O congraçamento de cooperação nuclear anunciado pelos Estados Unidos (EUA) e pela Arábia Saudita, que deve resistir “décadas” e envolveria bilhões de dólares, expõe a incongruência da política externa da Lar Branca em relação à questão nuclear. O congraçamento, que não foi divulgado na íntegra, deve ainda passar por estudo do Congresso estadunidense.
A incongruência se expressa pelo traje de o governo Donald Trump fechar essa parceria com a reino absolutista da Arábia Saudita, abrindo caminho para o que o país enriqueça urânio, ainda que alegue que é para fins pacíficos, logo depois encetar uma guerra exigindo o termo do enriquecimento de urânio no Irã, ainda que Teerã sustente que o programa não tem objetivos militares.
Depois de críticas de Israel, Trump foi às redes sociais declarar que a parceria nuclear estaria condicionada à assinatura, pela Arábia Saudita, dos acordos de Abraão, o que colocou em incerteza o horizonte do congraçamento nuclear entre Washington e Riade, a capital do reino mouro.
Promovidos por Trump, os acordos de Abraão obrigam os países árabes a reconhecer Israel independentemente da questão palestina. Os sauditas têm sustentado que somente assinariam o congraçamento com garantias para um Estado palestino, o que é rejeitado pelo governo de Benjamin Netanyahu.
Proteção à Arábia Saudita
O historiador da Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ) Francisco Carlos Teixeira da Silva avalia que o congraçamento expõe a incongruência na política nuclear dos EUA, sendo uma forma de Trump volver a perda de crédito de Riade, depois a guerra com o Irã, em relação à proteção que Washington daria ao país mouro.
“Isso é um reconhecimento da falência do ‘escudo americano’. Tudo isso se dá em meio a um bombardeio pesado do Irã contra a Arábia Saudita. Agora os EUA sugerem que os sauditas podem ter armas nucleares e, com isso, poderiam responder ao Irã com armas nucleares”, disse à Filial Brasil.
Apesar de o governo Trump declarar que a Arábia Saudita não desenvolveria armas nucleares, especialistas e organizações que lutam contra a proliferação de armas atômicas alertam que a reino não tem aceitado assinar um “protocolo suplementar” com a Filial de Robustez Atômica (AIEA) que permitiria inspeções-surpresa.
“Os líderes sauditas, por vezes, manifestaram o libido de desenvolver um ciclo de combustível completo, desde a extração de urânio até o reprocessamento do combustível irradiado. Isso não é típico de países que estão somente iniciando programas de robustez nuclear”, disse a Associação de Controle de Armas.
A organização não governamental (ONG) dos EUA argumenta que permitir que a Arábia Saudita ignore o protocolo suplementar da AIEA enfraquece a posição de Washington nas negociações com Teerã.
“Fechar um congraçamento com a Arábia Saudita antes de resolver a questão nuclear iraniana seria insensato e míope”, diz a entidade, acrescentando que o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, afirmou, em 2018, que buscaria uma arma nuclear caso o Irã tivesse chegada a uma.
Sinal alarmante para Oriente Médio
O professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Goulart Menezes destacou à Filial Brasil que, embora a Arábia Saudita tenha assinado o Conciliação de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), a parceria com os EUA envia um sinal contraditório para o Oriente Médio.
“É alarmante porque, embora haja um compromisso para enriquecer o urânio para fins pacíficos, o traje é que, na trajetória do programa nuclear da Arábia Saudita, pode possuir outros interesses no horizonte que sejam diferentes do ponto de partida. Isso aumenta as incertezas na região”, comentou.
O perito da UnB lembra que, desde a Guerra Fria, os EUA trabalham para convencer países a transfixar mão de desenvolver armamentos nucleares ou mesmo promover programas nucleares. Brasil, México e África do Sul são exemplos de nações que assinaram o TNP em meio à pressão de Washington.
“Juntamente com a União Soviética (URSS), o objetivo dos EUA era barrar a proliferação nuclear. Isso porque quanto mais Estados passassem a ter chegada à tecnologia nuclear e, no momento seguinte, a possibilidade de ter arma atômica, isso diminuiria o poder dos EUA e da URSS”, contextualizou Menezes.
Coreia do Sul
O congraçamento dos EUA com Arábia Saudita contrasta ainda com a política nuclear da Lar Branca para a Coreia do Sul que, há décadas, procura uma parceria com Washington para enriquecer urânio diante das tensões militares com a Coreia no Setentrião.
“[Isso] expõe um flagrante duplo padrão na política nuclear americana. Washington parece ter ingénuo caminho para que a Arábia Saudita obtenha direitos de enriquecimento para usinas nucleares que ainda não foram construídas, enquanto os nega à Coreia do Sul, que já opera 26 reatores”, escreveu o correspondente do The New York Times em Seul, Choe Sang-Hun.
Negociações começaram em 2008
Desde 2008, EUA e Arábia Saudita discutem um verosímil congraçamento nuclear para fins pacíficos. Em 2020, o Escritório de Prestação de Contas do Governo dos EUA (GAO, na {sigla} em inglês) relatou que os países não haviam feito “progressos significativos” para um congraçamento.
“Devido a divergências persistentes sobre condições de não proliferação, incluindo aquelas relacionadas a um Protocolo Suplementar e a restrições ao enriquecimento e ao reprocessamento de material nuclear”, escreveu o escritório ligado à Lar Branca.
A divergência teria persistido durante a governo de Joe Biden (2021-2025), alimentada ainda pelo homicídio do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita na Turquia.
A investigação do governo turco apontou que o jornalista, que era crítico da reino do país, foi esquartejado e teve o corpo dissolvido em substância química por funcionários da embaixada do regime do Oriente Médio. O caso mobilizou a opinião pública estadunidense contra a Arábia Saudita.
A situação mudou no segundo procuração do presidente Donald Trump. Em novembro do ano pretérito, os países assinaram uma enunciação conjunta sobre o tema, mostrando progressão nas negociações.
Com a escalada da guerra no Oriente Médio nos últimos dias, o congraçamento foi anunciado. Isso somente dois dias depois os houthis, do Iêmen, bloquearem a passagem dos navios sauditas no Estreito de Bad el-Mandeb, no Mar Vermelho, prejudicando as exportações do país, já prejudicadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz.










