'Velhos Bandidos', com Fernanda Montenegro, é filme frouxo 25/03/2026

‘Velhos Bandidos’, com Fernanda Montenegro, é filme frouxo – 25/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A teoria de juntar um grupo de pessoas para um roubo não é propriamente original. A de juntar um par de idosos a outro, de jovens, é menos vulgar. As idades divergentes favorecem o desenvolvimento da trama: velhos e jovens têm ambições diferentes.

No caso de “Velhos Bandidos”, o objetivo, ao menos o proferido, de Rodolfo —Ary Fontoura— e Marta —Fernanda Montenegro— é restabelecer o verba que um banco lhes deve para ter no termo de suas vidas um longo e feliz cruzeiro naval. Já os jovens Sid —Vladimir Brichta— e Nancy —Bruna Marquezine— pretendem subir na vida o bastante para se estabelecerem em Saquarema —sugestão dele— ou Bora Bora —dela.

Para uns, portanto, trata-se de um ato de justiça; para outros, de realizar um libido. Talvez aí comecem os problemas desta comédia simpática e frouxa de Claudio Torres. Não era preciso desenvolver uma grande sátira da ganância vernáculo, unicamente dedicar-se um pouco a esquadrinhar os atos de cada um.

Se o par de velhos sofreu uma injustiça, porquê alega, de onde vem ela? Do sistema bancário, de um gestor fraudulento, de um sistema injusto ou inadequado? Já os jovens parecem não ter razão para serem bandidos além dos próprios nomes. Sid e Nancy —em referência ao polêmico par formado pelo baixista do Sex Pistols e sua namorada groupie—, remetem ao punk, ao comportamento antissocial, à recusa completa dos hábitos burgueses.

Não é o caso dos nossos heróis cá: eles querem a todo dispêndio entrar no mundo burguês. Mas no que consiste esse libido exatamente? Tornar-se empreendedores? Consumistas enlouquecidos? O filme não nos permite saber.

Sabemos unicamente que são todos boas pessoas, no fundo. Pessoas, não. Unicamente personagens de comédia. Essa arranjo entre todos e tudo parece uma preocupação meão do filme, enquanto a do roteiro limita-se a sincronizar os atos e fatos de modo a não ter incoerências maiores. Mas é porquê o funcionamento de uma máquina, “tic-tac”.

É o que temos —uma concepção da comédia que se confunde com a inocência. Ela se manifesta até mesmo na mudança de Sid, que começa parecendo um hábil arrombador de cofres, para mais tarde ser unicamente aquele que não entende muito zero do que está acontecendo, a menos que os outros lhe expliquem as coisas.

Tudo isso, diga-se, não parece resultar de pouca intimidade com o gênero. A sensação que deixa “Velhos Bandidos” é a de desenvolver a comédia porquê um tanto necessariamente puro, incapaz de incomodar a quem quer que seja.

Nesse sentido, a tepidez é, justamente, o que pode recompensar. No Brasil, a comédia pisa em ovos desde o termo da dez passada, quando termina sua era de grandes sucessos de público.

Porquê reencontrar seu público é um problema. A condescendência com os personagens —e, portanto, com os espectadores— pode ser uma resposta, embora isso não seja guardado. Digamos, portanto, para estrear, que o investimento no elenco parece substituir o rigor na evolução e nas justificativas da trama.

No princípio, existe um par de idosos que se sente lesado por um banco. Mas, atenção, não tão lesado assim. Suas economias parecem muito consistentes; a vivenda em que moram é mais que confortável.

Ainda assim, o estratagema que usam para atrair o jovem par para o seu golpe é muito arquitetado —embora reste, para mim, ao menos uma incerteza: será que deixaram de embarcar no cruzeiro por estratégia ou por terem esquecido um passaporte?

De todo modo, o início é promissor. Era uma ocasião para desenvolver melhor os personagens. Porquê isso não acontece, toda a trama se torna supérflua ou quase isso.

Assun, a única personagem com alguma consistência é o detetive Oswaldo, de Lázaro Ramos, que ao menos tem um motivo para entrar na história.

Se a aposta de “Velhos Bandidos” era na superficialidade acomodatícia encoberta por um grupo de atores famosos, não é impossível que dê perceptível. Se a teoria era aprazer o público idoso, cada vez maior, vamos ver.

Se era reencontrar a comédia que começou a fazer sucesso com “Se Eu Fosse Você”, fraquejou no termo dos anos Dilma, agonizou no governo Temer e encerrou seu ciclo com a pandemia e a morte de Paulo Gustavo, parece difícil —embora não impossível.

Digamos, em todo caso, que lhe falta um núcleo dramático —porquê “Minha Mana e Eu”, de 2023— capaz de animá-lo. Resta a simpatia, é verdade. Mas o humor é ralo e vasqueiro.

Folha

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