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Peça debate sexualidade de pessoas com deficiência 24/07/2026
Celebridades Cultura

Peça debate sexualidade de pessoas com deficiência – 24/07/2026 – Ilustrada

O libido, a intimidade e o afeto costumam ser retratados nos palcos sob uma ótica quase homogênea. No entanto, o que acontece quando esses mesmos temas ganham vida a partir de corpos que a sociedade, historicamente, tenta invisibilizar? É essa a provocação meão de “Meu Corpo Está Cá”, montagem premiada que cumpre temporada de 23 de julho a 9 de agosto no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, propondo um debate direto sobre a sexualidade de pessoas com deficiência.

Vencedora dos prêmios FITA e APTR e indicada ao Prêmio Shell, a peça rompe barreiras ao colocar atrizes e atores PCDs no núcleo da narrativa —não sob o estigma da limitação, mas sob a ótica do protagonismo, da autonomia e da sentença plena de suas vivências.

Idealizado por Julia Spadaccini e Clara Kutner, o espetáculo constrói sua dramaturgia a partir de um mergulho nas histórias pessoais do próprio elenco, formado por Bruno Ramos —artista surdo usuário de Libras—, Juliana Caldas —atriz com nanismo—, Pedro Fernandes —ator com paralisia cerebral— e Sara Bentes —artista com deficiência visual.

As memórias reais dos atores serviram de matéria-prima para a geração de relatos ficcionalizados que abordam, sem rodeios, as descobertas e as barreiras da vida amorosa. Para Julia Spadaccini, que também é uma pessoa com deficiência auditiva e assina o texto, o ponto de partida do projeto nasceu ao notar a falta de representatividade real e humana desses corpos na arte.

Ela conta que, ao terebrar o “baú de vivências” com os atores, deparou-se com depoimentos de trajetórias muito diferentes, mas que compartilhavam a mesma transparência de uma vez que esses corpos são marginalizados pela sociedade.

A união de linguagens tão diversas exigiu do processo criativo uma sensibilidade apurada para fugir dos clichês habituais da dramaturgia sobre o tema. Julia ressalta a parceria com Clara Kutner, que já trazia a bagagem do trabalho com arte surda no Projeto SOM, afirmando que essa troca foi fundamental para conduzir a encenação de forma que pudessem “fugir dos estereótipos e fazer uma peça que chegasse ao público sem aderir ao exposição ‘trágico’ ou com o apelo da superação”.

Em vez da dramaticidade pesada, a montagem aposta na leveza e faz do humor uma de suas principais pontes de aproximação com a plateia, longe de qualquer caricatura.

Com vasta experiência em comédias de sucesso na televisão, uma vez que o seriado “Tapas e Beijos”, Clara Kutner explica que o tom cômico atua diretamente no desmantelamento de tabus enraizados, funcionando uma vez que uma provocação que deixa as pessoas “mais receptivas, permeáveis e abertas para transitarem por várias sensações”.

Essa abordagem sem rodeios provoca reações intensas em quem assiste. Segundo Kutner, o público costuma trespassar surpreso e tocado ao se deparar com um objecto que foge do tino geral, e até o desconforto de alguns espectadores é visto com bons olhos.

“Já tínhamos pessoas incomodadas ao ponto de saírem no meio da apresentação, o que me parece proveniente, pois o texto é provocativo. Eu penso: ‘Dorme com esse estrondo'”, brinca a diretora.

Apesar da receptividade do público e do reconhecimento da sátira, a montagem traz à tona um alerta sobre as lacunas que o setor cultural brasílico ainda precisa enfrentar. Nas palavras de Julia Spadaccini, o mercado deu alguns passos, mas ainda não existe fenda para artistas PCDs em papéis de destaque, já que o capacitismo permanece dominante.

É por isso que o projeto ultrapassou a cena teatral e se desdobrou em outras linguagens para perpetuar sua mensagem. No dia 1º de agosto, o Sesc 24 de Maio sedia o lançamento do livro da peça, publicado pela editora Cobogó, e a exibição de um documentário assinado por Camila Sokolowski, que acompanhou os bastidores desde os primeiros ensaios.

Para Kutner, registrar a obra em páginas impressas e em vídeo garante que esse debate continue reverberando por anos. A diretora celebra a publicação, lembrando que ainda existe pouquíssima literatura voltada para a acessibilidade e a variação no Brasil, e expressa o libido de que o registro sirva de inspiração para novas produções e gerações, provando que a arte é, em sua núcleo, o encontro de almas habitando os mais diferentes corpos.

Folha

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