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Tom Zé chega aos 90 se dizendo um dodecafonista sertanejo
Celebridades Cultura

Tom Zé chega aos 90 se dizendo um dodecafonista sertanejo – 11/10/2026 – Ilustrada

Tom Zé diz que está de boca ocasião. Votou no primeiro vez desta eleição, mas esperava outro resultado. “Todo mundo estava claro de que iria escolher Lula e, quando chegou a apuração, deu meio que empate”, ele afirma, em sua moradia no bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo, onde mora há mais de 50 anos.

O baiano recebeu o repórter às vésperas de completar 90 anos, neste domingo. Na sala do apartamento, papéis espalhados dão pistas das celebrações —exposição na Caixa Cultural São Paulo, uma novidade biografia, shows no Circo Volátil, no Rio de Janeiro, no Sesc Pompeia, na capital paulista, e no Festival Saravá, em Florianópolis.

Nisso estão um disco da série “Relicário”, do Sesc, com a gravação de um show feito pelo cantor há 30 anos, e um álbum de inéditas. Ele não deu detalhes da obra, adiantada pela fita “Horizonte Fruto”.

Entre tantos compromissos, a política interessa pouco. “Nem quero comentar, estou esperando o que vai sobrevir”, diz. “Eles estão próximos de tomar o poder novamente. E a gente fica de boca ocasião, sem saber que país é esse que está votando na ditadura.”

Tom Zé se refere à família Bolsonaro, apologista do regime militar. Neusa Martins, com quem o cantor é casado desde 1970, pede para ir “com calma” no objecto. “Ele já foi recluso”, ela diz. “Foi logo quando casamos”, ele emenda.

O músico foi recluso duas vezes no período —uma pelo Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, e outra pela polícia geral. Na segunda, ela passou dias sem saber o paradeiro dele. O motivo era uma ponta de cigarro de maconha numa frasqueira de viagem, depois de ele ter seu apartamento revirado. O artista diz que experimentou, mas nunca gostou de fumar a relva.

No prelúdios dos anos 1960, Tom Zé trabalhou em Salvador uma vez que diretor de música do Meio Popular de Cultura, o CPC, que era financiado pelo Partido Comunista. Mas ele nunca foi comunista. “Eu escrevia sobre o que queria, mas comunista eu não era. Você vai deixar de ser servo dos Estados Unidos para ser servo da Rússia? Qualquer pessoa que se desse um pouco de liberdade era chamada de esquerda.”

Em sua obra, a política surge uma vez que extensão do modo de ver a sociedade. “Grande Liquidação”, seu disco de estreia, de 1968, retrata uma São Paulo em processo de industrialização pelo ponto de vista de um nordestino. O consumismo impulsionado pela publicidade e a vida acelerada eram alvos de sua ironia.

Em “Poluição”, do álbum “Todos os Olhos”, de 1973, o artista canta que a cidade está “com a consciência podre” em meio a tanto lixo e fumaça. “Eu fazia discos inteiros com motivos diversos das cidades”, diz. “Isso estava nos jornais todos os dias —a sujeira, a limpeza, a tentativa de civilizar cada vez mais.”

Na letra, a cidade pega tuberculose e bronquite, num exemplo do antropomorfismo que marca a caneta de Tom Zé. Ele cantou as ruas de São Paulo uma vez que se fossem mulheres em “Augusta, Angélica e Consolação”, do mesmo álbum. Em “A Recontro do Prédio Itália com o Hilton Hotel”, de 1972, os prédios ganham características humanas.

A influência, diz, foi Adoniran Barbosa. “Ele já fazia essas coisas. É praticamente um plágio formal das músicas dele.”

A hipocrisia e as injustiças vinham no retrato de figuras marginais —uma vez que em “Camelô” e “Profissão de Ladrão”, ou nas garotas de programa de “São São Paulo”, hino de paixão e ódio à cidade. “O moralismo é o que regia o rosto que estava no jornal. E a rua responde com a imoralidade da vida popular.”

Vez ou outra, Tom Zé entrava na mira dos militares. Quando não era censurado, passava horas tentando liberar as obras. “Moça Amanhã de Manhã”, hoje uma de suas canções mais conhecidas, tratava do regime. “Da propaganda e da ditadura”, diz. “Começa uma vez que uma música de esperança, mas, quando eu vou tirando [as palavras], vira uma trepação.”

A felicidade surge uma vez que um pouco pesado e forçado —”vai desabar sobre os homens”, “mete pânico” e “fecha a roda”—, da qual não há tergiversação. As palavras portanto vão sendo cortadas até o que o responsável labareda de “quase putaria”. “Moça, a felicidade/ é enxurrada de ‘A’/ é enxurrada de ‘E’/ é enxurrada de ‘I’/ é enxurrada de ‘O’”, diz a letra.

É clara a influência da verso concreta, mas essa abordagem já vinha misturada com Jackson do Pandeiro, que cantou “‘A’, ‘E’, ‘I’, ‘O’, ‘U’, ípsilon” em “Sebastiana”, de 1953. Esse coco nordestino caiu nas graças da tropicália e foi gravado depois por Gal Costa e Gilberto Gil.

Tom Zé teve participação ativa no tropicalismo. Fez “Namorinho de Portão”, que Gal gravou; sua “Astronauta Libertado” virou “2001” com Rita Lee e Os Mutantes; e ele está na capote do disco “Tropicália ou Panis et Circencis”, de 1968, em que canta “Parque Industrial”. Sua “Jimmy, Renda-Se” é puro tropicalismo.

Mas, quando Caetano Veloso e Gil foram exilados, Tom Zé ficou solitário. No documentário “Fabricando Tom Zé”, de 20 anos detrás, ele revelou mágoa com os dois, e o próprio Caetano assumiu a culpa pelo esquecimento vivido pelo parceiro.

Hoje, para Tom Zé, isso é objecto superado. “Sempre fui vizinho deles —por sermos da roça, eu mais ainda do que eles— e apreciador. Uma vez que você vai deixar de apreciar umas criaturas que fazem o que aqueles caras fazem?”

Antes de ser lembrado por David Byrne, nos anos 1980, Tom Zé viveu um período de vacas magras. Rodava o interno tocando para universitários. Procurava nos jornais menções a seus discos. De 1969 a 1993, não tocou no Rio de Janeiro.

São dessa era seus álbuns mais celebrados atualmente —entre eles “Todos os Olhos”, de 1973, “Estudando o Samba”, de 1976, e “Nave Maria”, de 1984. Incensados pela sátira no exterior, eles foram revistos em seu país de origem.

Ele não se aprofunda no tema. “Teve uma era que fiquei muito jogado fora cá no Brasil”, diz. “A vida é assim. Às vezes, uma coisa que tem prestígio não é olhada, mas esses discos voltaram. Quando fui aos Estados Unidos e tudo quanto foi país, o Brasil passou de novo a olhar. Logo está tudo resolvido, né?”

Segundo ele, o interesse dos estrangeiros é mera curiosidade. “É uma música dissemelhante. E, sendo dissemelhante, mesmo sendo brasileira, é uma coisa curiosa.”

Mas a visão deslumbrada de fora passa por uma inventividade profunda a partir dos anos 1970. De uma enceradeira quebrada da mulher, Tom Zé construiu o “enceroscópio”, um dos vários instrumentos que confeccionou para botar outros barulhos em sua música.

“A enceradeira estava com defeito. Você botava o dedo, ela parava. Quando tirava, mexia. Falei ‘isso é um instrumento’”, diz. “Peguei outra enceradeira, botei algodão, arame e ficou do mesmo jeito. Fiz um instrumento com enceradeiras, cada uma de uma maneira.”

Além do “buzinório”, com buzinas, fez também o “hertzé”, espécie de “sampleador” pré-digital em que usava um gravador para reproduzir, por meio de teclas, ruídos urbanos e outros sons. É provável ouvir essas engenhocas em “Estudando o Samba”, o disco que fisgou David Byrne, e “Nave Maria”, além da obra pós-redescoberta, depois de 1990.

“Assim uma vez que o pandeiro se transformou em música, a enceradeira, o ‘buzinório’ e os instrumentos de percussão podiam ser tratados de uma maneira que viravam instrumentos”, afirma.

Sua música se distanciou do grande público sem desabitar uma base primordial —a música popular brasileira. “Era música de música e de coisa estranha. Isso fazia secção da estranheza. Era a prova de que havia muita coisa em volta que podia se transformar em música.”

Esses caminhos abriram um debate sobre sua classificação uma vez que tropicalista. Ele aprofundou as experimentações enquanto Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa despontavam uma vez que ícones pop da MPB. Para uns, Tom Zé é o verdadeiro tropicalista. Para outros, só integrou o movimento ocasionalmente. Para ele, tanto faz. “Apareceu essa discussão, e Deus abençoe essa discussão. O mundo está aí para inventar discussão. Mas não estou nem aí. Estou trabalhando a vida toda, uma vez que estou agora.”

Algumas premissas da tropicália já estavam em Tom Zé antes de serem elaboradas por Caetano e Gil. O impulso de borrar barreiras entre “subida” e “baixa” cultura começou em moradia. Desde menino, o cantor falava duas línguas —a do sertanejo e a dos intelectuais da capital.

Quando ele nasceu, em 1936, não havia luz elétrica em Irará. A cidade baiana fica numa dimensão de transição geográfica —tem tanto características do bravio quanto do sertão nordestino.

Seu pai, de origem pobre, ganhou na loteria e ascendeu socialmente —a ponto de, segundo o cantor, ser lido uma vez que branco. “Ele era branco porque passou a agir uma vez que os brancos. Mas o povo todo de lá tem uma cor uma vez que a minha —meio mulato, não branco”, diz, lembrando os avós maternos, seu Pompílio e dona Genésia, que eram “muito mulatos”.

A novidade biografia, “Um Vira-Lata na Via Láctea”, escrita pelo americano Christopher Dunn, mergulha nas origens de Tom Zé. Pompílio, diz o livro, “possuía extensas terras nos periferia de Irará, incluindo fazendas de rebanho e plantações de tabaco”, ligadas ao mercado de exportação à Europa. Num contraste com a escol latifundiária branca do Nordeste, afirma a obra, eles “tinham prosápia africana e indígena”.

“Na moradia de meu avô, o jantar era às cinco e meus tios conversavam na língua dos colégios de Salvador”, diz Tom Zé. “Quando dava nove, me botavam num quarto remoto para dormir. Mas eu não dormia. Ficava passando as palavras que ouvia no jantar para ver se meu raciocínio tinha pegado seu sentido correto. Eu ia gravando assim as palavras.”

Foi pela família materna que ele teve chegada aos livros, entre eles “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. “Quando leio Euclides, já sei aquela língua porque falava com o trabalhador da roça. Todo mundo ficava espantado, porque quem estuda no ginásio não sabe.”

Tom Zé aprendeu esse linguagem trabalhando desde moçoilo no balcão da loja de tecidos do pai, de onde até hoje parece olhar o mundo. “Eu atendia o varão da roça, que fala essa outra língua. Para ter teoria, só lendo Guimarães Rosa.”

Ele já conhecia o esquina das lavadeiras, as bandas marciais e os cantadores quando teve uma epifania estética. “Esse camarada meu de rua chegava com o violão, eu nem sabia o que era isso”, diz. “Ele fez um contraponto de primeiro intensidade em movimento contrário —dó, si, lá, sol, enquanto a voz canta dó, si, dó, ré. Me arrepiou completamente. Me tirou do planeta Terreno. Fiquei com isso na cabeça, mandei comprar um violão e fiquei tentando aprender.”

Sua primeira elaboração censurada veio muito antes da ditadura. “Maria Granito Tenro”, em que descreve figuras populares de Irará, virou febre na sarau da padroeira da cidade. “O povo da rua, que já sabia a música, ensinou à filarmónica. E a filarmónica veio tocando. Aí passaram tocando na igreja e o padre proibiu. Mas o povo continuou cantando.”

Entre os personagens retratados, diz a biografia, estão os dois únicos homens claramente homossexuais daquela Irará, um sujeito divulgado por morder o braço quando ficava irritado, uma mulher que falava sozinha e uma figura que completava frases iniciadas por outros. A protagonista, afirma Tom Zé, “trepava com os meninos de família, os botava no mundo do sexo”.

Muito do que viria a ser a música de Tom Zé já se anunciava ali. Mas foi estudando na Universidade Federalista da Bahia, a partir de 1964, que ele abriu a cabeça para a experimentação. O teutónico Hans-Joachim Koellreutter não só deu aulas a Tom Zé, mas também fez da Faculdade de Música baiana uma extensão da revolução que promoveu na música brasileira ao inserir conceitos vanguardistas europeus uma vez que a dodecafonia. Ele ensinou de Tom Jobim a Moacir Santos, incluindo os principais maestros da tropicália, Rogério Duprat e Júlio Medaglia.

Foi Koellreutter, segundo Tom Zé, quem o convenceu a prestar o vestibular. Ele estava considerando voltar a trabalhar com o pai em Irará porque havia parado de receber moeda do Partido Comunista no Meio Popular de Cultura. “Falei ‘uma vez que vou fazer vestibular?’. Nas matérias teóricas eu era bom, mas um ditado mais simples eu caía do cavalo.”

O cantor havia aprendido um método de harmonização por conta própria e impressionou os professores. “Eu sabia toda aquela coisa de atingir o ponto culminante quando estava já no terceiro quarto da música, descendo até o repouso da tônica. Mas sabia o mundo da música popular também. Logo, passei em primeiro lugar no vestibular. Eu que não era zero, você veja.”

Em Salvador, ele participou dos shows “Nós, Por Exemplo” e “Novidade Bossa Velha e Velha Bossa Novidade”, com Caetano, Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Com esse grupo, foi a São Paulo em 1965 apresentar o espetáculo “Estádio Canta Bahia”. Voltou à Bahia para concluir os estudos e deu aulas de contraponto e simetria na universidade, antes de ir de vez para a capital paulista, em 1968.

“Sou essa miscigenação. Esse nordestino da roça que aprendeu dodecafonismo. Um dodecafonista sertanejo.”

Tom Zé é, na verdade, o resultado de várias misturas —do sertão com o bravio, do preto e do indígena com o branco, do popular com o erudito, da tradição com a vanguarda, do interno com a metrópole, do humor conseguível com a refinada sátira social, do rumor com a simetria. Um tropicalista por origem, que se tornou também o mais extremo deles.

O baiano destrinchou ao sumo a hipótese de fazer das limitações materiais a própria material de sua arte. “A indulgência que eu tinha era justamente a capacidade de observar o que estava em volta e que não era música. Era ter nascido num mundo onde o povo falava a língua da roça que ninguém ligava”, ele afirma. “O defeito tem grande prestígio para mim. É só isso.”

Folha

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