‘Valsa nº 6’, de Nelson Rodrigues, retorna com feminismo – 05/07/2026 – Ilustrada
Sônia, uma juvenil de 15 anos assassinada às vésperas do seu primeiro dança, tenta remontar o quebra-cabeça de suas memórias. Essa é a sinopse mais geral para descrever “Valsa nº 6”, o único solilóquio de Nelson Rodrigues. Mas, para a atriz Carol Costa, falta uma vocábulo nesse resumo. “A maioria esquece que é a história de um corpo abusado, de um feminicídio. As pessoas não querem consentir.”
Agora, a depender da tradutor, não restará dúvidas da veia feminista e dos protestos contra injúria infantil deste que é o sétimo texto teatral do “criancinha pornográfico”, escrito em 1951.
Não à toa, ela e o diretor Jorge Farjalla, muito versado em Nelson, preferem qualificar a novidade montagem, no Teatro Sérgio Cardoso, núcleo de São Paulo, uma vez que um manifesto contra a violência de gênero que persiste 75 anos depois. “Hoje as coisas estão mais óbvias e mais claras, mas zero mudou”, diz o diretor.
O que se verá é dissemelhante das orientações do dramaturgo, que pedia um fundo com cortinas vermelhas, um banquinho e um piano branco para que Sônia tocasse trechos da “Valsa nº 6”, de Chopin, que ela praticava na hora de sua morte.
Em vez da habitual separação entre palco e plateia, o tom de denúncia é ressaltado por uma proposta intimista —em cima do palco, unicamente 40 assentos por sessão cercam o espaço cênico em formato de quadrângulo, aproximando o público da ação.
Ainda há uma banqueta redonda em cena, mas o instrumento evaporou, e a valsa agora sai dos alto-falantes, uma vez que que esquartejada. A trilha investe em ecos, distorções e frases da formação reproduzidas em “looping” que ressaltam a inquietação da peça erudita.
“Sônia está em um dos terraços do purgatório”, diz Farjalla. “E a valsa é difícil, uma agonia. Não tem zero de dançante.”
A estádio reduzida exige de Costa —conhecida por musicais uma vez que “Clara Nunes – A Tal Guerreira” e “Tarsila, a Brasileira”— um minucioso trabalho corporal, conforme ela rodopia, gesticula e muda de voz para interpretar não unicamente Sônia, mas todas as figuras que invadem a dramaturgia e o corpo da personagem.
Ao longo da uma hora de peça, a carioca alterna entre os lapsos de memória da jovem já morta, os gritos exasperados da sua mãe, as ordens do pai e as prescrições do temível dr. Junqueira —o médico da família, que “anda uma vez que um desses veteranos que têm uma perna de pau”, uma vez que descreve a rubrica. Há ainda Paulo, um sujeito mais velho, casado, amante e provável parente de Sônia.
Em dois meses de tentativa, Costa definiu com o diretor alguns signos corporais para organizar essa polifonia —o pé levantado, o dedo em riste e a voz de velho, por exemplo, anunciam o doutor carrasco.
“Sou bailarina, logo carrego essa memória. Acredito que todo personagem tem que ser construído a partir do corpo”, diz Costa, que cita uma vez que referência a coreógrafa Pina Bausch e o seu “Barba Azul”.
O espetáculo de 1977, um marco na obra da alemã por cimentar o concepção de “dança-teatro”, também ajudou a pensar o figurino —uma combinação branca e ligeiro, que ora contrasta com o piso de linóleo vermelho, ora se ruboriza pelo ilustração de luz dramático de Gabriele Souza, que também projeta palavras e silhuetas no pavimento.
“A fragmentação corpórea me traz um pouco do [Antonin] Artaud e do [Jerzy] Grotowski. Esse ator que se exaure para edificar um pouco a partir do corpo, mesmo a gente partindo da fala”, afirma Farjalla.
É um vista que, de certa forma, estava na origem do solilóquio. Nelson Rodrigues escreveu “Valsa nº 6” para Dulce, sua mana caçula, atriz estreante com lições de balé e piano. Impressionado pelo sucesso do solo “As Mãos de Eurídice”, com o ator Rodolfo Mayer, em 1950, o responsável viu uma oportunidade para testar o formato.
Ruy Castro descreve na biografia do dramaturgo que a inspiração foi, uma vez que sugere o título, a “Valsa nº 6” de Chopin. A formação vazava das sessões do filme “À Noite Sonhamos”, no cinema Predomínio, e chegava aos ouvidos de Nelson para o seu delícia durante o seu lanche quotidiano na leiteria Alvadia, na Cinelândia.
Mas a teorema de Nelson era lutuoso demais perto dos arroubos sentimentais do texto de Pedro Bloch, e o espetáculo dirigido por Henriette Morineau teve uma recepção morna de público e sátira.
“Valsa” marcava um retorno do dramaturgo às peças psicológicas, na tipologia do crítico Sábato Magaldi, em seguida a mítica “Doroteia”, uma de suas obras-primas, sobre uma prostituta que, para se redimir, vai viver com as primas viúvas.
O solilóquio se aproxima de títulos uma vez que “A Mulher sem Perversão” —um panegíricio ao libido feminino— e “Vestido de Prometida”, inovador por diluir verdade, memória e alucinação no palco para transcrever o coma da personagem Alaíde.
Cá, isso se repete às avessas. Sônia já é defunta, mas não sabe que morreu, quem a matou, nem sabe que é Sônia. Assim, as diferentes vozes vão dando pistas da verdade social e da psique dessa protagonista complexa e púbere. Ora ela evoca cantigas infantis —em voz afinadíssima— e convoca a plateia para trebelhar de adoleta, ora levanta a camisola e admira seu corpo uma vez que uma “namorada lésbica de si mesma”, nas palavras de Nelson.
“São dois lados. Tem o dr. Junqueira, o estuprador, que abusa dela desde quando ela menstrua até a morte dela”, diz Farjalla. Ao mesmo tempo, Sônia “é muito novinha, mas tem uma invenção sexual, nutre libido por Paulo, que é um refrigério, mas também um abusador”.
“Nelson escreveu personagens memoráveis femininos, mas a Sônia é próprio pela forma uma vez que ele a coloca dentro desse texto, dessa verborragia, e pela delicadeza com que ele fala sobre esse matéria.”
A encenação também se vale de intervenções menos ortodoxas no fluxo do texto, quando a voz da própria Carol Costa toma conta. São momentos breves, em que ela se dirige à plateia para discursar sobre injúria, consentimento e estatísticas sobre estupros no Brasil.
Há até uma citação ao caso recente da jovem morta durante uma atividade de “rope jump” sem a fixação da corda. “Sarau no IML!”, brada a atriz-personagem, citando os comentários necrófilos feitos por homens nas redes sociais naquela ocasião.
São intromissões que ressaltam o que já estava no texto de 1951, uma vez que quando Sônia tenta avisar os pais sobre os abusos, ou quando revê as próprias atitudes. “A Sônia se coloca nesse lugar de se criticar sem saber quem ela é. Mas será que ela não sabe quem ela é?”, diz Costa. “Ela tem que permanecer se provando pela peça inteira. É exaustivo.”
Coube à atriz a escrita desses trechos a partir de sugestões de Farjalla. A estrela conta que oriente foi seu primeiro contato com o solilóquio e que recorreu aos episódios da minissérie “Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados” para captar o clima rodrigueano.
Já o diretor diz que conheceu “Valsa nº 6” ainda na juventude, teve um período de repudiação ao responsável, até que, por término, se fascinou com a obra. Mas esta é a primeira vez que Farjalla monta o texto propriamente, instigado por relatos de injúria envolvendo pessoas próximas.
Ao longo da curso, ele já encarou algumas das peças mais polêmicas do responsável, uma vez que “Álbum de Família”, “Senhora dos Afogados”, “Querubim Preto” e “Os Sete Gatinhos”, em diferentes abordagens.
Prolífico, Farjalla trabalhou com Costa em vários musicais nos últimos anos e sugeria à colega que fosse detrás de protagonismo. “Existe muito preconceito dentro da nossa classe artística, do ator de músico para ator de teatro de prosa, e vice-versa”, diz o diretor. “Essa engrenagem é auspiciosa e, para mim, ‘fake’. A Carol é de uma superioridade artística muito grande.”
Pode parecer uma mudança e tanto para quem já foi Bibi Ferreira, Hebe Camargo e a Chiquinha, do “Chaves”, nos palcos. “Há muitos anos eu faço músico, um detrás do outro, e isso acabava tirando meu foco”, diz Costa. “Mas, mais do que trovar ou dançar, eu senhor atuar.”
Por término, ela decidiu se aventurar com esse espetáculo ao lado de seu parceiro, o produtor Thiago Catelani. Ao menos nesta temporada incipiente, a peça é realizada de forma independente, sem patrocínios.
No mês que vem, ela voltará ao papel de Teresinha na temporada carioca do músico “Ópera do Malandro”. Mas, até lá, quatro vezes por semana, Costa será unicamente Sônia —uma pequena que também é muitas.





