Allan Weber, em mostra, aproxima mundos intransponíveis 16/04/2026

Allan Weber, em mostra, aproxima mundos intransponíveis – 16/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“É importante mostrar esses objetos, porque eles se tornam quase invisíveis no dia a dia. Meio que só a gente que tá no corre nota eles”, diz Allan Weber, sobre a sua primeira mostra individual institucional no país. As obras podem ser vistas no Instituto Tomie Ohtake, na avenida Brigadeiro Faria Lima, importante núcleo financeiro, o que gera um contraste com a verdade que seu trabalho evidencia.

Há não muito tempo, durante a pandemia de coronavírus, Weber trabalhou uma vez que entregador de lanches. Os registros fotográficos desse cotidiano deram origem ao fotolivro “Existe um Mundo Todo que Tu Não Conhece”, seu primeiro trabalho publicado.

A mostra de mesmo nome, agora em edital, dá vida a objetos tridimensionais inspirados naquelas fotografias. De bancos de moto a embalagens de lanche, o artista expõe o que o geógrafo e plumitivo Milton Santos chamou de volta subordinado. “A minha intenção mesmo é que o pessoal da quebrada, os motoboys, os funcionários da limpeza olhem para o meu trabalho e se sintam representados”, afirma Weber.

Em “Trap”, uma das séries expostas na mostra, o artista cria estruturas inspiradas nos álbuns do gênero músico de mesmo nome –a música que ouvia com frequência enquanto trabalhava de entregador, tanto pela motivação quanto pela identificação com as letras. Feitas com câmeras de bicicleta e lonas de dança funk, as obras misturam o universo do trabalho e o do lazer. Entre elas, há um conjunto de três torres, formadas por caixas d’chuva empilhadas.

Chamada “Nós que Sustenta na Raça”, a fundação brancusiana, quase transcendental em seu volume, se dá, porém, no mundo concreto. “Você sobe numa laje na favela e vê um enredado de pontinhos azuis. Eu sempre fui fissurado por caixa d’chuva, desde pequeno era nossa piscina”, diz Weber.

Essas colunas, para ele, representam a classe pobre que sustenta a sociedade, mas também simbolizam a valorização de engenharias sociais. “Os pedreiros da favela são mega-arquitetos, eu quero muito falar sobre a indisciplina da engenharia tradicional.”

Apesar de o destaque ir para obras tridimensionais, duas séries fotográficas aparecem na exposição. Em “Traficando Arte”, Weber retrata momentos de troca e lazer em sua comunidade natal, a Cinco Bocas, no Rio de Janeiro, uma vez que o dia do futebol e os bailes.

O artista conta que, na favela, a principal referência das crianças é o director do tráfico, porque ele é o grande provedor daquela sociedade. Weber tem tentado fazer um tanto semelhante por meio da arte, formando times de futebol, comprando presentes no Dia das Crianças e criando a primeira galeria da comunidade, a 5 Bocas –daí o nome da série.

Em seu trabalho, Weber tenta aproximar e ressignificar esses dois mundos que parecem intransponíveis, trazendo o glamour das galerias de arte para a favela e a vida na favela para as galerias. “Da mesma forma que o ‘favelado’ na nossa cultura é um fetiche, esse cubo branco [a galeria] acaba se tornando um fetiche para a gente também.”

A outra série fotográfica, “Tamo Junto Não É Gorjeta”, que em seu título faz uma sátira à frase ouvida de forma recorrente por entregadores de aplicativo, apresenta, numa formato de caráter warholiano, a montagem serializada de imagens de lanches nas bolsas térmicas que armazenam os pedidos.

Na mesma direção, numa das instalações mais marcantes da mostra, assentos de moto e capacetes são interligados por elásticos, flutuando no espaço. A obra ilustra a coreografia dos vários fluxos diários dos motoboys, mas também denuncia a precariedade desse trabalho.

“Os bancos das motos são construídos ergonomicamente para repousar, logo é uma paragem que leva à escassez. Depois de dez horas, aquilo vira um inferno”, afirma Weber.

Ele ainda fala do descaso que as plataformas de entrega têm com o humano e da premência de recorrer ao improviso e à originalidade para viver. “Eu vejo a gambiarra uma vez que uma tecnologia”, afirma.

Weber teve três semanas para produzir e montar as obras no próprio espaço expositivo e, por isso, acabou espalhando bancos de carruagem, além de um videogame de futebol, pela galeria, na tentativa de tornar o envolvente hospitaleiro. O artista conta que queria que tanto ele quanto o público se sentissem em lar.

Ao lado da porta, na saída da exposição, há uma máscara de bate-bola —grupo de foliões tradicional no Carnaval do setentrião fluminense. Weber a considera um talismã da sorte, dotado de mágica. Nas palavras do plumitivo Luiz Antonio Simas, “o corpo seduzido das ruas”.

Folha

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