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Antonio Fagundes fala da volta à Globo e atrasos no
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Antonio Fagundes fala da volta à Globo e atrasos no teatro – 18/05/2026 – Ilustrada

O relógio ganhou protagonismo na curso de Antonio Fagundes. Com a precisão de quem segue um compasso, ele divide o tempo entre a novidade romance da Mundo, “Quem Nutriz Cuida”, que grava no Rio de Janeiro, e as peças “Dois de Nós”, que apresenta ao lado de Christiane Torloni, e “Sete Minutos”, que dirige, ambas em São Paulo.

“Sete Minutos” é uma comédia sobre um ator que abandona o palco no início de “Macbeth”, clássico de William Shakespeare, depois ouvir um celular tocar. Quando escreveu o roteiro, no início do milênio, os aparelhos eram novidade. Agora, tudo piorou, ele diz. Antes, se um ator só conseguia prender a atenção do público por sete minutos, hoje é difícil mantê-la por sete segundos.

A novidade montagem, que amplia o debate sobre a relação entre plateia e palco, vem na esteira de uma cruzada que Fagundes trava contra quem chega procrastinado ao teatro. Ele proíbe a ingressão depois o início do espetáculo, não devolve o quantia pago no ingresso e vê os processos chegarem.

A discussão ganhou voltagem depois que viralizou nas redes sociais. A maioria dos juízes tem se posicionado em prol do ator, mas a guerra nunca termina, ele diz, pouco depois de receber mais um processo. “Não posso permitir que uma pessoa desrespeitosa atrapalhe o prazer de quem chegou na hora.”

“Quando primícias, tenho 650 pessoas sentadas, e não posso desrespeitar essas pessoas, deixando que dois ou três cheguem atrasados, falando eminente, com a lanterna do celular acesa, fazendo a fileira inteira se levantar para eles se sentarem.”

Fagundes diz que o tempo de todos precisa ser valorizado, inclusive o dele, hoje dividido entre o teatro e a televisão, em um retorno que acontece sete anos depois ver seu contrato de décadas com a Mundo sucumbir e não ser renovado.

A prática se tornou geral nos últimos anos, depois que a emissora passou a perfurar mão da exclusividade que mantinha com seus talentos para lastrar as contas, seguindo um movimento que os estúdios de Hollywood haviam iniciado muito antes.

Fagundes critica o novo padrão de contratação e pagamento por obras, mas afirma estar feliz por voltar. Em “Quem Nutriz Cuida”, ele interpreta Arthur Brandão, um ricaço de família interesseira que decide deixar toda a legado para uma recém-conhecida que perdeu a lar e tudo o que tinha em uma grande enchente.

A romance estreia nesta segunda (18), às 21h, na Mundo. A peça “Dois de Nós” segue em edital até o dia 31 de maio, no Tuca (Rua Monte Prazenteiro, 1.024), com ingressos a partir de R$ 100, e o espetáculo “Sete Minutos”, que já tem ensaios abertos, entra oficialmente em edital no dia 21, no Cultura Artística (Rua Nestor Pestana, 196), com ingressos a partir de R$ 120.

Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, Fagundes apresenta os novos trabalhos, discute as mudanças na televisão, o progresso da lucidez sintético e relembra os tempos de galã, quando se tornou o primeiro ator brasiliano a comparecer de cueca na televisão. “Nunca me considerei um varão bonito”, admite.

BBC News Brasil – Depois de sete anos longínquo, porquê tem sido voltar a fazer novelas?

Antonio Fagundes – Sempre tive um concordância com a TV Mundo, nestes 44 anos em que trabalhei lá, de que só gravaria na folga do teatro, de segunda a quarta-feira. De quinta a domingo, vida que segue: fazia teatro e cinema. Esses sete anos eu fiquei de folga, porque não fazia zero na folga do teatro.

A retomada está sendo um pouco pesada, porque tinha uma série de compromissos e tive que encaixar as gravações. Estou dirigindo uma peça, produzindo outra e atuando em outra, todas em São Paulo. Estou sem tempo para dormir, mas está sendo uma felicidade, porque o elenco é delicioso e Walcyr Carrasco é um rabino. Mas é uma pequena volta, porque vou fazer os 13 primeiros capítulos e o personagem já morre.

BBC News Brasil – Quando saiu da Mundo, o senhor criticou o término dos contratos fixos de trabalho e a adoção do pagamento por obra. Uma vez que vê isso hoje?

Fagundes – Continuo na minha posição. Para ter um esquema violento de trabalho porquê o nosso, de três a quatro novelas por semestre, com 200 capítulos cada, exige expertise dos atores, técnicos, câmeras, editores e de todos os envolvidos. É uma expertise que não se resolve rapidamente —labareda uma pessoa cá, outra ali, e vamos montar uma equipe. Não é assim. É porquê uma orquestra sinfônica: não adianta invocar um violinista, o rosto do oboé e o do piano. Tem que ensaiar muito, e juntos.

Essa expertise foi desfeita quando se desfizeram dos contratos de longo prazo com todo mundo. Você tem agora na TV pessoas que não sabem fazer muito muito. Eles até sabem, mas não têm esse conjunto formado durante décadas. A gente não precisava nem conversar. Entrava e gravava 30 cenas por dia tranquilamente. Hoje, é mais complicado, porque morosidade para chegar a um denominador geral —e quando chega a romance acaba.

BBC News Brasil – Oriente é um debate curioso, no momento em que o Brasil discute a graduação 6 por 1.

Fagundes – Eu cheguei a inventar o quarto período, a madrugada, para quando queria fazer alguma coisa e não sobrava tempo. Cheguei a ter 7 por 7, 24 por 24. O ator nunca obedeceu a escalas, porque não é provável.

Às vezes você vai fazer um longa-metragem e só tem 30 dias de filmagem. Agora, a lei obriga, mas é complicado, principalmente para as produções no Brasil, onde a gente não tem um capital muito grande. Dois dias de folga em um filme atrasam a produção de uma forma que a encarece e acaba quase inviabilizando. Antes, começava a filmar e ia direto, 12 horas por dia. Até hoje é assim, enquanto a legislação diz que tem que ser oito horas. É complicado, no Brasil, a nossa dimensão fazer isso. Mas a gente tem uma vantagem sobre os outros trabalhadores: somos apaixonados pelo que fazemos.

BBC News Brasil – A TV brasileira mudou muito desde o início de sua curso, há mais de 60 anos. O que ficou melhor e o que ficou pior?

Fagundes – A tecnologia mudou assustadoramente, as câmeras são muito melhores, o equipamento de luz é muito melhor, a edição é melhor. Mas foi um progresso que exigiu um tempo maior para produção, e perdemos o que tínhamos de vantagem em relação ao resultado estrangeiro: uma série americana leva cinco meses para gravar cinco episódios, enquanto no Brasil, neste mesmo tempo, a gente levantava uma romance com 200 capítulos. Essa vantagem a gente perdeu e, talvez com isso, também a nossa comunicabilidade. A gente sabia fazer rápido. Agora temos que aprender a fazer vagarosamente.

BBC News Brasil – Uma vez que o senhor vê o progresso da lucidez sintético na TV e no cinema?

Fagundes – A gente tem alguns problemas de direitos autorais, com atores sendo clonados. É bonito resgatar um Val Kilmer, já morto, para um filme, mas temos problemas nisso, principalmente no Brasil, onde nunca tivemos nossos direitos de intérpretes respeitados. Agora, pode permanecer sem limites se não tivermos um freio. Mas sempre fiz teatro, e teatro é o último reduto de humanidade. Eu estou cá. Vai lá, às nove horas, que a gente se encontra. Isso não será substituído. É centena por cento humano.

BBC News Brasil – Por falar em teatro, o senhor acaba de vencer um processo em que foi escopo por não permitir a ingressão do público depois o início das suas peças. Uma vez que o público tem reagido a essa exigência?

Fagundes – As pessoas reclamam desse comportamento. A imensa maioria quer ir ao teatro para ver uma peça. Quando não permito a ingressão depois o início, é em saudação a essa maioria que já está sentada quando começa. Estou sendo processado mais uma vez, por uma juíza, que me processou na comarca dela, em uma cidadezinha de 35 milénio habitantes.

Quando primícias, tenho 650 pessoas sentadas, e não posso desrespeitar essas pessoas, deixando que dois ou três cheguem atrasados, falando eminente, com a lanterna do celular acesa, fazendo a fileira inteira se levantar para eles se sentarem. É por isso que a gente apaga a luz, ilumina o palco, tem silêncio, tem um ar-condicionado confortável. É para o testemunha não pensar em mais zero, a não ser em se envolver com aquela mágica depois que a cortinado se abre.

Não posso permitir que uma pessoa desrespeitosa atrapalhe o prazer de quem chegou na hora. Já ouvi falar até de uma folgança na internet, de que querem propor a “Lei Antonio Fagundes”, para que os espetáculos comecem rigorosamente no horário e não seja permitida a ingressão depois o início.

BBC News Brasil – Sua próxima romance, “Quem Nutriz Cuida”, começa com uma enchente, uma tragédia cada vez mais geral. Uma vez que o senhor vê essa aproximação com a veras?

Fagundes – É uma veras quase mundial, porque, se não é uma enchente, é uma nevasca, uma tragédia qualquer. O mundo está passando por essas convulsões. Foi um acerto do Walcyr retratar um pouco dessa veras. Não é um documentário, uma tese, mas dentro de uma ficção há personagens com os quais a gente pode se aproximar porque essa é nossa veras. É uma propriedade da telenovela brasileira: ter essa responsabilidade social de, mesmo que superficialmente, passar por cima de problemas que atingem grande segmento da população.

BBC News Brasil – Seu personagem participa dos primeiros 13 capítulos e morre. Existe alguma chance de ele retornar?

Fagundes – Seria complicado, porque minha agenda está tomada até o término do ano. Acho que não vai sobrevir. Mas é um personagem possante, que cresceu sozinho em uma família remediada e virou um bilionário, proprietário de uma joalheria famosa. A família vive às custas dele. Mas acontece um acidente, ele se vê absolutamente sozinho e percebe que a relação que mantém com a família é desumana, interesseira. Aí ele conhece uma pessoa que perdeu tudo na enchente e, para se vingar da família, deixa toda a legado para essas pessoas. Mas logo é assassinado. Começa, portanto, a romance.

BBC News Brasil – Sim, inclusive em relação ao seu personagem em “Vale Tudo”, Ivan, no ano pretérito. Houve muitas comparações entre a sua versão e a do remake, e o debate tocava muito na masculinidade dos personagens.

Fagundes – Isso é uma coisa que foge da nossa mão. Sempre disseram que eu era galã, mas nunca me considerei um varão bonito. É muita misericórdia da segmento deles, mas foge da nossa mão. Quem determina quem é bonito ou não, quem é galã, quem deve ser seguido, é o público. Está nas mãos deles. Carisma é uma vocábulo que vem do helênico, charis, perdão divina, você nasce com aquele carisma ou não. Não adianta querer ser. Pode pentear o cabelo na voga, fazer a sobrolho e o nariz na voga, e não resultar em um galã.

BBC News Brasil – O senhor é divulgado por reunir atores em lar para debates e reivindicações da classe. Ainda faz isso? A classe artística está mais ou menos unida hoje?

Fagundes – Sempre foi muito difícil a gente conversar, porque nossa profissão é sofrida. A gente nunca teve firmeza. A requisito do ator é sempre o desemprego. Tivemos o período áureo da Mundo em que tivemos uma certa firmeza, mas foi um número reduzido de pessoas. A grande volume de quem trabalha com teatro, cinema e televisão no Brasil sempre ficou desempregada.

É muito complicado, em um sistema em que você nem tem trabalho, discutir direitos e reunir as pessoas em torno de uma teoria. É muito complicado fortificar um sindicato, porque isso existe onde há concorrência e disputa pelo mesmo talento. Quando não tem essa luta, o sindicato não tem sentido, os direitos vão ser discutidos depois. Primeiro vamos conseguir um trabalho, um salário digno.

É complicado reunir esse pessoal, mas continuo tentando. Existe uma vontade. Fiz isso durante cinco anos, e as pessoas iam, mas a gente sempre esbarra na veras, que é mais complicada do que gostaríamos.

Folha

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