Acervo de fotos reúne estrelas da era de Ouro de Hollywood – 05/08/2026 – Ilustrada
De tão enamorado pelas estrelas de Hollywood, o empresário Claudio Sarrat Duarte evocou duas delas ao batizar as filhas que teve com a mulher, Cecília. A primogênita, Marlene, foi uma homenagem a Marlene Dietrich. A caçula, Lys, um tributo a Elizabeth Taylor.
Duarte nasceu em 1908 no Rio de Janeiro, se mudou para Santos, no litoral paulista, na puberdade e, no final dos anos 1930, se estabeleceu em São Paulo, onde foi um dos sócios-fundadores da Drogaria São Paulo. Morreu em 2002, aos 93 anos.
Cinéfilo inveterado, vivenciou a subida e declínio da chamada era de ouro de Hollywood, que teve seu auge dos anos 1930 aos 1950. Os vestígios dessa relação sobrevivem num espaçoso pilha formado sobretudo por fotos de atrizes e atores, do qual segmento significativa segue preservada graças ao designer industrial Antônio Job, num enredo que daria um filme.
Companheiro de uma neta de Duarte –Márcia Fasano, produtora de teatro, cinema e TV–, Job recebeu o pilha uma vez que doação pouco em seguida a morte de Cecília, viúva do empresário, em 2012. O conjunto preservado por ele tem 130 fotografias autografadas, tiradas entre 1932 e 1937.
Algumas tem dedicatórias feitas principalmente para Duarte, e há cartas e envelopes com a correspondência entre o empresário e os principais estúdios americanos da era, uma vez que Metro-Goldwyn-Mayer, Warner Bros. e RKO. Álbuns com fotos e recortes de revistas confeccionados pelo cinéfilo completam a coleção.
Naquele período, os grandes estúdios tinham departamento de correspondência com fãs ao volta do mundo e costumavam enviar retratos das estrelas uma vez que mimos para cativá-los –a princípio gratuitamente, mas, a partir de um notório período, alguns cobravam. Não está simples uma vez que Duarte adquiriu seu pilha, mas uma vez que ele também comprava filmes de estúdios, distribuidores e exibidores, é provável que alguns itens tenham sido brindes.
Cartas dirigidas ao empresário e retratos autografadas no nome dele indicam que ele não se tratava de um fã qualquer. O mesmo vale para as assinaturas das estrelas. Aa maioria das chamadas “fan photos” recebiam autógrafos em fac-símile, reproduções idênticas impressas mecanicamente, mas muitos exemplares do pilha de Duarte trazem dedicatórias personalizadas.
Nesta categoria estão retratos de Bette Davis, Jean Harlow, Joan Crawford, Ginger Rogers e Rosalind Russel, entre várias outras estrelas.
Datada de 1936, uma foto de Virginia Bruce traz a assinatura dela junto aos dizeres “to Claudio Duarte, all good wishes” —a Claudio Duarte, tudo de bom. No envelope timbrado, o timbre postal indica a origem da epístola, Beverly Hills, Califórnia, e o título do lançamento mais recente da estrela, “Ziegfeld, o Fundador de Estrelas”.
Algumas fotos estão autografadas, mas não dedicadas pessoalmente, uma vez que as de Marlene Dietrich, estrela de “O Criancinha Azul”, Greta Garbo, de “Ninotchka”, e Marie Dressler, de “O Lírio do Lodo”. A última, vê-se, pela chancela em cumeeira relevo, que foi tirada por Clarence Sinclair Bull, fotógrafo que chefiou o departamento de retrato de cena da MGM na era de ouro.
Embora em menor número, os homens estão presentes. Há no pilha retratos autografados de Bela Lugosi, célebre tradutor de “Drácula”, Ronald Colman, de “Fatalidade”, Walter Huston, de “O Tesouro de Sierra Matriz”, e Robert Montgomery, de “A Noite Tudo Encobre”.
DOAÇÃO DA DOAÇÃO
Segundo a neta, Márcia Fasano, o melancolia pela morte da matriarca Cecília em seguida uma longa internação fez com que a família resolvesse doar o pilha a uma instituição de humanitarismo –ficaram exclusivamente com alguns álbuns, câmeras e projetores do cinema doméstico criado por Duarte.
Ao ver a relíquia que seria doada, seu companheiro Job encantou-se. “As caixas estavam num caminhão para ir embora. Fui abrindo e vendo as fotos autografadas, lindas, com os envelopes, selos e carimbos originais. Eu pirei. O caminhão levou várias outras caixas e latas de filmes”, lembra o designer.
“O Antônio [Job], quando viu aquilo, não deixou que eu doasse tudo. Logo doamos [parte] para ele. Eu sabia para quem estava doando”, diz Fasano. O companheiro fez jus à crédito e preservou com desvelo o pilha nos últimos 14 anos. Primeiro, fez do seu apartamento uma pequena galeria, com imagens emolduradas espalhadas pelas paredes. Depois, dispôs fotos, cartas e envelopes em álbuns, com legendas e pequenas descrições.
Por estar de mudança de São Paulo para João Pessoa, e sem ter mais estrutura para preservar o pilha, Job vai leiloá-lo entre 20 de agosto e 21 de setembro, na lar Vera Nunes Leilões, de São Paulo.
“Com essa idade [73 anos], o que vou fazer com isso? Se morro amanhã, minha família mal sabe o que é isso e nem tem lugar para vigilar. É um pequeno museu que pode ir para outro museu”, afirma.
O cenário original da coleção era a lar da família Duarte em São Paulo, um sobrado no final da rua Augusta do lado dos Jardins, quase na esquina com a Estados Unidos. Foi lá que, além de praticar seu colecionismo por décadas, o patriarca montou uma sala de exibição caseira que até hoje não sai da cabeça de Lys Tormin Duarte Rosso, 87 anos, sua única filha viva, e dos netos do empresário.
“Começava um quarto e ia até a sala de jantar, era uma intervalo muito boa [para exibir filmes], tanto que tinha até tela Cinemascope”, diz Lys. Ugo Rosso, rebento dela, complementa: “A tela padrão era na parede, com uma moldura vermelha, e ele tinha uns ganchos e uma espécie de lona que deixavam a tela tipo widescreen”.
Com tapume de 20 lugares, a sala de exibição privada da rua Augusta começou a funcionar nos anos 1950, vivenciou o chegada do VHS nos anos 1980 e se estendeu até o final do século. Era restrita a familiares e amigos, dentre os quais Lys lembra de Armin Caravellas e Estanislau Szankowski, ambos do volta de cinema amásio paulistano.
‘GILDA’ E BERGMAN
Um neto de Claudio Duarte acabaria se tornando ator, Victor Fasano, irmão de Márcia e galã de novelas da Orbe nos anos 1990 e 2000. Ele atuou em “Ventre de Aluguel”, “De Corpo e Espírito” e “O Clone”, entre outras novelas, e recorda com empolgação o ritual de exibição na sala do avô.
“Antes de cada filme, ele falava da história que seria exibida, do diretor que estava dirigindo e por que, na opinião dele, a escolha dessa ou daquela atriz. E essa sala era lotada de fotos de atrizes de Hollywood.”
“Era fascinante para uma párvulo, olhar aquela tela e ver o cinema dentro de lar. Lembro quando ele passou ‘Gilda’, com a Rita Hayworth, e ele contando: ‘Foi a única atriz que as pessoas gritavam o nome dela e ecoava pela cidade. Lembro dele sempre falando das atrizes, de todas as atrizes. Era enamorado por elas, pelas pessoas, pelo cinema em si.”
Victor associa a paixão do avô pelo cinema e suas estrelas à mãe de Claudio Duarte, a francesa Leony Sarrat. “Morreu com mais de centena anos, e lembro dela dizendo que, quando não conseguisse mais marchar de salto cumeeira, podia morrer. Acho que isso tem um pouco a ver com essa fascinação do meu avô pelas estrelas do cinema. Tendo uma mãe supervaidosa, glamorosa, ele começou a reputar essas atrizes glamorosíssimas”, afirma ele, que parou de atuar temporariamente. Hoje ele se dedica a uma empresa de restauração de florestas e a um criadouro de espécies ameaçadas de extinção.
Enquanto Victor lembra de “Gilda”, sua mana Márcia recorda de ter visto na lar do avô “O Sétimo Selo” e “Morangos Silvestres”, ambos de Ingmar Bergman. E sua tia Lys, de “Melodia Imortal”, por motivo de Kim Novak, e “Cantando na Chuva”, com Gene Kelly.
Duarte alugava muitos filmes, mas mantinha um pilha pessoal. “Ele tinha um armário de aço lotado. Eram rolos enormes, um detrás do outro. E meu avô explicava que aquelas fotinhos em movimento viravam o cinema, portanto eu ficava fascinado, gostava de tocar naquelas fitas”, diz Victor. “Era a lar de um amante de cinema”, afirma Márcia.





