É difícil amar Yayoi Kusama. É difícil odiar Yayoi Kusama. A artista japonesa, morta neste mês, aos 97 anos, desafiou todas as engrenagens da história e do mercado da arte.
Essa que foi um furacão no auge da era hippie em Novidade York, com performances cheias de gente pelada com o corpo tapado de bolinhas coloridas, foi também, no cínico jargão do meio, uma vendida na última temporada da vida, cedendo sua imagem às grandes marcas de voga, uma vez que a Louis Vuitton, que chegou a fabricar um bonecão com suas feições na loja parisiense da grife, um horror plangente.
Kusama, espírito excêntrica que viveu internada num hospital psiquiátrico em Tóquio ao longo de suas últimas décadas, era genial no nível de Andy Warhol, pena que era uma mulher japonesa.
Suas primeiras performances, pinturas e instalações, que ela dizia partir das alucinações que experimentava desde párvulo, quando enxergava bolinhas coloridas por toda secção, em turbilhões de cores desordenados que faziam ferver a visão e turvar o espírito, já deixavam evidente que o seu mundo não era o mundo dos terráqueos ordinários.
“Não sei uma vez que vou ser classificada quando morrer”, disse ela a certa fundura. “Mas é bom ser uma forasteira.” De indumento, a japonesa de Matsumoto, ovelha desgarrada de uma família de posses, foi desbravar o mundo selvagem de Novidade York na dezena de 1960, quando a metrópole americana ainda era o núcleo nervoso de todas as vanguardas no pós-Paris.
Ironia das ironias, Kusama se tornou amiga íntima do minimalista Donald Judd, possuinte de uma das mais potentes obras da história do século 20, de uma secura industrial absurda, um cerebralismo calculado, indiferente. Zero a ver com a exuberância erótica dos trabalhos de Kusama, que logo já construía florestas de falos cintilantes, uma flora de seres penetrantes que zero penetravam, ela mesma avessa ao sexo mas bicho selvagem no olhar, uma gata perigosa.
Era tão avessa ao sexo, coisa que a cultura tradicional japonesa ensinava ser um troço sujo, que propôs um rendez-vous com o logo presidente americano Richard Nixon em troca do termo da Guerra do Vietnã —o indumento não foi consumado.
Essa dimensão política de seu trabalho, uma locomotiva de sensações, passa despercebida por novas gerações, que só conheceram a Yayoi Kusama de estampas de grife e suas salas espelhadas de bolinhas refletidas até o infinito, labirintos tão desnorteantes quanto acolhedores, obras que sublinham a vontade de abstração na contracorrente de um mundo em ebulição à extremidade do escuridão.
Kusama, que viveu quase um século, viu sua obra encruzar um roda narrativo incomum no tempo de uma única encarnação. Foi uma espécie de enfant terrible da performance antes de o gênero se estabelecer com potência assombrosa e incontornável na dezena de 1970, e com um frescor inaudito antes mesmo de gigantes uma vez que Marina Abramovic entrarem em cena, com menos deboche e humor, é evidente.
Depois, caiu no ostracismo dos mais cruéis, acentuando sua reconhecida loucura, só para ser resgatada do pântano dos artistas marginalizados uma vez que a grande diva pop rediviva a partir da dezena de 1990.
Suas obras, recordistas em leilões para uma mulher, chacoalharam um mercado de arte ainda muito conservador. Colecionadores, museus e o establishment da subida voga e do cumeeira marketing arregalaram os olhos. Bolinhas coloridas, finalmente, nunca saem de voga.
Zero disso foi fortuito. Se Kusama foi assediada para vender sua imagem inconfundível, de rosto impávido, até sinistro, emoldurado pela tradicional peruca —outro repercussão de Warhol— de fios cor de brasa viva, ela lutou para vender seus próprios trabalhos ainda cedo, num ato de provocação que depois vingaria uma vez que obra real.
Na Bienal de Veneza, na Itália, sem ser escalada para a mostra solene, ela pôs bolas prateadas para flutuar na chuva e vendia cada uma aos passantes, um suvenir exótico criado às margens da maior exposição de arte do planeta.
Um laguinho com essas mesmas esferas reluzentes hoje figura no Instituto Inhotim, nos periferia de Belo Horizonte, uma vez que uma instalação permanente, atestado do gênio de uma artista que, entre altos e baixos, devorou o rotação da arte pelas beiradas até ser entronada uma vez que sua rainha irreverente e coloridíssima. Também muda, tal qual a também japonesa Hello Kitty. Kusama, havia muito, não dava declarações públicas.
O termo de sua vida, apesar de produtivo em todas as frentes, com megainstalações, presença em exposições e feiras pelo mundo e um séquito incansável de fãs e colecionadores no seu rastro, permanece envolvido em mistério.
O que passa ao largo da incerteza é sua capacidade extraordinária de edificar imagens. Kusama está no rol de artistas que fizeram de sua figura pública uma tradução de sua obra plástica, uma presença plena de cabo a rabo, onde pai e indivíduo são coisa única, indissociáveis —cabelo, roupas, telas, instalações num liga extravagante de cores, uma identidade reconhecida de subitâneo, sem rodeios, nem improvisos. Na esteira de Warhol e sua cabeleira platinada, dos bigodes de Salvador Dalí, das sobrancelhas de Frida Kahlo, Kusama era a encarnação viva de sua obra.
Detratores, e mesmo amantes de seu trabalho de potência alucinógena, podem relegar, com certa razão, uma boa secção de suas obras, em peculiar as abóboras e os cogumelos gigantes de verve menos psicotrópica e mais Disneylândia, ao cemitério das boas ideias fracassadas.
O bom artista, no entanto, vive da construção de mundos, e Kusama foi a arquiteta de um universo ao mesmo tempo prosaico e esplêndido, o corpo nu tapado de bolinhas coloridas, comum talvez, rudimentar —uma forma geométrica universal, o Sol, a mesocarpo viva da gente, uma pulsão de vida, tudo isso debaixo da luz de um domingo no parque ou entusiasmado pela luz negra da boate.
Yayoi Kusama, talvez mesmo que a contragosto, ou no hermetismo de seu refúgio voluntário no lar dos loucos, foi zero menos que um farol transante nas trevas do mundo da arte que se leva a sério demais.





