Ainda rapaz, Kerolin ouviu dos médicos que talvez nunca mais pudesse jogar futebol.
Aos 12 anos, a atacante desenvolveu uma osteomielite (uma infecção óssea grave) na perna direita. Passou tapume de três meses internada. Em um dos momentos mais críticos, a família recebeu o alerta de que a amputação poderia ser necessária caso o tratamento não surtisse efeito.
A recuperação foi lenta. Ela precisou reaprender movimentos simples antes de voltar a decorrer. Quando recebeu subida, ouviu que deveria despovoar esportes de contato. O futebol, porém, continuou sendo seu objetivo.
Nesta quarta-feira (22), Kerolin deu mais um passo que naquela estação poderia parecer improvável. O Barcelona encaminhou sua contratação junto ao Manchester City por tapume de 1,5 milhão de euros (R$ 8,6 milhões). Ela deve viajar à Espanha até o término da semana para os trâmites finais.
A negociação representa a maior contratação da história da equipe feminina do clube catalão. Também transforma Kerolin na brasileira mais rosto da história do futebol feminino e na terceira jogadora mais rosto da modalidade. O recorde do país pertencia a Amanda Gutierres.
Revelada nas categorias de base do Valinhos, cidade vizinha a Campinas, Kerolin passou pelo Guarani (em parceria com o Valinhos), por Corinthians/Audax, Ponte Preta e Palmeiras. Foi pela Ponte que despontou nacionalmente. Em 2018, marcou 14 gols em 35 partidas, foi eleita a revelação do Campeonato Brasílio e passou a ser tratada uma vez que uma das principais promessas da seleção brasileira.
Mas, quando parecia prestes a disputar sua primeira Despensa do Mundo, veio outro golpe.
Em 2018, durante a disputa da Despensa Libertadores feminina pelo Corinthians/Audax, a atacante testou positivo para as substâncias GW1516 (hormônio modulador) e probenecida (diurético) em um fiscalização antidoping.
A suspensão de dois anos foi confirmada no ano seguinte, quando era recém-contratada pelo Palmeiras, e a tirou da Despensa do Mundo da França, interrompendo a subida da curso.
“Eu sempre ajudei minha família, mas sem jogar, não conseguia mais. A gente começou a ter muita dificuldade. Às vezes não tinha o que consumir. Cheguei a pedir quantia emprestado para remunerar quando eu voltasse a jogar. Tinha crise de sofreguidão, não conseguia dormir”, contou.
Em entrevista ao ge, Kerolin disse que não tinha explicações para o resultado do fiscalização; o Palmeiras tentou recursos para reduzir a pena, inclusive junto à Conmebol, mas sem sucesso. Ela sempre negou o uso de qualquer substância.
A punição acabaria em março de 2021 (para jogos oficiais), mas a regra permitia que ela voltasse a treinar três meses antes disso. E ainda em dezembro de 2020 veio a chance da salvação. A técnica Pia Sundhage incluiu Kerolin numa convocação para treinos na Granja Comary no mês seguinte.
Em 2021, ela passou a atuar no Madrid CFF. Foi um recomeço simples. Depois de dois anos longe dos gramados, precisou restabelecer ritmo e crédito antes de voltar a invocar atenção. No ano seguinte, acertou a transferência para o North Carolina Courage, dos Estados Unidos.
Em 2023, tornou-se a primeira brasileira eleita melhor jogadora (MVP) da NWSL, principal liga feminina dos Estados Unidos.
Naquele mesmo ano, disputou sua primeira Despensa do Mundo, na Austrália e na Novidade Zelândia, onde atuou nas três partidas da seleção brasileira, eliminada ainda na temporada de grupos.
Em outubro, sofreu uma ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho recta. A lesão a afastou dos gramados por vários meses e colocou em incerteza sua presença nos Jogos Olímpicos de Paris.
Recuperada a tempo, foi convocada por Arthur Elias, disputou as Olimpíadas e conquistou a medalha de prata com a seleção brasileira. Na semifinal, marcou o quarto gol da vitória por 4 a 2 sobre a campeã mundial Espanha, que colocou o Brasil na decisão —a seleção foi superada pelos EUA na final.
O Manchester City a contratou no início de 2025. A resposta veio rapidamente. Kerolin foi um dos destaques da campanha que terminou com os títulos do Campeonato Inglês e da Despensa da Inglaterra.
Agora, chega ao Barcelona no momento em que o clube atravessa a maior reformulação de seu elenco em anos. Nas últimas semanas, deixaram a equipe nomes históricos uma vez que Alexia Putellas, Ona Batlle, Mapi León e Salma Paralluelo, protagonistas de um dos ciclos mais vitoriosos da história do futebol feminino europeu.
Kerolin é também um dos grandes nomes da seleção brasileira para a Despensa do Mundo do ano em que vem, em que o país será sede. Campeã da Despensa América de 2025, ela utilizou a camisa 10 durante o Fifa Series deste ano, em que Marta esteve ausente, e foi escolhida a melhor jogadora do torneio.




