Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

'Aquele que Viu o Abismo' tem força ao capturar espectador
Celebridades Cultura

‘Aquele que Viu o Abismo’ tem força ao capturar espectador – 23/07/2026 – Ilustrada

“Aquele Que Viu o Profundeza” começa com X, o protagonista, em desespero agônico, apontando uma arma à boca. O fim é deslocado para a perna. E o tiro lança à tela um vermelho sangue que é declaradamente tinta vermelha. O efeito plástico é, sem incerteza, o de um filme experimental.

Além de dividir a direção com Gregorio Gananian, Preto Leo atua uma vez que X. Na Mostra de Cinema de Tiradentes em 2024, o músico disse que se tratava de “um filme para ver e ouvir”. Definição precisa sobre o que é uma obra de cinema, seja a da contação de histórias, seja a de uma experiência sensorial que pede um modo mais livre e pleno de interação com o que está na tela. A narrativa, em ambos os casos, surge pela interação do testemunha.

E “Aquele Que Viu o Profundeza” tem, sim, muita história em jogo. O drama de X é trespassar do aprisionamento gerado pelos meios de vexação e dominação da tecnologia —esta, gestora de uma filosofia de meios de produção vampírica, que suga corpo e psique.

O filme dialoga com a literatura cyberpunk de William Gibson entoada pela música eletroacústica e pelo jazz avant-garde. E isso num longa que se inclina muito mais à literatura de Kobo Abe, responsável de “Mulher nas Dunas”, e pouco à de Aldous Huxley e seu “Excelente Mundo Novo”.

A animação “Akira”, de Katsuhiro Otomo, também responsável do mangá que deu origem ao filme, é, pelo tom, outra referência importante. Os jovens do filme de Otomo são rebeldes impulsivos ao passo que o protagonista de “Aquele Que Viu o Profundeza” tem plena consciência sobre agir contra o inimigo uma vez que único gesto.

Outra referência é a extraordinária adaptação cinematográfica que Abel Ferrara fez do texto de William Gibson em “New Rose Hotel”, de 1998. Neste filme, o verba e a tecnologia se fundem em alguma coisa mortal. O personagem de Willem Dafoe termina assombrado, num quarto de hotel, uma agonia tal qual à de X.

A grande latência de “Aquele Que Viu o Profundeza” está justamente em revelar um estado de mundo que condiz com a verdade do agora. No filme, o tempo teria despovoado o compasso e ganhado livre trânsito.

As imagens, assim, parecem entremear alguma coisa reconhecível —o agora— e também o que parece ser de outro mundo —o horizonte da ficção científica. Daí não só X, mas o filme todo fibrilar entre um presente incerto e o que está por vir.

O tumulto temporal se traduz, também, em imagens de cinema, que alternam entre instâncias distintas —de uma China atual que parece um horizonte sci-fi a uma prenúncio muito mais familiar e presente, o das big techs orquestrando uma malha de modos de dominação por meio do melancolia e da exploração psicofísica.

A grande riqueza do filme está em uma vez que os elementos típicos do cinema geram uma relação entre obra e recepção. Assim, imagens, música, sons, ruídos do mundo, falas, efeitos visuais estilizados e montagem criam uma relação da plateia com o espetáculo. Em suma, uma mergulho hipnótica tal qual a do grande cinema popular.

Esse inimigo visível —no caso, as imagens em relâmpago laser que surgem ao longo do filme hostilizando X e os seus— é uma presença física que sugere uma guerra infinita. Uma releitura, mais conceitual e ampla, da série “O Exterminador do Porvir” —para abrirmos um flanco ao cinema de entretenimento, alguma coisa que, aliás o filme de Gananian e Leo também faz com seus espectadores.

O momento agora de “Aquele Que Viu o Profundeza” aparece, tão sugerido quanto literal, pelo que está em cena. Assim, há pessoas andando pelas ruas da China, uma moço, a filha de Leo e Ava Rocha, e esta última, por sua vez, cantando ao testemunha uma vez que um gesto de resistência e por dias melhores, enquanto Preto Leo extrai belíssimos sons de um piano.

No mais, Gananian, Leo e equipe foram à China, e fica patente o quanto as filmagens capturaram uma materialidade que ascende no filme convertida em oração ficcional sobre o mundo real.

E a montagem, em suma, delega ao testemunha um entendimento de obra —a montagem, aliás, que é alguma coisa bastante latente no tal cinema dito experimental. O que haveria, logo, de evidente nessa luta entre mostrar e esconder, esclarecer e penumbrar, produzir e destruir, viver e morrer? Talvez o eversão, diria X.

É importante referir que “Aquele Que Viu o Profundeza” começa uma turnê de pré-estreias a partir desta quinta-feira (23) em São Paulo, Recife, João Pessoa, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza e Salvador —nesta ordem, até a estreia no próximo dia 30. As sete exibições terão, depois a projeção, um “show performance” com os diretores Gregorio Gananian e Preto Leo.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *