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Alfredo Jaar revela viés político das imagens em mostras
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Alfredo Jaar revela viés político das imagens em mostras – 28/08/2026 – Ilustrada

É tanta luz que, por um momento, o que se vê são somente sombras. Mal o observador chega ao final da instalação “O Som do Silêncio”, de Alfredo Jaar, o primeiro impulso é fechar os olhos para se proteger da claridade. A exemplo do sol, o célebre trabalho do artista chileno tem uma luminosidade tão sedutora quanto dolorosa.

Essa obra ilumina agora a sala expositiva da Pinacoteca do Ceará, onde está em edital a mostra “Você e Eu e os Outros”. Com curadoria de Moacir dos Anjos, o projeto traz instalações de grande porte produzidas por um dos principais nomes da arte mundial.

Destaque da atual edição da Bienal de Veneza, a maior exposição de arte do mundo, Jaar se notabilizou por investigar o poder político das imagens e a força estética das luzes. O interesse pela luminosidade, aliás, é legado de sua formação porquê arquiteto.

“Assim porquê o pintor usa a tela, a cor e o gesto, eu uso a luz, a graduação e as proporções. A luz fala, expressa ideias e sentimentos”, afirma ele, ao lado da obra “A Luz do Nosso Firmamento”.

Criada principalmente para a exposição, essa obra é formada por grandes painéis espelhados que refletem o sol de Fortaleza. A capital cearense é conhecida porquê terreno da luz pela possante incidência solar. “Percebi que era um tanto próprio, que não era uma luz generalidade”, diz o artista. “Por isso, pensei em fazer uma homenagem.”

Jaar reflete também sobre porquê poderes políticos e econômicos podem impedir a circulação de imagens indesejadas.

Foi o que aconteceu em 2001, quando os Estados Unidos compraram imagens de satélite para evitar a divulgação de registros sobre seus ataques no território afegão. “Tratava-se da teoria de cegar o testemunha, de não permitir que se visse zero daquele bombardeio.”

Essa notícia originou “O Lamento das Imagens”, instalação formada por dois núcleos. Em uma sala escura, o público primeiro tem contato com três textos sobre o controle imagético. Um deles discute a decisão do governo americano de comprar imagens para suprimir registros da guerra no Afeganistão.

Posteriormente ler esses materiais, o visitante entra em uma segunda sala, onde há um grande refletor em formato quadricular. A luz que esse aparelho emana é tamanha que o observador perde brevemente a visão. É uma metáfora para a facciosismo provocada pela supressão de imagens e uma estudo sobre o caráter paradoxal da luz. Ela, por fim, é uma força que ilumina, mas também ofusca.

Essa névoa criada pela luminosidade está presente também em “O Som do Silêncio”, uma das instalações mais pungentes da exposição. Reunidos em uma pequena sala, os visitantes são convidados a observar a um vídeo com murado de oito minutos.

No lugar de imagens, são exibidos textos sobre a vida do fotógrafo Kevin Carter —ganhador do prêmio Pulitzer por uma retrato que até hoje provoca controvérsia.

No registro, vemos uma moça sudanesa raquítica ajoelhada no solo, enquanto um abutre parece esperar o melhor momento para atacá-la. Carter recebeu elogios por denunciar a lazeira que devastava o Sudão, mas também foi criticado por não ter feito zero para ajudar a párvulo.

Pressionado por defensores e detratores, ele se suicidou dois meses posteriormente lucrar o Pulitzer. “Era tanta dor que é quase porquê se ele tivesse escolhido não ver mais.”

Para falar sobre Carter, o artista sabia que era inevitável exibir a foto controversa em qualquer momento. “Mas eu precisava encontrar uma maneira inteligente de mostrar a imagem sem violentar novamente essa pobre moça.”

Ele encontrou a solução ao conceber uma estrutura que dispara um flash sobre as pessoas. Com isso, Jaar tira o público da posição de observador para transformá-lo em objeto de reparo. “Quando eu choco as pessoas na névoa do flash que as cega, é o momento em que a retrato da moça aparece por um segundo.”

Jaar decidiu investigar a produção de imagens por considerá-las uma forma de transmitir visões políticas e ideológicas. “Não existe imagem puro. Hoje, mais do que nunca, a retrato é o último espaço de resistência que resta no mundo.”

Para ele, isso acontece porque a linguagem se tornou difusa e opaca diante do progressão do autoritarismo. “Cada um diz o que quer. É uma espécie de selva sem lei. E, nesse cenário, são as imagens que transmitem a verdade.”

Por outro lado, o artista costuma lançar um olhar crítico para as fotografias que circulam nos meios de notícia. Foi isso o que ele fez ao reunir 2.128 capas da revista Life produzidas entre 1936 e 1996. O objetivo do artista era revelar a invisibilização da África nas páginas da publicação. Em seis décadas, somente cinco capas retrataram países desse continente. Todas elas exibem animais ou paisagens.

“Para aquela revista e, consequentemente, para seus leitores, a África não existia. Não havia músicos, não havia cientistas, não havia arquitetura, não havia intelectuais. Não havia zero.”

A prelo ganha destaque ainda na exposição “O Lado Escuro da Lua”, mostra também dedicada ao artista, em edital na galeria Luisa Strina, em São Paulo. O projeto traz obras concebidas entre 1970 e 1980, período em que Jaar radiografou a ditadura militar chilena.

É o que vemos em um trabalho no qual o artista colocou lado a lado revistas que retratam o presidente deposto Salvador Allende e o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger. Sem usar palavras, ele evidencia o papel dos Estados Unidos no golpe que derrubou Allende.

Esse trabalho foi feito em 1985, período em que o Chile ainda estava sob o tirania do regime militar. Por isso, a obra transmite mensagens por meio da sutileza. “Se existe um tanto mais terrível do que a repreensão, é a autocensura”, diz o artista. “Nessa situação, a pessoa aprende a falar nas entrelinhas.”

Essa sutileza se faz presente também em calendários que repetem à exaustão o dia 11 de setembro. Nessa data, tropas leais ao general Augusto Pinochet bombardearam o Palácio de la Moneda, sede do governo chileno, para derrubar Allende, eleito quatro anos antes. O político, no entanto, preferiu o suicídio à rendição.

“O 11 de setembro se transformou em um símbolo da catástrofe”, afirma Jaar, acrescentando que desejava expressar isso por meio dos calendários. “Enquanto durasse a ditadura, todos os dias seriam o 11 de setembro. Foi minha maneira de expressar a sensação de que o tempo parou.”

Folha

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