Você pode não saber o nome dela, mas talvez esteja lendo esta reportagem sentado nela.
Também é verosímil que tenha alguma recordação associada a elas. Pode ser o churrasco no quintal dos amigos, onde sempre cabe mais um, já que elas ficam empilhadas no quina. Ou a cerveja gelada no bar da praia, com os pés enterrados na areia, suando com o calor pelo contato com o plástico.
A cadeira monobloco —aquela humilde cadeira de plástico, normalmente branca, que você sem incerteza conhece e onde já descansou tantas vezes— é o traste mais utilizado do mundo, um objeto tão popular que transcendeu todas as fronteiras.
Barata, versátil, ligeiro e resistente às intempéries, a cadeira monobloco é fabricada com uma única peça de plástico, geralmente polipropileno, e se tornou um ícone de projeto industrial que desperta paixão e ódio em igual medida.
Os detratores afirmam que sua onipresença a transforma em um símbolo de vulgaridade, de mau paladar, assassina da estética e um exemplo da cultura do descartável, com suas graves consequências para o meio envolvente.
A cadeira de plástico chegou a ser proibida por dez anos nos espaços públicos da Basileia, na Suíça, porque elas prejudicavam, ao menos na visão das autoridades, a estética da cidade.
Já os defensores destacam seu projeto democrático e todas as principais qualidades que levaram ao sucesso: ela pode ser empilhada, pesa pouco, é muito barata e, geralmente, possui um formato ergonômico que a torna muito cômoda.
A monobloco ocupa lugar privilegiado na cobertura do premiado disco “Debí Tirar Más Fotos”, do artista porto-riquenho Bad Bunny, o que diz muito sobre esse laço sentimental que une tantas pessoas a esse tipo de cadeira e às lembranças que ela pode trazer.
A cadeira é fabricada injetando-se uma resina de plástico líquida em um molde a respeito de 230°C, que é resfriada e endurece em seguida.
“A monobloco é a combinação do libido tão enraizado entre os designers de gerar a cadeira perfeita, fabricada de forma industrial”, diz Paola Antonelli, diretora do Museu de Arte Moderna de Novidade York, nos Estados Unidos (MoMA, na {sigla} em inglês), no vídeo relativo à exposição “Pirouette: Turning Points in Design” (pirueta: pontos de inflexão no design, em tradução livre), de 2025.
Porquê essa cadeira foi inventada
Os designers começaram a fazer experimentos com a fabricação de cadeiras com uma só peça de material na dezena de 1920. Os primeiros testes utilizaram uma placa metálica, que era prensada, ou madeira laminada.
Mas foi em 1946 que o desenvolvimento do plástico uma vez que material resistente e com enorme versatilidade levou o arquiteto canadense Douglas Colborne Simpson (1916-1967) a gerar, em colaboração com o engenheiro James Donahue (1917-1996), um protótipo de cadeira empilhável com uma única peça de plástico.
Esta cadeira pode ser considerada a primeira monobloco da história, mas não saiu do protótipo. Nos anos que se seguiram, os avanços com materiais conhecidos uma vez que termoplásticos permitiram a industrialização do processo.
Para isso, foram empregados pellets ou pequenas bolinhas de material plástico uma vez que polipropileno. Ao serem aquecidas, elas se liquefazem e podem ser injetadas em um molde. E a tecnologia também permitia a fabricação desses moldes em cores chamativas.
Produtos vindos desta inovação viraram símbolos do design industrial, uma vez que a cadeira Panton, criada entre os anos 1958 e 1967 pelo designer dinamarquês Verner Panton (1926-1998); a cadeira Bofinger, criada entre 1964 e 1967 pelo arquiteto teutónico Helmut Bätzner (1928-2010); a Selene (1961-1968), do projetista italiano Vico Magistretti (1920-2006); e a Universale (1965), do também italiano Joe Colombo (1930-1971).
Todos esses modelos hoje são objetos de libido de colecionadores e amantes do design, principalmente de interiores. Eles podem ser encontrados nos museus e em lugares sofisticados.
Mas uma vez que passamos da Panton ou da Bofinger para a humilde cadeira de plástico das praias?
A fabricação dessas peças continuava sendo rosto, mesmo de forma industrial. Até que, em 1972, o engenheiro gálico Henry Massonet (1922-2005) criou sua Fauteuil 300 (Cadeira 300, em tradução), considerada o arquétipo da cadeira de plástico barata, segundo o museu de design Vitra, localizado na cidade de Weil am Rhein, no sudoeste da Alemanha.
Para aprimorar a eficiência do processo de fabricação, Massonet conseguiu reduzir a duração do ciclo de fabricação para exclusivamente dois minutos e comercializou a cadeira através de sua empresa, a Stamp.
A Fauteuil 300 tinha braços e era muito parecida com a monobloco de hoje. Mas, inicialmente, ela não foi muito popular, já que teve o contratempo de surgir junto com a primeira grande crise do petróleo, em 1973.
“Os móveis de plástico haviam sido um presságio do porvir, mas, naquela idade, eram considerados cada vez piores”, diz sua descrição no Vitra. “Isso uma vez que resultado não exclusivamente do aumento do preço da matéria-prima, mas também de uma novidade consciência ambiental.”
Mas Massonet nunca patenteou sua invenção, segundo Paola Antonelli, que é diretora do departamento de arquitetura e design do MoMA, em Novidade York. Isso permitiu que muitas empresas copiassem seu processo de fabricação e seu padrão, que foi túrbido várias vezes.
Na dezena de 1980, o grupo gálico Grosfillex conseguiu fabricar sua cadeira de jardim de resina a um dispêndio tão ordinário que pôde lançá-la no mercado a preços muito competitivos, multiplicando exponencialmente sua popularidade e transformando a monobloco em um resultado de tamanho.
Duração
Dê uma olhada nos seus álbuns de fotos, uma vez que fez Bad Bunny. Essa cadeira certamente aparece em mais de uma imagem, seja na sua mansão, seja nas suas viagens mais exóticas.
Você a encontra, por exemplo, na medina de Rabat, no Marrocos; em uma reunião política em Marselha, na França; em um restaurante nas ruas de Pequim, na China; revestida de tecido em uma sarau de enlace em Buenos Aires, na Argentina; ou nas ruas de alguma pequena cidade mediterrânea, onde as vizinhas a levam à tarde para passear e conversar ao ar livre e ver o tempo e a vida passarem.
E não há só cadeiras brancas. Elas são fabricadas em muitas cores, com designs diferentes, com e sem braços, de diversas qualidades.
Mais de uma vez, os pés dos modelos mais econômicos foram quebrados ao receberem alguém mais pesado ou que gosta de se oscilar. Mas outras duram décadas.
Calcula-se que a fabricação da cadeira monobloco custe muro de US$ 3 (muro de R$ 16) e, em muitos lugares, ela chega a ser vendida por exclusivamente US$ 10 (muro de R$ 52), o que faz dela um objeto onipresente.
Mas US$ 10 não valem o mesmo em Acra (Gana) e em Berlim (Alemanha). Por isso, em algumas sociedades ricas, ela é um objeto que é jogado fora quando estraga. Mas, em muitos outros lugares, é consertada e adaptada às necessidades dos usuários.
Cadeiras brancas de plástico costuradas com arame ou presas com talas são comuns em bairros mais humildes e nas zonas rurais de muitos países. Por isso, a cadeira monobloco encarna um paradoxo, segundo Antonelli, do MoMA.
“Em alguns países, ela é produzida em tamanho e descartada rapidamente, enquanto, em outros, é valorizada e reparada, o que reflete diferentes percepções do seu valor.”
Para ela, “sua natureza multifacética simboliza a complexa cultura do consumo no mundo de hoje”.
Para o teórico social Ethan Zuckerman, o design de alguns objetos “atingiu tamanho proporção de sublimidade que eles não precisam ser adaptados para ter sucesso, seja na África, seja nos bairros residenciais dos Estados Unidos”.
Zuckerman foi diretor do núcleo de meios de informação cívicos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, publicado uma vez que MIT, na {sigla} em inglês.
Seu estudo, intitulado “Those White Plastic Chairs – The Monobloc and the Context-Free Object” (aquelas cadeiras brancas de plástico – a monobloco e o objeto livre de contexto, em tradução livre) traz uma recado para os críticos de objetos com esta cadeira tão popular.
Para ele, “desprezá-los é um risco: os objetos uma vez que a monobloco alcançaram uma notabilidade mundial com que poucos seres humanos sequer sonharam”.
Esse texto foi originalmente publicado cá.
