De volta ao Brasil, Anitta testa novos caminhos em 'Equilibrium'

De volta ao Brasil, Anitta testa novos caminhos em ‘Equilibrium’ – 17/04/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Anitta não mentiu quando disse que havia diferentes versões dela. Numa quadra em que é exigido das estrelas pop que tenham “eras”, fases com estéticas e motivos líricos distintos para cada álbum, ela responde a esta expectativa com maestria: foi de MC de funk da Furacão 2000 à maior cantora pop brasileira; depois, partiu em procura do estrelato enquanto artista de reggaeton e, finalmente, com “Funk Generation”, fez uma obra que mostra seu querido funk a uma audiência internacional.

Com tantas viradas, não era improvável que a cantora surpreendesse seu público novamente em “Equilibrium”, que chegou às plataformas digitais nesta quinta (17). Mas Anitta fez mais do que isso, e protagoniza a mudança mais radical de sua curso em seu oitavo álbum. É um lançamento que não somente mostra a artista em sua período mais pessoal, mas também conecta pretérito, presente e porvir da música brasileira.

O tom de intimidade e o foco em seu rudimento não vieram do zero. Posteriormente anos vivendo no exterior, a cantora voltou a morar no Rio de Janeiro no ano pretérito. O novo lar serviu também de estúdio para a maior secção do álbum, onde Anitta recebeu os tantos colaboradores que aparecem em “Equilibrium”: de Marina Sena a Ponto de Estabilidade, passando por Luedji Luna, Ebony e Os Garotin. Na produção, aparecem nomes porquê Papatinho, Iuri Rio Branco e Carlos do Multíplice.

Tanta gente poderia tanger porquê uma distração para a música da cantora, mas o efeito é, na verdade, o contrário: no papel de artista-curadora, Anitta pegou emprestado o melhor de cada performer para edificar o que é, essencialmente, sua versão de um álbum de novidade MPB. O trio de duetos seguidos “Mandinga”, com Marina Sena, “Caminhador”, com Liniker, e “Bemba”, com Luedji Luna, são os melhores frutos dessas colaborações.

Tão presente quanto a brasilidade é a ingressão da religião e espiritualidade nos temas da cantora, que é praticante de candomblé desde 2022. “Equilibrium” não é um álbum essencialmente religioso, mas mostra uma Anitta mais místico e introspectiva. Apesar da ocasional fita dançante e debochada, propriedade de seu catálogo, grande secção da tracklist parece engatar num ritmo mais lento e se aprofundar em seus sentimentos internos e reflexões pessoais.

Apesar da profundidade nos temas, o álbum por vezes sofre no descompasso entre forma e teor. Há boas ideias e composições, porquê “Ternura”, com a cantora baiana Melly, que acabam pecando pela produção excessivamente limpa e plastificada, inclusive na voz da cantora. É uma escolha que faria sentido num álbum de pop lustroso, porquê seus anteriores, mas com as canções mais soltas e instrumentação acústica desse novo lançamento, Anitta acaba soando engessada.

Nos momentos em que se solta, porém, a cantora brilha. A introdução de “Desgraça”, que abre o álbum, é construída com um violão e sua voz em baixa fidelidade –um pouco que poderia ter sido tocado por Kiko Dinucci e cantado por Juçara Marçal no projeto Metá Metá, projeto de MPB também influenciado por religiões de matriz africana.

Em suas 15 faixas, o álbum faz um malabarismo de ideias e referências. Dissemelhante de “Funk Generation”, não há um ponto focal estético: “Deus Existe” é um reggae em parceria com o festejado grupo carioca Ponto de Estabilidade; algumas faixas primeiro, a cantora apresenta uma versão em espanhol do clássico do Olodum “Várias Queixas”, que recentemente ganhou uma versão de sucesso pelo grupo Gilsons.

“Várias Quejas” foi uma das faixas escolhidas pela cantora para se apresentar no festejado programa Saturday Night Live na semana passada, onde também cantou seu dueto com Shakira, “Choka Choka”. As faixas, junto com “So Much Love” e o primeiro single do disco, “Pinterest”, são as únicas em espanhol no novo álbum. Do inglês, só rastros. Pela primeira vez em anos, Anitta se dedica ao português.

No atual momento do pop, pode ser um movimento inteligente. Seguindo os passos de astros porquê Bad Bunny e Ca7riel e Paco Amoroso, artistas que tiveram o hype lá no cumeeira e turnês celebradas no mundo todo apesar de cantarem em seu nativo espanhol, é provável que a cantora aproveite seu bom momento pessoal, porquê figura já reconhecida internacionalmente, e o aquecimento do mercado para sons não-anglófonos para retirar a música brasileira ao núcleo de sua trajetória novamente.

O álbum chega ao final com a sequência de peso “Vai dar Caô”, com Ebony e Papatinho, e “Meia-Noite”, com Los Brasileros, que evocam o funk e a música eletrônica que têm guiado o trabalho da cantora nos últimos anos. No fechamento, outra viradela brusca com a fita “Ouro”, um mantra meditativo.

O orçamento milionário de uma estrela pop, em universal, coloca a espontaneidade de uma obra em cheque. Mas vale manifestar que “Equilibrium” parece um álbum menos focado em dominar o jogo do pop, e mais em fazer uma enunciação artística e pessoal da maior estrela da música popular brasileira da última dez. Com boas ideias, Anitta se atrapalha um pouco na realização, mas ainda faz um trabalho notável.

Folha

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