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Livro 'Filho', de Thallys Braga, expõe abismo de classes
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Livro ‘Filho’, de Thallys Braga, expõe abismo de classes – 11/10/2026 – Ilustrada

Enquanto escrevia “Fruto”, o jornalista Thallys Braga era um neto fazendo um combinado com os avós: não abram meu livro.

“Tivemos longas conversas sobre os motivos pelos quais eu não gostaria que eles lessem”, diz o jornalista que, em seu primeiro título, lançado pela Companhia das Letras, toca em assuntos que poderiam reabrir feridas antigas. Porquê a morte da filha primogênita deles, Luciana. A mãe de Thallys.

“Não quero que sofram ainda mais lendo as descrições do dia do infarto dela e das dificuldades financeiras que enfrentamos na minha puerícia”, afirma. Tem mais coisa. “Também não acho que eles precisem saber a quantos meninos eu ofereci sexo verbal na juventude.”

Que tipo de mãe Luciana foi? E que rebento ele era? Thallys descreve uma mulher que sofre e pratica violência a toda hora, mas que também podia ser muito carinhosa. Na hora de dormir, ela batia os mesmos sete toques na parede do quarto do rebento, no ritmo de “eu – te – senhor”.

Luciana se virava em bicos e trabalhou por anos uma vez que empregada doméstica e babá na Barra da Tijuca e no Recreio, período que serviu uma vez que chá revelação de classe social para o rebento.

Portanto eles eram pobres! Impossível não concluir isso quando comparava sua veras suburbana no Rio com a dos patrões da mãe, gente que tinha pets enormes e peludos, “do qual xampu era mais dispendioso que o perfume que ela queria comprar da Avon”.

Luciana chegou a dormir madrugadas na passeio para conseguir matricular Thallys na escola. Endividou-se para que ele, em vez de trabalhar, estudasse para o vestibular. O desgaste e a dificuldade em fechar as contas no término do mês abalaram sua saúde física e mental. Tinha esporão nos pés, dores crônicas e obesidade. Morreu cedo, aos 41 anos.

A mãe sabia provar a raiva tão muito quanto o paixão. Quando muchacho, o menino apanhava com cinto, chinelo, vara de goiabeira, o que estivesse perto. Seus pecados eram muitos: chegar sujo de vasa da rua, mostrar o dedo do meio, folgar de boneca.

Luciana não reagiu muito ao deslindar que o rebento de 13 anos era gay. Nem o resto da família, inclusive os avós que, anos mais tarde, tratariam sua orientação sexual “com bastante naturalidade e bom humor”, segundo o responsável. Com ajuda da família, a mãe queimou no quintal de moradia discos e pôsteres de divas pop que Thallys venerava, Lady Gaga supra de todas. Impôs-lhe um longo período de isolamento.

Ele também sentiu raiva. Porquê diz no livro, não pôde recorrer a ela para expressar “eles me chamaram de viado, mãe”, porque ela responderia, “portanto vira varão, porra”.

Thallys sabe que sua obra vai ser enquadrada uma vez que a de mais um trânsfuga de classe, frase que a própria editora usa na sinopse.

É alguém que ascendeu socialmente e agora sente que não se encaixa recta em nenhum dos mundos: nem o do pretérito pobre, em que ninguém entenderia seu excitação com uma exposição de Jean-Michel Basquiat ou por que gasta tanto numa soda de caju com limão-siciliano, nem o presente elitista, rodeado de famílias servidas por mulheres iguaizinhas à sua mãe.

Relata o ranço por muitos dos novos amigos e conhecidos, “os mesmos intelectuais” que “fazem qualquer coisa para participar dos jantares na moradia do Caetano Veloso e ignoram as acusações públicas de abusos psicológicos e morais que uma empregada fez contra ele e a esposa”.

Sua literatura não é condescendente com a vida antiga. Não poupa o tio que fez dele “um menino assustado” nos tempos em que sua homossexualidade virou tabu familiar. “Na hora do banho, eu costumava mijar na escova de S e a esfregava dentro da minha bunda, imaginando que os seus dentes cairiam quando ele fosse escová-los pela manhã”, escreve.

Thallys se formou numa universidade pública, tornou-se repórter de uma revista coqueluche da escol progressista, a Piauí, publicou um livro por uma grande editora, fez viagens ao exterior e passou a frequentar a zona sul carioca.

O upgrade social veio escoltado por um sentimento de deslocamento, no qual o responsável continua se enxergando uma vez que o “viado pobre de Inhoaíba” que alcançou o conforto material, mas carrega o susto uniforme de perder tudo e ser forçado a retornar às suas origens.

Ele diz que não os chateiam “motivos que podem levar alguém a ler ‘Fruto’ uma vez que literatura de trânsfuga”. Porquê leitor, foi impactado por Édouard Louis e Annie Ernaux, que lhe forneceram “qualquer vocabulário para falar de desconfortos que eu sentia, mas não sabia nomear”.

Porquê jornalista, não tem a formação em sociologia de um Didier Eribon, portanto não teve a pretensão de fazer um manifesto político. “Talvez seja tempestivo descrever meu livro uma vez que o registro político de um tempo, de um lugar e de um notório tipo de gente brasileira.”

Não que o rótulo de fofoca autobiográfica lhe pareça ruim. “Aprendi a descrever histórias ouvindo e transmitindo fofocas no portão de moradia, na saída da igreja e na escola. Foram os primeiros relatos que me comoveram. É uma forma de narrar histórias verbal e bastante suburbana.”

Tudo muito que deu roupas intelectual à modalidade, com palavras bonitas e considerando aspectos sociais que familiares não compreendiam. “Mas no final das contas estou honrando a nossa tradição.”

Sobre expor pessoas que não pediram para ter suas histórias devassadas de forma tão pública, cá Thallys fecha com Ernaux. Em sua literatura, a francesa relatou intimidades de si mesma e dos que a rodeiam, inclusive o dia em que seu pai tentou matar sua mãe.

Diz Ernaux que ter vivido uma coisa dá a uma pessoa o recta imprescindível de escrevê-la. Relatar o que viveu também não é um dilema para ele, Thallys admite.

“Fui uma muchacho reprimida por um tio adulto e violento. Um garoto que transou no banheiro da igreja com outros garotos que eram homofóbicos em público e hoje são casados com mulheres. Fui um namorado enamorado que abriu mão de uma relação linda, profunda, porque não consegui sustentar a consciência das nossas diferenças sociais.”

São todas histórias com pelo menos dois lados, afirma. “Quem quiser descrever com suas próprias palavras o pretérito que compartilha comigo, também tem o recta.”

Fora Luciana e Marcelo, o pai ausente —assassinado a tiros quando Thallys tinha dez anos—, ninguém é nomeado. O responsável usa iniciais para, segundo ele, “prometer que essas pessoas existam somente no universo do livro e não tenham suas vidas públicas afetadas pelo que escrevi”. Sim, elas podem se reconhecer nas linhas, mas ao menos não serão identificadas e buscadas, por exemplo, em redes sociais.

O pacto para que os avós maternos não leiam “Fruto” continua de pé. O responsável só teve notícia de um parente que encarou o livro: a esposa do tio S, de quem sofreu homofobia com mais violência enquanto crescia.

“A reação dela foi ruim. Eu não esperava o contrário. Não me arrependo de zero que escrevi. E tenho fé de que narrar um traumatismo não se equipara a maltratar um menino porque ele colocou as mãos na cintura.”

Folha

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