Ana Maria Machado e João Bosco merecem o nosso respeito – 28/07/2026 – Wilson Gomes
Ana Maria Machado e João Bosco, duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura e à resguardo de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes, não porque tenham pretérito a tutelar o racismo ou a violência contra a mulher, mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.
Ela rejeitou a revisão retrospectiva de “Moça Formosa do Laço de Fita”, livro pioneiro no esforço de soerguer a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório “Gol Anulado”, parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Zero disso, porém, importava muito: a querela dependia menos do sentido das obras do que da urgência social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o vício dos outros.
As patrulhas respondem a uma urgência interna. Se o mundo é interpretado porquê guerra permanente entre identidades opressoras e oprimidas, é preciso produzir sem parar novas provas de que a vexação continua ativa e de que o combate exige vigilância. Uma semana sem denúncia de pecados é uma semana perdida na luta política, que agora é entendida basicamente porquê um conflito moral.
Por isso, o vigilantismo identifica o erro, o denuncismo expõe o pecante e o punitivismo convoca a alcateia, oferecendo a quem participa superioridade moral e a sensação de estar criando um mundo melhor. As arenas digitais converteram esse ritual numa atividade rentável, por meio das quais perfis disputam plateias em um envolvente em que zero atrai mais público que o ultraje moral.
João Bosco e Ana Maria Machado são troféus valiosos. Acusar um ignoto produz pouca repercussão, enquanto mostrar os pés de barro de uma notoriedade permite conquistar secção de sua visibilidade. Nenhuma biografia põe alguém supra da jurisdição do novo tribunal. Quanto maior a presa, maior o prestígio do caçador.
O que os tiranos da virtude suportam ainda menos, porém, é que o réu não dobre a espinha. Esperam dele a rito da capitulação, com confissão de culpa, aprovação da sentença, ato de contrição e promessa de reparação. Corrijam meu livro. Não cantarei mais a música. A retratação importa menos pelo que corrige do que pelo que confirma, pois reconhece a mando da novidade princípio para definir o vício e impor a penitência.
Bosco e Machado fizeram o contrário, pois contestaram a querela e denunciaram o autoritarismo, o fanatismo e a obtusidade interpretativa de seus críticos. A lesma punitiva logo subiu, porque, para a interrogação moral, o delito mais grave não é a suposta infração inicial, mas a recusa do pecante em reconhecer a soberania do tribunal. Uma vez que ousa o réu proferir que são os inquisidores que estão pecando?
Enquanto isso, a esquerda institucional, intelectual, acadêmica e cultural, salvo raras exceções, se cala. Não aparece para rejeitar a tradução maliciosa, repreender a intolerância ou proferir que dois artistas com esse legado merecem saudação. Só desperta quando alguém denuncia a caçada e aí corre para negar a intolerância ou justificá-la, reduzir tudo a um caso só ou acusar os críticos de “deslegitimar a luta dos historicamente subjugados”.
Não veem o óbvio: não é a sátira ao identitarismo que desmoraliza reivindicações legítimas de direitos, saudação e estima social para minorias ou grupos estigmatizados, mas a adoção de vigilantismo, increpação, humilhação pública e cancelamento porquê método. Ao oferecer excludentes morais ao autoritarismo do próprio campo, a esquerda desmoraliza a própria denúncia da intolerância e da paixão censuradora da extrema direita.
Se você é uma personalidade cultural de esquerda e foi cancelada, saiba que a esquerda cult, nos últimos dias reunida em Paraty, não virá em seu socorro. Curiosamente, porquê em política não há lugar vazio, esse papel de resguardo é hoje ocupado por perfis de direita que ganham audiência ao coletar casos, ridicularizar os inquisidores, desmascarar o autoritarismo e metamorfosear a prova de intolerância da esquerda em capital político.
Parece um contrassenso, mas é isso mesmo. Em 1968, diante de vaias no Maracanãzinho, Geraldo Vandré pediu saudação aos vencedores que o público hostilizava, afirmando que Tom Jobim e Chico Buarque mereciam saudação. Falta hoje uma esquerda que, diante de outro equívoco cultural, repita com fé: João Bosco e Ana Maria Machado merecem todo o nosso saudação.
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