Longe de carregar porquê fardo o estrondoso sucesso da montagem de 2007 — com Marieta Severo e Andréa Beltrão, sob a batuta de Aderbal Freire-Fruto —, a versão de 2026 de “As Centenárias”, no Sesc Bom Retiro, faz daquela saudação o trampolim para sua própria reinvenção.
Ao transmutar a premiada secura da farsa original em um músico de pavimento suplantado, a direção de Luiz Carlos Vasconcelos não unicamente atualiza o texto de Newton Mulato, ela reescreve sua própria arquitetura sonora, provando que o clássico, quando muito escavado, pode revelar veios de ouro esquecidos pela montagem anterior.
Longe de ser um caça-níqueis mercantil ou mero verniz estético, a transição para o músico, idealizada pelas protagonistas Laila Garin e Juliana Linhares, ao lado da produtora Andrea Alves, funciona porquê uma amplificação procedente da voz de Mulato. A música cá não interrompe o drama; ela é o próprio drama.
Ao integrar dezesseis canções inéditas de Chico César, inspiradas em incelências e cantos tradicionais do Nordeste, o lamento das carpideiras vira pulsação místico. Se em 2007 a peça era uma elegia do mundo em vias de vanescer, agora ela celebra o patrimônio intocável.
A trama se passa no sertão do Cariri, onde Socorro (Laila) e Zaninha (Juliana), duas carpideiras centenárias, ganham a vida chorando mortos alheios. A riqueza da dramaturgia é subverter o luto com ironia e humanismo: para elas, carpir é um ato maternal, um território feminino onde o morto é limpo, vestido e ninado para o além. Mas a ternura coexiste com a farsa: a Morte não é um pavor metafísico, mas uma colega de trabalho a ser ludibriada para prometer o sustento.
O vitória da montagem repousa na eletricidade das duas protagonistas. Garin equilibra dor solene e ridículo farsesco com impressionante segurança; Linhares entrega uma Zaninha malandra e vibrante, dominando nuances vocais. E há Leandro Castilho, que em múltiplos papéis, funciona porquê a traço de transmissão que une os mundos habitados pelas duas protagonistas.
A direção de Luiz Carlos Vasconcelos costura comédia e tragédia sem perder o ritmo. A cenografia modular de Aurora dos Campos transforma madeira em capelas e caixões; os figurinos de Kika Lopes e Heloisa Stockler adotam preto rico em texturas, enquanto a Morte surge em vermelho vibrante. A iluminação sombria de Elisa Tandeta esculpe os mistérios do texto.
O grande coração, porém, pulsa nos arranjos de Elísio Freitas sobre as canções de Chico César. Não há números destacados do texto: a vocábulo germina em melodia, e a direção de movimento de Vanessa Garcia garante a passagem orgânica da correria farsesca ao esquina ao vivo. O teatro pátrio vive quando tem coragem de cavar suas raízes para desenredar novos ritmos e novas formas de rir da própria finitude.
Três perguntas para…
… Newton Mulato
O carpir é um ofício feminino e maternal, mas também um espaço de sobrevivência e astúcia. Uma vez que você encontrou o tom exato para que a morte fosse tratada sem pavor metafísico e, ao mesmo tempo, sem descaramento?
Encontrei esse tom na própria núcleo do ofício das carpideiras, que cantam para conduzir almas e orquestrar despedidas. O carpir cá se manifesta porquê esse espaço maternal, mas profundamente fincado na sobrevivência. A relação dessas personagens com a Morte é ambígua: ao mesmo tempo em que a reverenciam, elas a trapaceiam. É um jogo teatral de enganar a Morte.
Para lastrar o pavor e o descaramento, usei porquê base as clássicas duplas da comédia popular: o clown branco e o Augusto, o Gordo e o Magro, o rabi e o noviço; e suas matizes pícaras. Essa dinâmica de palhaçaria e malícia desarma a solenidade da morte sem tirar dela o seu peso ritualístico. Em tempos tão duros de feminicídio, ver duas mulheres se unindo para vencer a morte transforma esse carpir em uma ode à força e à resiliência do povo nordestino, que historicamente precisa subverter realidades brutais para simplesmente não morrer.
Há na sua escrita uma aproximação visível com heróis populares porquê João Grilo e Chicó, mas em sua vertente feminina e centenária. O que a idade extrema dessas personagens acrescenta à tradição da comédia popular nordestina?
O protagonismo cá é deliberadamente feminino, pois na minha obra sempre busco promover a centralidade das mulheres — sejam cangaceiras, carpideiras, ou figuras porquê a Maria do Caritó. Trazer herdeiras da linhagem de João Grilo e Chicó, mas na pele de duas mulheres centenárias, vinco a aposta da comédia popular. A idade extrema dessas personagens acrescenta uma estrato profunda de sabedoria, tempo reunido e, supra de tudo, uma astúcia calejada.
Elas já viram de tudo. A inspiração primeira para isso vem, inclusive, da amizade real de Andréa e Marieta: uma conexão feminina poderosa que constrói um teatro capaz de ressuscitar “mortos” a cada sessão, brincando de enganar a Morte (o que ganha um tom ainda mais vivo por estarmos ao lado de um cemitério). Essa vetustez centenária não traz peso, mas sim a leveza pícara de quem tem a propriedade de olhar nos olhos da finitude e, em vez de tremer, armar uma emboscada para ela.
O que significa, para você, ver uma obra escrita há quase duas décadas ser reconstruída sob outra chave de linguagem, porquê o teatro músico, sem perder sua espinha dorsal dramatúrgica?
É um processo profundamente orgânico. O texto original já trazia a musicalidade em seu DNA, solicitando incelências e cocos, mas nesta novidade chave pareceu procedente vê-las cantando ainda mais; a música virou, de roupa, o quarto personagem da peça. Nós mantivemos a estrutura dramatúrgica rígida, musicando alguns textos originais e criando novas letras, mas nos permitimos mudar o final: se o texto anterior usava bonecos para fechar a história, cá, sem os bonecos, a artimanha final é outra, puramente teatral. Eu palato muito da linguagem do músico — oriente ano inclusive estreio mais dois, “Piaf, Eu Não Me Arrependo” e “Gil – Caminhar Com Fé” — porque me fascina a teoria de relatar cantando.
Sesc Bom Retiro – parque Nothman, 185 – Campos Elíseos, região meão. Quinta, 20h. Sexta, 15h e 20h. Sábado, 15h e domingo, 18h. Até 14/6. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 18 (credencial plena) em sescsp.org.br. Os ingressos estão esgotados, mas sempre tem a fileira da esperança.





