Nova biografia disseca obra e vida de Graciliano Ramos – 07/08/2026 – Ilustrada
Wander Melo Miranda era um juvenil de 15 anos na Belo Horizonte do final dos anos 1960, em plena ditadura. Aproveitando que seu pai abrira uma conta numa livraria, passou a ler autores que não leria no Escola Militar, onde estudava. Um deles foi Graciliano Ramos. Começou por “Vidas Secas”.
“Fiquei muito impressionado e tocado com o livro, atraído pela linguagem que trazia coisas populares, regionais, mas era extremamente elaborada, muito sóbria e, ao mesmo tempo, muito irônica”, ele recorda a epifania.
O mergulho de Miranda no responsável alagoano se aprofundou ao longo dos anos, resultando num doutorado, cuja tese seria adaptada para livro em 1992, “Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago”, estudo conjunta de “Memórias do Cárcere”, do primeiro, e “Em Liberdade”, do segundo. Depois, o crítico e acadêmico —hoje professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade Federalista de Minas Gerais— escreveu “Folha Explica Graciliano”, de 2004, uma introdução à obra do Velho Perdão.
Durante o trajectória, se interessou também pela vida do pesquisado. “Até porque a vida dele não se diferencia dos livros que escreve. Não digo que a vida explica os livros e os livros explicam a vida, mas há uma relação tão possante entre uma coisa e outra que ele transforma em ficção”, afirma Miranda, citando uma frase do próprio Graciliano: “Nunca pude transpor de mim mesmo. Só posso ortografar o que sou. E se as personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só”.
É da relação entre o responsável e sua geração, mas sobretudo desta, os livros, que se ocupa Wander Miranda na biografia “Graciliano Ramos: Vida e Obra”, lançada agora pela Companhia das Letras. “É uma espécie de biografia dos livros dele junto com a biografia dele”, resume o responsável.
A obra vem à luz 34 anos depois de “O Velho Perdão”, de Dênis de Moraes, primeira biografia de fôlego do jornalista de “São Bernardo” e “Angústia”. Lançada no centenário de Graciliano, em 1992, ganhou edição revista e ampliada em 2012 e tinha uma vez que maior objetivo, segundo o responsável, morto no ano pretérito, desvendar o varão por trás da obra. É uma biografia mais jornalística, escrita por um jornalista e professor de notícia.
Na de Miranda, o foco está no fazer literário e na recepção sátira da obra de Graciliano. Mas não se espere um experimento acadêmico: não é esse o propósito proferido do responsável, que, demais, é um apreciador visceral do seu biografado —ele também visceral.
Wander Miranda escreve, na apresentação do volume, que foi uma empreitada difícil, em segmento pela pasmo e emoção despertadas por Graciliano. Sentiu-se de início “incapaz de tomar a intervalo necessária para vê‑lo uma vez que biografado”. Uma vez que portanto tornou-se capaz?
“Eu falei, tomar intervalo é bobagem. [O livro] é a minha opinião, a minha versão. Eu dialogo com outros pesquisadores, e há coisas biográficas excelentes escritas sobre ele. Mas me distanciar não teria muito a ver. Não estou escrevendo uma reportagem, em que, de certa forma, tenho de ser isento”, afirma.
“Eu tomo partido, acho um grande jornalista e acho que nenhum outro responsável brasílio viveu tão visceralmente o ofício de jornalista, e fez isso num país subdesenvolvido, sob um governo extremamente dominador [a ditadura do Estado Novo e sua preparação]. E o considero um dos mais lúcidos intérpretes do Brasil.”
Um exemplo de uma vez que o responsável driblou o academicismo: embora a biopolítica –teoria sobre o poder do Estado em controlar a saúde e o corpo das pessoas– seja um dos fundamentos teóricos do trabalho, o tema é tratado sem bacharelismo, uma vez que demonstram passagens sobre os suplícios enfrentados por Graciliano durante os dez meses em que ficou recluso entre 1936 e 1937 —sem processo, por ser comunista “subversivo”.
“O corpo físico é sempre um corpo político para Graciliano. Da puerícia à prisão –onde o desconforto com a perna [afetada por um acidente doméstico anos antes] aparecerá fortemente–, as instâncias repressoras se marcam em músculos viva e apontam ao jornalista a premência imperiosa de resistência. Grafar é, pois, desde o início, trasladar em palavras a dor que a repressão política tinge de cores macabras”, escreve o biógrafo.
Noutro trecho, Miranda conta uma vez que a devastação física de Graciliano só aumentou durante a prisão, sequelas que o marcariam para o restante da breve vida —morreu aos 60 anos—, “a ponto de ser dispensado de trabalhos pesados porque o encarregado de seleção dos presos pensa que ele tem 65 anos, quando na verdade tem 43”.
“É um livro para um público maior. As discussões teóricas estão lá, fundamentam o projeto, mas não quis torná-las explícitas porque acho que não interessa ao grande público”, comenta.
Biografar Graciliano —cuja obra entrou em domínio público em 2024— significa, de qualquer modo, se lançar à tarefa inglória de concorrer com o responsável de “Puerícia” e “Memórias do Cárcere”, dois trabalhos memorialísticos exemplares. Miranda reconhece que o alagoano é “o melhor narrador de si mesmo”, e os dois livros e outros textos autobiográficos fundamentam boa segmento da biografia, muito uma vez que os publicados por Ricardo Ramos e Clara Ramos, filhos do jornalista, e Marili Ramos, mana dele.
O título agora lançado também recorre com frequência à biografia de Dênis de Moraes —a quem Miranda orientou num pós-doutorado, não sobre Graciliano— e a trabalhos dos “gracianólogos” Moacir Medeiros de Sant’Ana, Valdemar de Souza Lima, Valentim Facioli e, da geração mais recente, Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztayn, morta na última semana aos 51 anos.
Estão muito contados no livro aspectos já conhecidos da vida de Graciliano, uma vez que a depressão que se seguiu à morte da primeira esposa, a preocupação com limpeza ou a amizade iniciada na prisão com Nise da Silveira.
Outros embaralham vida e obra, caso de seu minusioso processo de emendar e enxugar à exaustão os escritos, seara em que o biógrafo produz tiradas luminosas: “A preocupação maníaca com a desconstrução da termo é um ato de anulação do lugar‑geral e dos preciosismos linguísticos, uma vez que se Graciliano buscasse impossivelmente o princípio –no sentido de início e de norma– da termo, do momento em que ela passa pela primeira vez a valer”.
Também na interseção vida-obra estão as dificuldades financeiras enfrentadas pelo jornalista, que se desdobra em vários trabalhos, sempre atolado a ortografar artigos e crônicas para a prensa e textos diversos para complementar a renda, sem nunca ter conseguido sobreviver somente dos seus livros.
Uma vez que narra Miranda, entre 1937, ano em que escreve “Vidas Secas”, e 1938, quando o romance é publicado, “a situação se torna dramática”. Morando com a família num quarto de pensão no Rio, o jornalista –àquela profundidade já consagrado pela sátira por “Caetés”, “São Bernardo” e “Angústia”– “às vezes atrasa o aluguel da pensão e Heloísa [sua mulher] se vê impedida de comprar o leite que complementa a sustento das meninas”.
Abundam episódios sobre a conhecida autodepreciação de Graciliano, que costumava rotular de “droga” ou “porcaria” seus escritos. Para o biógrafo Dênis de Moraes, era tudo da boca para fora. Wander Miranda não vê dessa forma. “Não quis psicanalisar, mas sua autodepreciação vem da puerícia, né? Ele foi um menino que sofreu violências enormes, apanhou do pai. Graciliano tinha consciência do seu valor, tanto que insiste em ortografar, mas não acho que [a autodepreciação] fosse da boca para fora.”
O biógrafo conta que outra preocupação sua foi mostrar a “atualidade impressionante” da obra de Graciliano. Relembra a célebre pergunta que o responsável fez em epístola a Heloísa, a mulher: “Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico?”, e reafirma que não foi preciso esperar tanto tempo.
Observa que a questão meão de “Vidas Secas”, sobre uma família de retirantes, segue viva nos refugiados, tanto os que ainda precisam homiziar uma vez que os refugiados na própria terreno. Ou que, no Brasil, a lei continua só valendo para alguns. “Sobretudo se você é preto de periferia, de favela, pode matar, espancar, fazer o que quiser, porque é uma vez que se essas pessoas estivessem aquém da lei, fora da sociedade”, tais quais o Fabiano do maior clássico de seu biografado e outros personagens dele.
A leitura da novidade biografia reforça reflexões recentes sobre o delongado de certas posições de Graciliano, um humanista socialista com preconceitos do século 20 que, para muitos hoje, poderiam torná-lo “cancelável”, um tanto que soa contra-senso ao biógrafo.
Miranda não escamoteia os problemas, mas faz ver suas nuances e situa os casos em seu contexto histórico. “Sua conhecida homofobia, ao ser posta à prova no cárcere, leva‑o a submetê‑la a um vistoria severo, que, embora não o faça mudar de opinião, torna verosímil uma compreensão menos preconceituosa do problema”, escreve o biógrafo.
“[O escritor] admite que sua repulsa não é oriundo, foi‑lhe imposta culturalmente, sendo necessário ‘transpor as barreiras’ que o separam daqueles indivíduos tão diferentes dele, ‘vencer esse nojo exagerado, sondar‑lhes o íntimo, descobrir lá dentro coisas superiores às combinações frias da perceptibilidade’.”
A pasmo fervorosa por Stálin é outra passagem hoje incômoda na trajetória de Graciliano, militante comunista filiado ao PCB —em que pese o partido ter vetado a publicação de “Memórias do Cárcere” e “Viagem”, publicados pela família em seguida sua morte. A posição certamente não resistiria ao tempo, aposta o biógrafo. O jornalista morreu em 1953, três anos antes de os crimes do ditador serem denunciados por seu sucessor, Nikita Kruschov.
Wander Melo Miranda situa Graciliano ao lado de Guimarães Rosa uma vez que os dois maiores romancistas brasileiros do século 20. Evita escolher um livro de coração —”o maior é o que eu estiver lendo no momento”—, mas não consegue esconder o trecho que mais o comove. Talvez por revelar “a confissão rara de alguém habituado à contenção extrema dos sentimentos e da linguagem”, é o capítulo “Baleia”, que narra a morte da cadela homônima de “Vidas Secas”.
“A ternura do narrador pela cadela que tem de ser sacrificada por ter contraído hidrofobia”, escreve Miranda, “se entrevê por alguns poucos diminutivos, usados, mas, de forma a não deixar o texto tombar num sentimentalismo vulgar: ‘coitadinha’, ‘quintalzinho’, ‘criaturinha’, entre outros –’Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra’.”
“É das coisas mais muito escritas em língua portuguesa”, derrama-se o biógrafo. “Paladar muito de cachorro, portanto toda vez que leio isso, e já li umas 50 vezes, eu me emociono profundamente.”





