Série franco-espanhola ‘Os Anos Novos’ deve ser vista – 27/05/2026 – Marcelo Rubens Paiva
Filmes clássicos, independentes e de arte hibernam nos streamings. Dá saudades dos corredores de videolocadoras segmentadas, porquê a 2001, trombando cinéfilos, amigos do bairro, numa sexta-feira, planejando o término de semana, trocando dicas, em que tinha de tudo.
Muitos filmes das listas de melhores do século não estão disponíveis em lugar nenhum, ratificando o transgressão de pirataria via Torrent porquê legítima resguardo cinéfila. Dois clássicos argentinos ganhadores de Oscar, “O Sigilo dos Seus Olhos” (2010) e “A História Solene” (1986), não estão nas plataformas.
“Amarcord” lembra a minha família. O socialista Aurelio Biondi tinha os trejeitos do meu avô. Só agora meus filhos verão a grande obra de Fellini, também ganhadora do Oscar (1975).
Ela está no conduto Arte1, que abriu segmento do catálogo no Prime, fazendo companhia ao Imovision, ampliando a quantidade de teor literal com teor tropológico, porquê Belas Artes à La Carte e Mubi.
Dos 26 ganhadores do Oscar de Melhor Filme Internacional do século 21, somente dez estão disponíveis.
Mubi funcionava porquê um cineclube de cinéfilos cabeça. No início, era uma seleção sem algoritmo: um filme por noite sugerido por alguém, independente da freguesia. Ficavam 30 filmes na plataforma. Saía um, entrava um novo.
Mas cresceu. Coproduções premiadas entraram na programação, porquê “A Substância”, e os recentes “Valor Sentimental” e “A Pequena da Agulha”. Agora tem retrospectiva David Lynch, Brian de Palma e Paolo Sorrentino até o sensacional cult de terror, “O Massacre da Serra Elétrica”.
Nela, escondido, estava o espetacular “Dente Cínico”, do helênico Yorgos Lanthimos, o diretor predilecto de Emma Stone, do premiadíssimo “Pobres Criaturas” e “Bugônia”. E a plataforma ousou ao relançar “Twin Peaks” (sem cortes), série que mudou a televisão para sempre.
Está lá também a indispensável série “Mussolini – O Rebento do Século”, justamente agora, quando regimes europeus revisitam ideais que pareciam sepultados, porquê o nazifascismo, da Itália à Alemanha, incluindo Portugal, Turquia, França, Polônia e, até o mês pretérito, Hungria.
Muito venturoso seja Daigo Oliva, cá da Folha, que escreveu: “A série ‘Os Anos Novos’, joia escondida na Mubi, deveria ser mais vista”.
Acatamos. Está “todo mundo” falando dela. Todo mundo, vírgula. Gente da minha minilaia, que compreende desde a ZOC (Zona Oeste Construtivista) até o núcleo de São Paulo, passando pelo Cine Belas Artes, Instituto Moreira Salles, Sescs, Copan e Livraria Megafauna.
E se delicia com restaurantes que usam ingredientes da nossa flora (Mocotó, Camélia, Clandestina), pães artesanais feitos por padarias que têm pão no nome (Tu És Pão, Lá do Pão, Aroeira Pães, Le Pain Quotidien), chuva em lata, vinho orgânico e discos de vinil.
“Os Anos Novos” deve de veste ser vista. A série franco-espanhola coproduzida pela franco-alemã Arte se passa em dez anos, entre 2015 e 2024. Cada incidente rola na viradela do ano. São atravessados (e afetados) pela pandemia de Covid.
O par de 30 anos Ana (Iria del Rio), volúvel, versátil, que detesta a rotina, e Óscar (Francesco Carril), obstinado pelo trabalho, inseguro, cujos pais, quando se separaram, contaram dois anos depois, vive uma relação de idas e vindas, em que o que tem que ser dito é subentendido, para desespero de quem assiste.
Cada incidente é uma surpresa, pois não sabemos porquê passaram o ano. Podem desabrochar juntos, enamorados, ou separados, ou porquê amantes, ou esperando um fruto. Quase sempre em Madri, ou na França, ou num réveillon doido, entorpecidos numa rave doida, em Berlim.
A química entre eles é inegável. Mas o temor daquele paixão imenso os torna indecisos. Os diálogos são espetaculares, imensos. Discussões são captadas por planos-sequência intermináveis —o último incidente, de 50 minutos, foi gravado sem cortes, porquê uma peça de teatro.
Pais debatem a fórmula de cada um para o himeneu eterno: alguém tem que ceder. O jovem par Ana e Óscar vai pela trilha paralela: cada um tem que ter a sua vida sem fronteiras, ser livre.
A série de Rodrigo Sorogoyen reacende a tese que aponta que o paixão não acaba. Ele resumiu para a revista Fotogramas: “É sobre a tristeza das decepções, a dor da separação, o tempo que passamos, relembrando do outro, e a esperança de uma segunda chance”.
A vida segue, e alguém, que é sempre o mesmo, deixa de ser quem era e se pergunta se, com o passar dos anos, está pronto para amar e se amar melhor, ou melhor, voltar a amar quem já amou. A ver…



