pé na porta numa era politicamente conturbada, quando muitos ainda duvidavam do término da ditadura militar. Os Titãs dispararam tiros certeiros nas instituições. Os títulos das canções raivosas já entregavam qual era o escopo de cada filete: “Família”, “Igreja”, “Polícia”.

Assistindo ao show com todas as músicas do álbum tocadas num conjunto inicial, na ordem das faixas no vinil, é fácil perceber que “Cabeça Dinossauro” é muito mais do que rock rápido e gritado. É um mosaico de tudo que podia incomodar um jovem em 1986, da chatice do almoço familiar ao desfeita de ver um companheiro surrado pela polícia.

Trata-se de um álbum de gente inconformada e disposta a botar a boca no trombone. Falando em boca, na gravação do disco os Titãs tinham cinco vocalistas, às vezes cantando em uníssono. Era uma das novidades do álbum, e tornou-se marca registrada do esquina titânico.

Com as saídas de Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulo Miklos, hoje permanecem do quinteto vocal Sergio Britto e Branco Mello. Enquanto Britto assume uma boa fardo de vocais no show, Mello consegue driblar os problemas com a voz depois de passar por duas cirurgias. Rouco uma vez que gostam os fãs de heavy metal cavernoso, ele faz uma entrega emocionante. Enfim de contas, o rock é resistente.

E Tony Bellotto, que na era da opulência dos cantores no grupo ficava restringido a tocar guitarra, aparece muito mais no palco. É um guitarrista veterano que melhora com o passar do tempo, muito à vontade na figura do “guitar hero”. Porquê vocalista “iniciante”, segura firme canções muito escolhidas para sua voz, uma vez que “Família” e “Igreja”.

Porquê os outros, Bellotto fez uma performance física vigorosa. Entre uma melodia e outra, ele agradeceu a seus médicos que estavam na plateia, saudando o cirurgião que o operou para tratar um cancro recente. “Se não fosse ele, eu não estaria cá”, disse o guitarrista.

A primeira segmento do show, que é o “Cabeça Dinossauro” completo, provoca uma confraria incrível entre margem e público. E uma surpresa —uma plateia dividida em integrantes de várias gerações. A celebração dos 40 anos do disco não foi unicamente nostalgia, mas a catequese do público mais jovem.

Depois de “O Que” fechar a leal reprodução do álbum, os Titãs partem para uma estratégia, no mínimo, muito corajosa. Seria fácil completar o show com os inúmeros hits da margem, mas o trio preferiu pinçar do repertório dos outros álbuns do grupo canções que pudessem dialogar com “Cabeça Dinossauro”.

Em outras palavras, rocks acelerados, batidas fortes e letras agressivas. Um repertório sem preocupação de fazer os fãs entoarem hits. Algumas canções estão mais presentes na memória afetiva da plateia, uma vez que “Será que É Disso que Eu Necessito”, do disco “Titanomaquia”, de 1993, enquanto outras não encontram a mesma repercussão, uma vez que “Eu Não Sei Fazer Música”, do álbum “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, de 1991.

Algumas músicas soavam uma vez que inéditas para segmento da plateia. Caso de “Cantiga da Vingança”, que faz segmento de “Doze Flores Amarelas”, a ópera-rock lançada em 2018. Britto chegou a divertir com a estranheza do público diante de algumas canções. “Quantos cá conheciam essa?”, disparou.

Além de separação dos vocais, cada Titã original se dedicou a um instrumento —Britto nos teclados, Branco no ordinário e Bellotto na guitarra. Eles subiram ao palco acompanhados do baterista Mario Fabre e dos guitarristas Beto Lee e Alexandre de Orio, todos com rodagem nas turnês recentes.

Essa escolha de repertório reduz um pouco a resposta empolgada do público depois do bombardeio de “Cbeça Dinossauro”, mas talvez isso pudesse intercorrer mesmo com músicas mais conhecidas. As faixas do disco que completa 40 anos são realmente melhores do que as colegas de repertório dos Titãs, ou de qualquer outra margem.

E isso é extremamente evidente. Até canções mais básicas, uma vez que “Tô Cansado” ou “Dívidas” são muito mais poderosas do que praticamente tudo que o rock vernáculo lançou nas últimas décadas. Quando eles tocam as mais complexas “AA UU”, “Porrada”, “Bichos Escrotos” ou “O Que”, essa conferência é até cruel.

Mas, para aprovação universal da plateia, o grupo escolheu para o sprint final do show algumas músicas que estão na coleção de hits: “Diversão”, “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, “Lugar Nenhum” e “Eu Não Aguento”, esta praticamente um filhote de “Polícia”, com refrão matador: “Eu não aguento, eu não aguento / É de noite, é de dia / Mão na cabeça e documento!”.

Para o bis consagrador, dois sucessos da primeira prateleira: “Desordem” e “Flores”. Essa última pode não conversar com o repertório do homenageado “Cabeça Dinossauro”, mas é mais um atestado da força criativa do Titãs.

Folha

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