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Trupe teatral que trata loucura como potência ganha filme
Celebridades Cultura

Trupe teatral que trata loucura como potência ganha filme – 23/10/2026 – Ilustrada

“Acho que tem a ver um pouco com a minha vivência com a paranoia. Fui me acostumando com essa sensação de ter alguém me ouvindo, alguém me observando, alguma coisa estranha acontecendo”, diz Leonardo Cavalcanti, um dos atores da companhia de teatro Ueinzz, ao ser questionado sobre sua naturalidade diante das lentes do filme “Telúrica, a Íntima Utopia”, dirigido por Mariana Lacerda.

Em papeleta na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa será exibido neste sábado (24), no Instituto Moreira Salles, e na próxima quarta-feira (28), no Espaço Petrobras de Cinema. Lacerda afirma ter buscado um filme que não tomasse o grupo porquê objeto, mas nascesse de uma construção compartilhada com a trupe teatral.

O documentário mostra os ensaios e apresentações da peça “Telúrica”, dirigida pela encenadora Elisa Band, há dois anos, na Mansão do Povo, no núcleo de São Paulo, assim porquê o processo artístico incomum desse grupo, descrito por Luan Bittencourt, um dos atores, porquê “uma espécie de comunidade provisória para existências que aprenderam a sobreviver sem precisar fingir que estão inteiras”.

Prestes a completar 30 anos, a companhia surgiu de uma sugestão de Alexandre Bernardes, que à quadra frequentava o hospital-dia A Mansão, de gerar um grupo teatral.

Ao contrário das iniciativas terapêuticas ou pedagógicas com pessoas que têm ou tiveram contato com a loucura, portanto mais comuns nesse campo, a proposta era fazer do teatro um espaço de experimentação estética. Não se tratava de expelir a estranheza do desvario, mas de tomar isso porquê vetor poético e político.

Desde portanto, com a saída de alguns membros e a morte de outros, a formação original se alterou bastante. Atualmente dirigida por Band, a trupe ensaia sem rigidez, entre conversas, danças e propostas dos atores e da diretora. Segundo Lacerda, a filmagem veio potencializar esses encontros. Ensaios de duas horas passaram a ter oito horas.

A intimidade construída ao longo das 12 diárias transparece no filme, segundo Peter Pál Pelbart, filósofo e um dos coordenadores do grupo. “A gente pôde colocar na roda pensamentos, práticas e ficções das mais inusitadas, inauditas. Em nosso cotidiano, algumas dessas dimensões às vezes não aparecem, mas tudo isso coube ali. Não só coube, porquê ganhou um esplendor.”

Numa cena do filme, enquanto a filósofa Juliana Fausto conversa com os atores sobre o significado de “Telúrica”, Jayme Menezes intervém. “Puxa, eu não sei quais são os espíritos que me habitam”, ele diz, e, em seguida, afirma, para a surpresa dos colegas, que consegue conversar com alguns animais —mas não com qualquer um, unicamente com os selvagens. A fala desencadeia uma conversa sobre a intimidade com a fauna e as relações entre espécies.

Esse envolvente intimista, porém, não se deu por eventualidade. Lacerda diz que foi quase porquê um namoro de onça. Ela começou filmando com o celular, passou para uma câmera pequena e só depois, quando o grupo se acostumou com a sua presença, introduziu a câmera de cinema. “Quando você chega com a câmera, você desperta no outro um tanto que ele também não conhece”, diz a diretora.

Quando indagado sobre porquê foi estar adiante das câmeras, Marco Antônio Machado, ator do grupo, sorri de esquina de boca e, com os olhos azuis dispersos pela sala, responde “eu gostei, para mim era puro procedente, puro procedente, procedente puro”. Nisso, outro membro da trupe o interrompe e diz “naturalmente”, em tom bem-humorado.

Nem sempre as dinâmicas dos ensaios se repetem nas apresentações. Às vezes, um dos atores decide falar além do que estava combinado e acaba interferindo em outra cena; em outras, são os colapsos pessoais que acabam por transformar e ressignificar o roteiro. “É justamente esse estado em que tudo e zero podem ocorrer que traz uma vitalidade para as nossas peças”, diz Band.

Durante a última apresentação de “Telúrica” na Cúpula do Theatro Municipal, Valéria Manzalli, uma das atrizes, ficou inconsciente no início de uma cena. Com a morada lotada, alguns atores correram até Menezes, que contracenaria com ela. “E agora?”, perguntavam, perplexos.

Determinado a realizar a cena, ele entrou no palco e caminhou em direção à atriz. “Falei para ela que eu ia fazer aquilo para que todos se lembrassem do que ela tinha para falar. Nesse momento, Val se levantou. Mesmo com ela semiconsciente, caminhamos e fizemos a cena. Naquele momento, eu realmente era um fauno e ela era uma divindade da terreno”, diz o ator.

O filme passou pelos festivais de Curitiba e Belo Horizonte —neste último, recebeu o prêmio de destaque do júri. “Eu era uma pessoa, e me ver na tela foi porquê se eu visse outra, porquê se não tivesse nenhuma consciência, sabe, porquê se tivesse me sumido e nascido de novo”, afirma o ator Rodrigo Sano. “Mas sinto que aprendi muito durante as filmagens. Portanto, se tiver outro filme, está reservado, entendeu?”

Folha

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