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'Águas Mortais' tem ação competente e espetáculo no oceano
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‘Águas Mortais’ tem ação competente e espetáculo no oceano – 27/07/2026 – Ilustrada

Depois do verão americano de 1975, quando Steven Spielberg lançou “Tubarão”, dois novos tipos de pessoas surgiram na população mundial: aquelas que nunca mais entraram tranquilas na chuva do mar e aquelas que se tornaram fãs incondicionais do chamado “filme de tubarão”.

É um subgênero muito poderoso. É praticamente impossível passar uma temporada sem pelo menos um título trazendo o terror dos mares. Alguns bons, muitos sofríveis. Os aficionados têm agora nos cinemas uma rara opção, uma proeza com um roteiro sólido e um diretor que sabe fazer filmes de ação delirantes.

“Águas Mortais” é dirigido por Renny Harlin, de sucessos de bilheteria uma vez que “Cliffhanger”, “Duro de Matar 2” e a recente franquia “Os Estranhos”. Esse diretor finlandês radicado em Hollywood há décadas pode não reinventar a roda, mas sabe erigir filmes de ação impecáveis.

Agora a proposta é curiosa. Seu novo filme mistura cinema catástrofe com terror de tubarões. Um resumo do enredo mostra uma premissa muito simples. Um voo entre Los Angeles e Xangai termina em um pouso forçado no Oceano Pacífico. Os sobreviventes conseguem evadir da avião parcialmente submersa exclusivamente para deslindar que o mar ao volta está infestado de tubarões.

A partir daí, o roteiro abandona qualquer pretensão de realismo e transforma o filme numa sucessão de obstáculos físicos, ataques repentinos e decisões desesperadas. O que diferencia “Águas Mortais” de outros filmes caça-níqueis do subgênero é a construção da primeira metade do longa, com a espetacular sequência do sinistro desatento.

Em vez de recorrer exclusivamente a uma montagem frenética, Harlin permite que o testemunha compreenda a geografia do sinistro, aumentando a tensão conforme a avião perde altitude e os passageiros percebem que não haverá pouso seguro.

Quando a narrativa migra para o oceano, porém, “Águas Mortais” passa a enfrentar um problema generalidade ao cinema de sobrevivência, a repetição. O roteiro encontra dificuldade para renovar os conflitos e acaba recorrendo sucessivamente ao velho mecanismo de separar personagens para que um novo ataque aconteça. A presença dos tubarões mantém a prenúncio uniforme, mas raramente produz momentos verdadeiramente inesperados.

Não é um filme de tubarão típico, com produção barata e elenco de desconhecidos canastrões. Aaron Eckhart empresta credibilidade ao protagonista, enquanto Ben Kingsley carrega tranquilo um papel que poderia facilmente resvalar na caricatura. A presença de um vencedor do Oscar uma vez que ele dá intensidade ao filme, e Kingsley certamente fez uma boa suplente para remunerar seus boletos nos próximos meses.

Evidente que a maioria do elenco existe principalmente para cevar a escrutínio de vítimas. Antes de serem mastigados por mandíbulas assassinas em cenas de grande impacto visual, os personagens exibem arquétipos bastante conhecidos —o passageiro interesseiro, a menino vulnerável, o líder improvisado, o covarde, o herói relutante. O testemunha já viu todos eles em outros filmes.

Curiosamente, essa falta de originalidade também constitui segmento do charme. Harlin nunca esconde que está realizando um filme de gênero talhado ao consumo popular. Em vez de buscar discursos grandiosos ou metáforas sociais, concentra seus esforços na geração de suspense, alternando momentos de silêncio, ataques violentos e pequenas explosões de humor involuntário.

As referências aos clássicos do cinema catástrofe e a dezenas de filmes de tubarão são tantas que não dá para imaginar que o filme busque simplesmente a imitação. Com um bom arquiteto visual uma vez que Harlin detrás das câmeras, a coisa ganha ares de homenagem. As sequências de ação parecem produzir um tributo a esses gêneros de cinema popular.

Falta-lhe originalidade, personagens memoráveis e um roteiro mais inventivo, mas sobra conhecimento na gestão do suspense e das cenas de ação. É um manobra assumidamente “pulp”, construído sobre clichês familiares e transportado por um cineasta que conhece o funcionamento desse tipo de espetáculo.

Há alguma coisa curiosamente reconfortante em um filme que se contenta em oferecer exatamente aquilo que promete, uma proeza tensa, barulhenta e divertida, na qual sobreviver ao acidente é exclusivamente o primórdio dos problemas.

Folha

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