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Três peixes grandes que entraram por uma janela no Copan
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Três peixes grandes que entraram por uma janela no Copan – 04/05/2026 – Socorro Acioli

Quero principiar falando de São Paulo. Sabor dessa terreno desde a primeira visitante, em 1998, mas nunca tive o libido de permanecer para morar e vencer na vida, trabalhar nas grandes empresas, aquelas histórias. Um irmão da minha mãe veio tentar a vida em São Paulo nos anos 70. Ficou por uns tempos e eu ouvi conversas em vivenda, em sigilo, contando que ele se vestia de mulher e andava nas ruas. Era matéria proibido.

Um dia, eu e minha avó acordamos ao mesmo tempo, com uma voz de varão no nosso quarto. Não havia ninguém. Para mim era só murmúrio, mas ela entendeu o recado: era o meu tio José avisando que tinha completo de morrer. Uma hora depois o telefone tocou e confirmou a notícia que já sabíamos pelo espírito dele. Morreu na contramão da vida, em uma rua de São Paulo, a cidade que ele amava e que passou a ser tema proibido na família.

Muitos amigos migraram. Voltavam para Fortaleza de férias com sotaque rapidamente modificado, era incrível. Dar claro na capital paulista era sinônimo de vitória naqueles tempos. Para ser honesta, eu acho que nunca quis por preguiça mesmo. Fortaleza move-se com menos agonia e mais brisa. Menos sujidade e mais maresia. Meu temperamento mal consegue passar a avenida Paulista a tempo, antes de o sinal fechar de novo. Eu me distraio com as pessoas, vou vagarosamente. Meu motor interno não acompanha o ritmo que São Paulo exige.

Enquanto o tempo passava, fui me tornando mais ficcionista e menos jornalista. O ofício de inventar me rendeu convites para vir a São Paulo participar de eventos nas áreas de literatura e instrução. Conheci muitos bairros, passei a ter restaurantes preferidos, amigos, lembranças felizes, mas sem o libido de permanecer. Até aquele dia.

Era julho de 2021. Quando percebi, eu estava perdidamente apaixonada por um prédio. De tantos lugares na cidade, caí de amores pelo prédio Copan desde a primeira hora em que me hospedei lá e abri a janela. Era uma semana muito fria de julho, um apartamento de marchar superior, muito perto do firmamento cinza, as montanhas ao alcance da mão, um mar de construções e muita luz, muitos carros, pessoas vivendo nas suas janelas.

Na mesa de cabeceira, os anfitriões deixaram uma placa com meu nome e do meu marido, Socorro e Júlio. E um quadro com a frase: zero será uma vez que antes. Havia o cotidiano alheio pelas vidraças enormes, famílias jantando, solitários em suas atividades rotineiras. Pena que eu enxergo tão mal de longe e nem tenho binóculo para poder descrever agora, com mais detalhes, o que acontecia naqueles apartamentos.

Para minha felicidade, os leitores do Brasil inteiro começaram a gostar tanto das minhas histórias inventadas, foram comprando tantos livros, que um dia percebi que poderia comprar um dos 1.160 apartamentos do prédio Copan. Niemeyer pensou em moradias de vários tamanhos. Era ali meu lugar. A proprietária vendeu e foi plantar orquídeas.

Com a escritura em mãos, entrei no grupo dos moradores no WhatsApp e me apresentei, pedindo que me contassem as histórias do Copan que eles sabiam. As assombrações, principalmente elas. Recebi muitos relatos. Fantasmas fixos. Advertências sobre moradores, os loucos, os famosos e as duas coisas ao mesmo tempo.

Foi quando um vizinho me perguntou se minha janela ficava do lado dos brises. Respondi que sim. Pois tenha zelo, ele disse. Em uma noite de chuva possante, apareceram três peixes grandes na minha sala. Voaram? Caíram do firmamento?

Cá só cai bituca de cigarro, outros disseram. Já recolheram calcinhas, viram pessoas engatinhando, gatos de verdade, pombos visitantes.

Eu não quero que me digam que a história dos peixes é peta. O Copan é meu idílio. O apartamento é meu presente, é da memória do meu tio José, de todos os Josés e Marias que vieram antes de mim. Se eu comprei esse sonho suspenso inventando mentiras legítimas, não preciso provar a existência dos peixes, exclusivamente gerar a vida deles.

Continuarei morando em Fortaleza, mas venho sempre visitar meu esquina. Meu apartamento está em reforma, hoje vou dormir em outro que aluguei no Copan. Era de um senhor que morreu recentemente, seus móveis continuam lá. Um piano vetusto, cadeiras escuras, a leito, o janelão para São Paulo. Avisaram que as moças da limpeza morrem de terror. Estou tranquila. Qualquer coisa, se qualquer fantasma quiser me perturbar, tenho certeza de que os Três Peixes estarão a postos para me salvar de qualquer desventura.

P.S! A partir de hoje, passo a grafar toda semana na Folha.


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Folha

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