Ciência mostra como cérebro interpreta a beleza artística – 12/09/2026 – Ciência
Fique diante do quadro “Sun Rising Over Water” (1825-30), de Joseph Mallord William Turner, e um tanto estranho costuma intercorrer. A pintura prende sua atenção, mesmo que você tenha dificuldade em proferir o porquê. Talvez seja a cor, o estabilidade, a formação ou a estranha quietude que a obra parece transmitir.
Seja o que for, você sente isso muito antes de conseguir explicar. E a pessoa desconhecida ao seu lado, olhando para a mesma tela com o mesmo espanto nos olhos, muito provavelmente também sente isso.
Costumamos proferir que “a formosura está nos olhos de quem vê”. Mas mostre a praticamente qualquer pessoa uma paisagem montanhosa enevoada chinesa da dinastia Song ou a figura delicadamente pintada da Mona Lisa, e quase todos concordam que um tanto impressionante está se revelando diante deles.
A formosura parece um tanto intensamente privado e, ao mesmo tempo, continuamos descobrindo que a compartilhamos coletivamente. Essa incoerência é um dos enigmas de longa data da “neuroestética” —a ciência que estuda porquê o cérebro responde à arte e à formosura. Uma vez que nosso tino de formosura realmente se forma no cérebro?
Em nosso estudo mais recente, publicado na revista científica Nature Communications, tentamos mapear essa experiência compartilhada. Descobrimos que, em vez de representá-la porquê uma entidade única, o cérebro divide a experiência estética em duas vertentes principais. Uma vertente lida com o que uma imagem mostra, seja uma paisagem, um objeto ou uma figura.
A outra vertente analisa o quanto isso nos proporciona prazer, recorrendo aos mesmos circuitos que respondem à comida ou ao moeda. Esses dois sistemas neurais distintos se combinam para moldar cada julgamento de formosura que fazemos ao observar obras de arte visuais.
Os neurocientistas há muito discutem essa questão, a partir de posições que competem tão frequentemente quanto se sobrepõem. Um grupo concentra-se principalmente na percepção, em porquê o cérebro assimila a formação, o contraste e a forma.
Outro enfatiza a avaliação e a recompensa, situando a formosura nos circuitos de valor do cérebro. Um terceiro grupo analisa os sistemas cerebrais por trás da imaginação e da autorreflexão. Cada uma dessas visões tomada um tanto real, mas raramente foram testadas juntas em um único estudo.
Algoritmos para a arte
Pedimos a 34 voluntários que observassem 96 pinturas tradicionais chinesas em aquarela dentro de um aparelho de sonância magnética de 7T, potente o suficiente para detectar pequenas variações no fluxo sanguíneo que indicam a atividade cerebral. Ao saírem do aparelho, cada participante avaliou porquê as pinturas os faziam se sentir.
Em vez de trabalhar diretamente com essas avaliações brutas, no entanto, recorremos a uma instrumento de uma manadeira menos óbvia: os mecanismos de recomendação que alimentam serviços porquê Netflix e Spotify.
Conhecidos porquê algoritmos de filtragem colaborativa, essas ferramentas se destacam na detecção de padrões de concordância ocultos nas preferências das pessoas. Quando aplicados às nossas avaliações estéticas, eles identificaram duas dimensões subjacentes às respostas de todos.
A primeira classificou as pinturas das que mais se assemelhavam a figuras às que mais se assemelhavam a paisagens, uma medida do que cada imagem representa conceitualmente. A segunda as classificou das menos apreciadas às mais apreciadas entre todos os participantes, uma medida do valor emocional, ou valor hedônico (o prazer sensorial que alguém obtém de uma experiência).
Apesar de sua taxa complementar para a experiência estética universal, o cérebro manteve essas duas dimensões notavelmente separadas. O teor visual era interpretado ao longo das vias visuais, os circuitos familiares que nos permitem honrar um rosto de uma cena.
O valor hedônico, por outro lado, era decodificado em outro lugar, em regiões mais profundas do cérebro que lidam com recompensa e prazer. Em termos simples, o cérebro parece julgar uma obra visual com praticamente o mesmo mecanismo que usa para julgar o resto do mundo ao nosso volta.
Mudando o cérebro
Também descobrimos que a intensidade com que o cérebro codificava esse quadro estético bidimensional dependia da expertise da pessoa em artes visuais. Em privado, a diferença se manifestou na chamada “rede do modo padrão” (default mode network, no original em inglês), um sistema de conexões no cérebro ligado à imaginação, à consciência, à autorreflexão e à construção de significado —que várias teorias importantes situam no cerne da experiência estética.
Esses resultados sugerem que, além da mera exposição, o treinamento em artes visuais parece mudar, desde o início, a forma porquê o cérebro representa a formosura.
Esse último ponto tem grande valia. Se a experiência estética possui uma estrutura mensurável no cérebro, e se a geração e a crítica da arte podem remodelá-la, logo a ensino artística passa a parecer menos um enriquecimento cultural e mais um tipo de treinamento que altera a forma porquê a percepção, a emoção e o significado se interligam. As implicações clínicas seguem a mesma risco.
Terapias baseadas na arte para depressão, traumatismo e demência há muito são valorizadas com base no instinto e em relatos isolados. Uma explicação neural mais clara nos oferece uma maneira de testá-las e aprimorá-las. Por termo, à medida que mais imagens ao nosso volta —na publicidade, no design e em nossas telas— são geradas por máquinas, saber porquê a formosura se apresenta dentro do cérebro humano é mais importante do que nunca.
Na maioria das vezes, tendemos a tratar a formosura porquê um tanto puramente pessoal e presumimos que fazer perguntas científicas sobre ela é perder o foco. Com base em trabalhos pioneiros no campo da neuroestética, nossos resultados sugerem o contrário.
A formosura tem uma estrutura, e essa estrutura diz um tanto sobre o tipo de pessoa em que nos tornamos ao longo de incontáveis anos de evolução. Não nos limitamos a olhar para o mundo. Pelo contrário, parece que não conseguimos parar de julgá-lo por sua formosura.
Levante texto foi publicado no The Conversation. Clique cá para ler a versão original.





