São Paulo
Revisar um dos momentos mais delicados da política brasileira nos últimos anos. A frase resume premissa de “Anatomia do Caos”, longa de Dandara Ferreira que acompanha os batidores da CPI da Covid, mas também de outros documentários recentes dirigidos por mulheres.
Quando ligou a câmera, Ferreira ainda não tinha a dimensão do que iria filmar. “Eu queria fazer alguma coisa sobre a pandemia e, uma vez que cineasta, meu instrumento de revolta era uma câmera.”
Cena do documentário ‘Anatomia do Caos’, de Dandara Ferreira
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Divulgação
Nome por trás da série e da cinebiografia sobre a cantora Gal Costa, ela foi a Brasília sem saber se o trabalho viraria filme. Lá, precisou da crédito de senadores para acessar bastidores da percentagem e gravar as imagens que dão forma ao documentário.
No processo, por conta do isolamento social e equipe reduzida, a baiana se desdobrou em várias funções simultâneas: cuidou de direção, roteiro, retrato e som.
Outros títulos do gênero dirigidos por mulheres e lançados nos últimos anos também são permeados pelo mesmo tino de urgência que motivou Ferreira. É o caso de “Copan”, que estreou no final de maio nos cinemas, mas já saiu das telonas na capital paulista.
Nele, a fotógrafa Carine Wallauer se sentou na cadeira da direção pela primeira vez para tornar o prédio projetado por Oscar Niemeyer o seu protagonista.
“O Copan sempre foi político porque eu acho que tem muitas formas de pensar a política. Não adianta só falar das grandes tensões se a gente não discute democracia na nossa vida cotidiana. Fica vago e distante”, diz Wallauer, que morou por sete anos no condomínio.
Outra diretora conhecida pelos documentários políticos é Petra Costa, que traçou um paralelo entre a força do eleitorado evangélico e o escora de setores fundamentalistas em “Apocalipse nos Trópicos”, filme de 2024.
Antes disso, a cineasta mineira havia despertado atenção internacional com “Democracia em Vertigem”, indicado ao Oscar 2020 na categoria de melhor documentário.
Apesar do prestígio em festivais nacionais e internacionais e progressão no mercado audiovisual, as realizadoras ainda relatam a predominância masculina no meio. Isso se reflete também nas posições de poder dos ambientes que filmam.
“As possibilidades de documentário crescem quando a participação das mulheres também consegue crescer”, diz Wallauer. “Às vezes é um pouco frustrante. Não importa quantos prêmios ganhamos ou os lugares que ocupamos simbolicamente se a gente não tem as mesmas oportunidades de trabalho.”
A seguir, conheça documentários políticos dirigidos por cineastas brasileiras e saiba onde assisti-los.
Anatomia do Caos
Brasil, 2026. Dir.: Dandara Ferreira. 85 min. 12 anos.
Mostra os bastidores do Senado durante a CPI da Covid-19 a partir da sequência de acontecimentos que sobrecarregou o sistema de saúde brasílico, atrasou a vacinação da população e disseminou informações falsas sobre os tratamentos médicos e protocolos de isolamento. Em papeleta nos cinemas.
Apocalipse nos Trópicos
Brasil, 2024. Dir.: Petra Costa. 110 min. 14 anos.
Petra Costa volta a refletir sobre democracia para examinar a força da liderança e do eleitorado evangélico na política pátrio recente com escora de setores fundamentalistas. A cineasta dialoga com figuras uma vez que Silas Malafaia para compreender o impacto da religião no Brasil. Disponível na Netflix.
Anistia 79
Brasil, 2026. Dir.: Anita Leandro. 105 min. Sem class.
Utiliza imagens inéditas gravadas por brasileiros durante a Conferência pela Anistia ocorrida em Roma, em junho de 1979, para questionar a impunidade dos torturadores e os ecos da ditadura militar no Brasil contemporâneo. Estreia no dia 13 de agosto.
No Firmamento da Pátria Nesse Momento
Brasil, 2023. Dir.: Sandra Kogut. 106 min. 12 anos
Acompanha o turbulento período eleitoral de 2022, que culminou na invasão do Congresso Vernáculo, no dia 8 de janeiro de 2023. O período é conquistado por meio do olhar e das vivências de personagens envolvidos no processo da acirrada eleição presidencial. Disponível para aluguel no Prime Vídeo e no YouTube.

Cena do documentário ‘No Céu da Pátria Nesse Instante’, de Sandra Kogut
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