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As derrotas mais traumáticas do Brasil em Copas do Mundo
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As derrotas mais traumáticas do Brasil em Copas do Mundo – 05/07/2026 – Esporte

A eliminação da seleção brasileira na Despensa do Mundo de 2026 pelo placar de 2 a 1 diante da Noruega é mais um capítulo que deve entrar para a história das derrotas mais dolorosas do escrete vernáculo.

Neste ano, a rota tem ainda o sabor do jejum: a seleção canarinho chegará à próxima Despensa, em 2030, com um hiato de 28 anos sem erguer a taça —o que nunca ocorreu desde que o time brasílico foi vencedor pela primeira vez, em 1958.

Não tem uma vez que fugir dos números. Se o Brasil é o único país a participar de todas as 23 edições da Despensa, além de ser o maior vencedor —ergueu a taça cinco vezes—, é originário que tenha sofrido 18 dolorosas eliminações. Destas derrotas, com a ajuda de especialistas, a BBC News Brasil elencou as mais traumáticas.

A sarau era grande, o Brasil sediava uma Despensa do Mundo 64 anos depois da única vez que isso havia ocorrido, em 1950. O time comandado pelo técnico de Luiz Felipe Scolari, se não era unanimidade, tinha ingredientes o suficiente para empolgar —inclusive pela memória afetiva, já que o treinador era o mesmo que havia conquistado o penta em 2002.

Depois de uma primeira temporada em que o Brasil ganhou da Croácia —3 a 1, de viradela—, empatou com o México sem gols e goleou Camarões por 4 a 1, o time venceu o Chile nos pênaltis —depois de empatar em 1 a 1 durante a partida— e a Colômbia por 2 a 1.

Na semifinal, encararia a Alemanha no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Foi uma tragédia memorável: 7 a 1 para o time europeu, que se sagraria vencedor dias depois, vencendo a Argentina na final.

O Brasil já perdia por um a zero e tomou outros quatro gols entre os minutos 23 e 29 do primeiro tempo —provavelmente no mais catastrófico “apagão” da história do escrete canarinho. O Brasil ainda perderia para a Holanda na disputa do terceiro lugar —outra goleada, mas mais modesta: “exclusivamente” 3 a 0.

“Foi um balde de chuva fria, aquele sinistro tático”, diz o historiador Marcel Tonini, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador no Meio de Referência do Futebol Brasílio, do Museu do Futebol (CRFB). “E eles tiraram o pé, senão seria ainda maior a goleada.”

Para o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, comentarista da ESPN, consultor do Museu do Futebol, membro da Liceu Brasileira de Letras do Futebol e professor na Faculdade Cásper Líbero o marcante da rota para a Alemanha não foi a rota em si —mas sim a diferença de gols, “a maneira uma vez que o resultado aconteceu”. “Perder para a Alemanha seria um resultado absolutamente normal. O placar é que não foi”, afirma.

“Foi a pior rota não exclusivamente pelo placar, mas por tudo o que envolvia aquele jogo”, diz o profissional em marketing esportivo Marcelo Paganini de Toledo, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

“Estávamos jogando uma Despensa em vivenda, havia uma expectativa enorme da torcida e poucos imaginavam um resultado daquela dimensão. Foi uma rota que ultrapassou o paisagem esportivo e se transformou em um choque para o país.”

Também professor de marketing esportivo na ESPM, o gestor de empresas Ivan Martinho explica o misticismo negativo em torno do 7 a 1. “A seleção brasileira é um dos raros elementos capazes de unir um país tão diverso. Durante a Despensa, existe no imaginário coletivo uma expectativa quase inevitável de vitória”, afirma.

“O 7 a 1 foi tão marcante porque representou exatamente o oposto disso: em vivenda, diante do próprio povo, um símbolo vernáculo de primazia sofreu uma rota sem precedentes”, acrescenta. “Mais do que um resultado, foi um choque cultural para o Brasil.”

Uma vez que “o tempo passou, as pessoas também”, Unzelte diz crer que o 7 a 1 para a Alemanha em 2014 veio para extinguir o epíteto de “maior rota” que era oferecido para o Maracanaço.

“Esportivamente foi pior do que o Maracanaço. Mas pelo contexto social e político, eu diria que o Maracanaço foi pior”, comenta Tonini.

O Maracanaço

Era um regulamento dissemelhante o daquela Despensa de 1950. Em vez de um jogo final, o vencedor seria sentenciado depois de partidas em um quadrangular com os finalistas. Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai chegaram a essa temporada.

Antes do último jogo, o Brasil tinha um ponto a mais que o Uruguai. A partida lotou o recém-inaugurado Maracanã, estádio que logo era o maior do mundo —e que foi construído justamente para a Despensa do Mundo. Havia um clima de “já ganhou” entre torcedores e prelo esportiva brasileira.

A partida foi dura. Mas o placar foi destapado pelo Brasil, com o ponta-direita Friaça, logo no comecinho do segundo tempo. O Uruguai, combatente, não desitiu. Empatou em gol anotado por Schiaffino e, faltando pouco mais de 10 minutos para o sibilo final, sacramentou a vitória com Ghiggia. Silêncio inteiro nas arquibancadas. O time sidéreo se sagraria bicampeão mundial. O Brasil ainda ficaria no jejum.

Pelo contexto social, político e econômico da era, o historiador Tonini acredita que a mais traumática rota do Brasil em Copas tenha sido esta.

“Era evidente que a Europa não iria sediar a Despensa [ainda por conta dos estragos da Segunda Guerra] e o Brasil se colocava um passo primeiro e consegue sediar o evento”, afirma ele. “Queria se mostrar para o mundo uma vez que o país do porvir e o símbolo disso foi a construção do maior estádio do mundo, o Maracanã.”

“E tinha uma grande seleção”, acrescenta.

Ele destaca ainda um paisagem simbólico. O Brasil começou aquele campeonato com um oração de enaltecimento do que se entendia uma vez que “país da democracia racial” —naquele contexto pós-Imolação vivido pela Segunda Guerra. “Eles chamavam de paraíso racial”, explica.

Com a rota, a prelo passou a culpar três jogadores de forma peculiar: Bigode (1922-2003), Juvenal (1923-2009) e Barbosa (1921-2000). Uma vez que observa o historiador, os três eram negros. “No final, o que era para enaltecer a democracia racial vira alguma coisa uma vez que ‘não se dá para incumbir em negros'”, relata o historiador.

“O goleiro Barbosa foi o cabrão expiatório. Ele, um varão preto, pobre e estigmatizado, num país cuja legado da escravidão estruturava as desigualdades raciais e sociais”, diz o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“Na minha ótica, a rota de 1950 foi a pior rota do Brasil”, crava Tonini. “Acredito que esta foi a maior rota, a que cravou na psique dos brasileiros”, concorda Baptistini. “É dessas derrotas fundadoras.”

O dia da convulsão

Era o atual vencedor do mundo contra a seleção que jogava em vivenda. Embora aquele time comandado por Mário Jorge Lobo Zagallo (1931-2024) não fosse considerado um primor, era visto por muitos uma vez que o elenco a ser vencido.

Pouco antes do início da partida, especulou-se que Ronaldo, o principal planeta daquele time, não entraria em campo porque havia sofrido um incidente de convulsão —em seu lugar chegou a ser anunciado que jogaria Edmundo. Na hora agá, Ronaldo entrou uma vez que titular. Mas ao que parecia aquele time estava exitante psicologicamente.

Foi um show de globo sob a liderança do jogador gaulês Zinédine Zidane em 12 de julho de 1998. O placar final, 3 a 0, entrou para a história: marcaria o primeiro título mundial do selecionado gaulês.

“Foi uma taboca. Chegamos à final depois de grandes jogos. E aí aconteceu aquele incidente com o Ronaldo que até hoje a gente não entendeu”, afirma Tonini. “No termo, sobrou a imagem de que poderíamos ter vencido.”

“A rota ficou marcada pela até hoje inexplicada convulsão do Ronaldo Fenômeno na véspera da final contra a França. Mas a França foi mesmo melhor, o placar final de 3 a 0 não deixa margem nenhuma de incerteza em relação a isso”, diz Unzelte.

“A convulsão, as mudanças na escalação e todas as dúvidas que surgiram acabaram dominando o noticiário e a nossa cabeça. A sensação era de que alguma coisa dissemelhante havia sucedido antes mesmo da globo rolar, e isso fez daquela rota certamente uma das mais enigmáticas da história da seleção”, afirma Toledo.

A Tragédia do Sarriá

Ali o pragmatismo teria sepultado o futebol-arte, avaliam especialistas e apaixonados pelo esporte. Em 1982, a seleção brasileira tinha aquela que até hoje é considerada uma vez que uma das melhores formações da história. Acabou eliminada pela Itália, do carrasco Paolo Rossi (1956-2020), bombeiro que anotou os três gols da squadra azzurra.

“Para mim, pessoalmente, a pior rota do Brasil em Copas foi em 1982. Eu tinha 14 anos e queria ter sido tetra ali, não em 1994, já com 26 anos de idade, trabalhando com isso e pleno de responsabilidades”, recorda Unzelte. “Ou por outra, foi um revés inesperado, talvez tão inesperado quanto a rota de 1950, para o Uruguai.”

Do lado amarelinho, o time fazia rutilar os olhos. Tinha Zico, tinha Sócrates (1954-2011), tinha Falcão, tinha Júnior. No banco, o técnico era Telê Santana (1931-2006). Caiu na segunda temporada. Uma vez que dizem os comentaristas de futebol, os deuses do esporte foram injustos porque nascente time merecia levantar uma taça de Despensa do Mundo. Acabaram caindo na segunda-fase —a Itália ergueria naquele ano seu tricampeonato.

“Era um time que encantava o mundo pela forma de jogar futebol, com talento, originalidade e um estilo que muitos consideram um dos melhores da história, mesmo sem ocupar o título. Por isso, até hoje, acho que muita gente não entende uma vez que aquele Brasil foi eliminado”, afirma Toledo. “Aquela rota para a Itália deixou a sensação de que o melhor futebol da Despensa não foi vencedor. Talvez por isso ela continue sendo lembrada com tanta emoção por quem viveu aquele Mundial.”

“Ficou na memória um grande time que praticava o chamado futebol-arte”, diz Tonini. “O conjunto originalmente era muito bom, e coletivamente era tão bom uma vez que o de 1970. Tivemos a infelicidade de perder o jogo contra a Itália. Foi uma grande taboca, o Brasil tinha um timaço.”

“Era um grande time que praticava o chamado futebol-arte”, diz o historiador.

O sonho do tri foi posposto

Houve exclusivamente duas edições de Despensa do Mundo em que o Brasil não passaria da primeira temporada. Na primeira realização do torneio, em 1930; e em 1966. Esta última não classificação foi a mais traumática. Por uma série de motivos.

Em primeiro lugar porque o time brasílico tinha no seu elenco nomes da primeira grandeza. Entre eles, Pelé (1940-2022), Garrincha (1933-1983), Tostão e Jairzinho —sob o comando de Vicente Feola (1909-1975), o mesmo que havia sido o treinador no primeiro título do Brasil, em 1958.

Ou por outra, não há uma vez que ignorar o nepotismo do escrete canarinho, que vinha no embalo de duas conquistas, tendo vencido as duas edições anteriores. “Vinha de duas conquistas magistrais e chegava à Despensa com a mesma base das edições anteriores”, destaca Tonini.

Mas depois de estrear com uma vitória por 2 a 0 contra a Bulgária, o Brasil enfileiraria duas derrotas por 3 a 1, primeiro contra a Hungria, depois contra Portugal. Terminaria a primeira temporada em terceiro no grupo —sendo desclassificado.

“Arrumamos a desculpa perfeita na desorganização, que nos levou a montar quatro times com 44 convocados e, na hora agá, não termos nenhum pra botar em campo”, diz Unzelte.

A Guerra de Berna

O Brasil chegava à Despensa de 1954, realizada na Suíça, com o objetivo de exorcizar o maracanaço ocorrido na edição anterior.

Para tanto, até a roupa mudou. A Confederação Brasileira de Desportos —antecessora da CBF— decidiu reformar o uniforme macróbio, calção azul e camisa branca, depois da rota histórica. O Brasil passou a usar a camisa amarela porque foi esta a escolhida em um concurso, vencido pelo repórter, desenhista e jornalista gaúcho Aldyr Garcia Schlee (1934-2018).

Em campo, havia otimismo. Além de ser a atual vice-campeã mundial, a seleção, já sob o comando do técnico Zezé Moreira (1907-1998) havia vencido o Pan-Americano de 1952 —o primeiro título da seleção brasileira.

“[Mas] ainda sofríamos com o que [o escritor, jornalista e cronista] Nelson Rodrigues chamou de ‘multíplice de vira-lata’. Nem campeões do mundo éramos ainda, e portanto tínhamos menos a perder”, diz Unzelte.

Depois de uma estreia empolgante, 5 a 0 contra o México, o Brasil empatou com a Iugoslávia em 1 a 1. Classificou-se assim para as quartas de final. Foi quando teve primeiro o time húngaro —que era a sensação do momento.

A Hungria jogava um futebol que encantava. Na primeira temporada, havia vencido a Coreia do Sul por 9 a 0 e a Alemanha Ocidental por 8 a 3. Para a sorte dos canarinhos, o planeta daquele time, o centroavante Ferenc Puskás (1927-2006) havia se lesionado e não enfrentaria o Brasil.

Mesmo assim não deu. Em uma partida conhecida uma vez que a Guerra de Berna —ocorreu nesta cidade suíça —, a seleção brasileira perdeu por 4 a 2 e foi eliminada. O jogo teve três expulsões, dois pênaltis assinalados e uma recontro generalizada entre os atletas depois do sibilo final.

“O Brasil chegou à Despensa com o peso da rota em 1950”, afirma Tonini. “Perdeu na globo e na recontro que teve ao termo do jogo.”

Nascente texto foi originalmente publicado cá.

Folha

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