Álbum que firmou a identidade musical latina de Ney Matogrosso em 1976, 'Bandido' continua sedutor aos 50 anos
Ney Matogrosso é retratado na toga do álbum ‘Bandido’ (1976) com a imagem de cigano
Marta Viana / Reprodução da toga do álbum ‘Bandido’
♫ MEMÓRIA – DISCOS DE 1976
♬ Alçado instantaneamente ao posto de popstar ao ser revelado em 1973 uma vez que vocalista do grupo Secos & Molhados, Ney Matogrosso perdeu um pouco da popularidade inicial ao transpor do trio em 1974.
Mesmo sem ter partido do zero, o cantor teve que buscar um caminho próprio e encontrar uma identidade músico para se firmar na curso solo iniciada em 1975 com o álbum “Chuva do firmamento – Pássaro” e o show “Varão de Neanderthal”, trabalhos de atmosfera visceral e densa latinidade.
Naquele primeiro momento, Ney parecia encarnar um bicho indomado, arredio, um pássaro já seguro do próprio voo. Começou a ser construído ali o universo músico da curso solo do cantor em movimento alicerçado em 1976 pelo álbum e show seguintes, “Bandido”.
Produzido por Guilherme Araújo (1936 – 2007), sob direção músico da violonista Rosinha de Valença (1941 – 2004), “Bandido” é álbum que chega aos 50 anos em 2026 com o mesmo poder de sedução de 1976. O título do álbum foi tirado do nome do mix pop de bolero e tango que se tornou o hit radiofônico do álbum, “Bandido corazón”, presente de Rita Lee (1947 – 2023), solidária com o colega que seguia trajetória parecida com a da própria Rita, que também teve que procurar a própria turma depois a controversa saída do grupo Os Mutantes no termo de 1972.
A aproximação com Ney levou Rita a saber o horizonte parceiro de vida e música Roberto de Roble, guitarrista e tecladista da filarmónica Terceiro Mundo, arregimentada por Ney em 1975 para acompanhá-lo naquele momento decisivo da curso solo.
Além de Roberto, que teria contribuído para o polimento pop do conluio da gravação original de “Bandido corazón”, a filarmónica Terceiro Mundo era formada por Elber Bedaque (bateria), Elias Mizrahi (piano, moog e bandolim), Jorge Roble (grave), Jorge Omar (violão, viola e arranjos) e Marcelo Salazar (percussão) – músicos fundamentais para a unidade sonora alcançada por “Bandido”.
Na toga do LP, editado pela gravadora brasileira Continental (a mesma que lançara os dois álbuns do Secos & Molhados), Ney Matogrosso era visto em foto de Marta Viana com o visual de cigano que ajudou a moldar a imagem do cantor, turbinada com adereços uma vez que bandana, brincos e colares.
No repertório do álbum “Bandido”, Ney se permitiu ser livre, dando voz tanto a uma cantiga de Luhli (1945 – 2018) que tangenciava a forma de um blues rasgado, “Cá e agora”, quanto a uma música inédita de Odair José (cantor popular que vivia logo o auge da curso), parceiro de Maxine em “Cante uma cantiga de paixão”, constituição nunca regravada pelo responsável, talvez por não figurar entre as criações mais inspiradas de Odair.
Já mostrando a habilidade para pescar pérolas, Ney remexeu no baú latino e tirou de lá “Pa-ran-pan-pan”, rumba do compositor cubano Sergio de Karlo (1911 – 2020) lançada em Cuba em 1939 e gravada pela primeira vez no Brasil vinte anos depois, em 1959, depois ter se tornado standard latino na dez de 1940, antecipando a era áurea do chá-chá-chá nos anos 1950.
Mais antiga ainda é a outra pérola do álbum, “Trepa no coqueiro” (Ary Kerner Veiga de Castro), música de 1929 em que Ney imprimiu a malícia sensual que se tornaria recorrente na discografia solo do cantor.
Nessa risco mais brejeira, o álbum “Bandido” também reapresenta o samba “Pra não morrer de tristeza” (João Silva e K-Boclinho, 1965) em gravação de picardia sublinhada pelo sopro do clarinete de Abel Ferreira (1915 – 1980), um dos músicos convidados da estelar ficha técnica que inclui também instrumentistas do naipe do violoncelista Jaques Morelenbaun, creditado somente uma vez que Jacques.
Em tom mais poético, o álbum voa basta por ares andinos na cantiga “A gaivota”, composta por Gilberto Gil para Ney enquanto o artista baiano estava recluso pelo uso de maconha. O próprio Gil toca violão na gravação de “A gaivota”, música que o compositor registrou em single editado em 1977.
De outro gigante da MPB, Chico Buarque, Ney ganhou “Mulheres de Atenas”, música em que Chico usou de fina ironia para denunciar o tirania do patriarcado que ainda expõe as garras em Atenas e no Brasil (o compositor também gravou “Mulheres de Atenas” no álbum “Meus caros amigos”, lançado naquele mesmo ano de 1976).
Dentre o trio feminino que assina músicas no repertório do álbum “Bandido”, há a diretora músico Rosinha de Valença – compositora e violonista sensacional da cantiga ruralista “Usina de prata”, também gravada por Rosinha no álbum “Cheiro de mato” (1976) – e há Marlui Miranda, que recolheu “Airecillos”, cantiga espanhola do século XVI, além da já mencionada Luhli.
“Airecillos” fecha o álbum com o quina de Ney em espanhol, ressaltando a latinidade que seria um dos traços determinantes da identidade músico delineada pelo cantor com oriente segundo álbum solo.
Já cinquentenário, mas atemporal pelo repertório sem prazo de validade, “Bandido” é retrato muito completo da personalidade potente de Ney Matogrosso uma vez que tradutor. Por isso, aos 50 anos, o disco preserva virgem o poder de sedução de 1976.
Fonte G1





