Em “Travessia”, Gabriela Mellão utiliza a estrutura de “A Jangada da Medusa” uma vez que dispositivo para expor um sistema que ainda opera pela lógica do descarte. Obra-prima de Théodore Géricault (1791-1824) e ícone do Romantismo gaulês, a pintura — hoje no ror do Louvre — retrata o naufrágio de 1816, fruto de negligência política, em que somente 15 de 147 pessoas sobreviveram a 13 dias de horror. O espetáculo tensiona essa legado colonial com a paralisia moral do presente, substituindo o lirismo pela materialidade bruta do esforço.
A cena da tempestade causadora do naufrágio, nesse sentido, é o momento em que a encenação abraça o realismo físico: não existe simulação, pois o naufrágio é um evento que ocorre na musculatura do elenco. Sob a orientação de Reinaldo Soares, os corpos entram em um estado de tensão real, onde a luta para permanecer de pé contra uma força invisível exige uma brutalidade técnica que orla a exaustão.
Essa anatomia da exclusão ganha contornos clínicos através da luz de Aline Santini, que despoja a imagem de qualquer romantismo. Quando o elenco — constituído por artistas que carregam em suas trajetórias as marcas de fronteiras reais e deslocamentos geopolíticos — se amontoa para imaginar a pirâmide humana de náufragos, a imagem deixa de ser uma referência artística para se tornar evidência política.
Corpos indígenas, congoleses, venezuelanos e brasileiros estão ali para reivindicar a soberania sobre o próprio relato. O uso de fragmentos da tragédia grega, uma vez que a disputa pelos papéis de Clitemnestra e Egisto, retira o cânone do pedestal acadêmico e o joga no campo de guerra. Ao exigir o recta de interpretar o poder e a vingança, esses atores expõem a hipocrisia de um sistema que aceita o “outro” uma vez que estatística ou vítima, mas o rejeita uma vez que sujeito de sua própria história.
A cenografia de Camila Schmidt elimina o supérfluo para concentrar a ação em um território de suspensão e encarceramento. A jangada é o próprio espaço cênico, um laboratório onde a sobrevivência é uma negociação estável e violenta. A direção de Mellão concentra-se na precisão do gesto e na crueza da fala. “Travessia” abraça a premissa de que o naufrágio é um projeto político contínuo. A jangada de 1816 e as fronteiras militarizadas de 2026 são alimentadas pela mesma mecânica de indiferença. O espetáculo se propõe a desarticular nossa passividade do olhar.
Três perguntas para…
… Gabriela Mellão
Por que utilizar o quadro de Géricault (1818) uma vez que dispositivo para falar dos naufrágios civilizatórios de 2026? Porquê foi o processo de colocar essa imagem histórica em “fricção” com as crises humanitárias contemporâneas?
Essa pergunta não pode ser respondida sem falar do processo. Para mim, o quadro “A Jangada da Medusa” só ganhou sentido no encontro com os atores. O espetáculo nasceu de um processo colaborativo longo, de quase dois anos. A pesquisa não foi teórica. Ela aconteceu no corpo, na convívio, nas histórias compartilhadas.
Cada um, a seu modo, tinha vivido uma travessia, deslocamentos, rupturas, tentativas de sobrevivência. Portanto o quadro começou a desabrochar uma vez que um espelho, um espelho que não estava fechado no pretérito, que misturava com essas experiências todas.
No fundo, o que aquele quadro denuncia é uma estrutura que organizava o mundo no contexto colonial do século 19 e que segue absolutamente ativa. A gente só mudou os cenários. Usar essa imagem foi uma forma de expor: isso não acabou. A gente ainda está nessa jangada, só que agora ela é global, difusa, às vezes invisível.
Você mencionou que o espetáculo navega rumo ao recta de cada um subsistir sem concessões. Porquê o teatro pode ser um laboratório para testar novos pactos de convívio que a sociedade social lacuna em realizar?
Esse processo começou, na verdade, de um outro lugar. A pesquisa nasceu do meu libido de investigar o teatro de Peter Brook, mormente essa teoria de um teatro que se constrói a partir do encontro real entre culturas, sem hierarquizar saberes.
Só que, quando os atores chegaram na sala de experimento, fui tomada pelas histórias muito potentes de cada um. Ficou impossível não reconhecer que aquelas experiências eram, por si só, o retrato mais direto e mais cru das crises humanitárias contemporâneas. Foi a partir daí que a imagem da jangada entrou em fricção. Porque, quando você coloca essas histórias vivas em relação com “A Jangada da Medusa”, o quadro deixa de ser uma imagem distante e passa a homiziar essas experiências.
A fricção, pra mim, está nesse ponto: no pretérito que deixa de ser pretérito para se tornar uma urgência da atualidade. No termo, eu sinto que a fricção não foi uma estratégia que eu apliquei. Ela foi uma consequência inevitável desse encontro.
Embora a peça beba de fontes visuais, o título remete inevitavelmente a Guimarães Rosa. Porquê o noção roseano da “terceira margem” e da vida uma vez que uma travessia perigosa se aplica à jangada instável que você montou no Sesc?
Consigo responder a partir do que a gente viveu no processo de “Travessia”. Colocamos na mesma sala, para produzir junto, pessoas com histórias, bagagens, culturas e pontos de vista distintos. Diferentes maneiras de entender o mundo, o corpo, o tempo, a arte. E aí começou um trabalho muito quebradiço: uma vez que conviver sem extinguir essas diferenças? Porquê manter a escuta de roupa ensejo, porosa? Porquê ouvir o outro sem tentar transcrever, emendar ou encaixar?
Não foi um processo fácil, mas foi um processo rico. Reinventamos o direcção de dois anos concretos de veras partilhada. “Travessia” navegou mares improváveis. Enfrentou vertigens, abismos, tempestades. Desequilibrou, torceu, sangrou, mas atravessou. Para mim, é aí que o teatro se tornou um laboratório. Porque o que a gente fez não foi só montar um espetáculo. Vivemos na prática outras formas de estar juntos.
Guimarães Rosa inventa um lugar simbólico que não é nem um lado nem outro. Não é permanência nem partida. A jangada de “Travessia” tem muito desse lugar. Ela não tem firmeza, não tem garantia de chegada. Ela é um entre. Um espaço de possibilidade, que nos incita à reinvenção.
Sesc Belenzinho – rua Padre Adelino, 1.000 – Belenzinho, região leste. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 18h30. Até 3/5. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 15 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades
