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Autocensura nem sempre é ruim, diz Fernanda Torres 02/06/2026
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Autocensura nem sempre é ruim, diz Fernanda Torres – 02/06/2026 – Ilustrada

Em 2018, diante da polarização que dominou o Brasil durante as eleições, Fernanda Torres tomou uma decisão drástica. Cancelou a temporada do solilóquio “A Mansão dos Budas Ditosos”, no Rio de Janeiro, por temer o humor do que chamou de brigadas conservadoras.

À era, a classe artística vinha sofrendo uma série de ataques promovidos por eleitores do logo candidato à Presidência Jair Bolsonaro. “A fraqueza nos fez deixar a baiana libertária de João Ubaldo de molho”, escreveu Torres, na ocasião. Depois oito anos e perto de uma novidade eleição presidencial, a atriz volta a encarnar a sexagenária despudorada que fascina espectadores, enrubesce reacionários e incendeia palcos ao longo de duas décadas.

Em papeleta no Vibra São Paulo, na zona sul da capital paulista, “A Mansão dos Budas Ditosos” retorna, nesta quarta-feira (4), em curta temporada, com a mesma verve que o consagrou desde sua primeira montagem, em 2003. Depois desta primeira vez, dirigida por Domingos de Oliveira, a atriz voltou a encenar o espetáculo de forma sazonal em diferentes cantos do país, acumulando mais de 3 milhões de espectadores.

Em razão do sucesso e da longevidade, o solilóquio se tornou um marco na curso de Torres. É uma produção tão luminosa em seu currículo quanto “Ainda Estou Cá” —filme que rendeu a ela o Mundo de Ouro de melhor atriz e deu ao Brasil o seu primeiro Oscar— ou o seriado “Os Normais”.

“Ela virou um clássico. É a minha prima donna”, diz a atriz, em período sabatino da sua pilastra na Folha. “Quando enceno a peça, sinto que estou voltando a trovar de novo uma partitura que conheço muito muito e que não envelheceu ao longo dos anos.”

Uma espécie de tratado sobre o prazer e a liberdade, a peça segmento do livro de 1999 de João Ubaldo Ribeiro, o mesmo responsável do clássico “Viva o Povo Brasílio”.

Na obra, uma mulher decide gravar, em fitas de áudio, a experiência sexual que acumulou ao longo de seus 68 anos para depois enviá-las a Ubaldo. O que se vê no palco é esse processo, em que ela narra os pormenores de suas aventuras sem qualquer culpa ou vergonha.

Por isso, tanto o livro quanto o espetáculo viraram claro do escrutínio de grupos mais conservadores. Em 2000 e em 2008, a obra de Ubaldo fez estrondo em Portugal, quando foi proibida nas livrarias de lá, sob o argumento de teor pornográfico. Uma dezena depois, a radicalização política assombrou o Brasil.

“O mundo todo ficou mais ofensivo e belicoso. Em 2018, havia convicções muito acirradas, com um processo de ataque à classe artística”, diz ela, acrescentando que sentia isso também ao ortografar as suas colunas para leste jornal. “Quando comecei a fazer os textos, eu não tinha pânico. Mas, conforme os anos foram passando, fui temendo todos os lados, não somente o conservador.”

Atualmente, porém, Torres diz sentir que a sociedade está menos reativa e beligerante do que naquele período. “Por um lado, entenderam que segmento do Brasil é conservador, e que isso deve ser respeitado. Por outro, as pessoas se educaram a reverência de assuntos sobre os quais não conheciam, porquê racismo e machismo.”

Nos últimos anos, a própria atriz passou por um processo de tirocínio sobre esses temas. Em 2016, publicou um cláusula sobre a questão de gênero que foi claro de uma série de críticas.

No texto, afirmava que a “vitimização do oração feminista” a irritava mais do que o machismo e que rejeitava campanhas “anti-fiu-fiu” —em referência aos assobios de paquera—, porque considerava “o flerte um estado de perdão a ser preservado”. Dois dias depois, Torres se desculpou pelo cláusula. “Fui apresentada a um novo feminismo que eu desconhecia. Entendi naquele momento que eu era uma pessoa do século pretérito. Aprendi apanhando.”

Quando questionada se já se autocensurou para evitar novas polêmicas, ela diz não ser contrária a essa prática. “Em certas ocasiões, você toma zelo, faz uma curva e consegue ser ouvido. Um repto hoje em dia, já que furar a bolha é difícil”, diz. “Às vezes, a autocensura é boa. Quem disse que a liberdade absoluta é a verdade absoluta?”

A atriz voltou a se desculpar, em janeiro do ano pretérito, desta vez por um caso blackface —quando uma pessoa branca pinta seu rosto e corpo de preto— num esquete de 18 anos detrás, do quadro “Sexo Oposto”, no Fantástico.

Torres reforça que se arrepende da caracterização, mas diz ter dúvidas se a gravação viralizou por motivos nobres. “A razão de terem descoberta aquilo não era social. Acho que tinha a ver com campanha de filme.”

O tema voltou à baila em janeiro do ano pretérito, poucas semanas em seguida a vitória dela no Mundo de Ouro e perto da indicação de “Ainda Estou Cá” a três categorias no Oscar —uma delas de melhor atriz para Torres. O prêmio foi para a atriz Mikey Madison, logo com 25 anos, pelo trabalho em “Anora”.

Torres, porém, era mais novidade que a sua concorrente quando, há 40 anos, tornou-se a primeira brasileira laureada porquê melhor atriz no Festival de Cannes, pelo filme “Eu Sei que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor.

“Foi um prêmio importante, porque eu era muito novidade. Ele me deu reconhecimento”, diz a atriz, que tinha 20 anos à era. “Viajei o mundo, fiz muitos festivais. Mas, a partir dos anos 1990, o cinema praticamente acabou no Brasil.”

No início daquela dezena, o governo do logo presidente Fernando Collor de Mello gerou um apagão no setor com a extinção da estatal Embrafilme, principal produtora de filmes nacionais daquele período. A indústria cinematográfica só começou a se restabelecer com o chamado cinema de retomada, a partir de 1995, com filmes porquê “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camurati.

Apesar do soberbia recente com “Ainda Estou Cá” e “O Agente Secreto” —em bilheterias de tapume de R$ 180 milhões e R$ 95 milhões pelo mundo, respectivamente—, o cinema vernáculo, apesar de investimentos milionários, ainda tem fragilidades em suas políticas públicas, diz Torres. Isso se reflete numa falta de perseverança, conforme a presença do Brasil nos festivais internacionais de 2026 está minúscula, em seguida uma vaga poderoso nos dois anos anteriores.

No mês pretérito, reportagem da Folha mostrou que a rede Cinemark programou centenas de exibições de um filme infantil, mesmo sem público, para satisfazer mais rapidamente a Prestação de Tela, mecanismo de fomento à exibição de obras nacionais.

A atriz diz ainda que a pandemia e o progresso da lucidez sintético criaram desafios adicionais à indústria, não só no Brasil.

“Hoje, existe uma crise muito grande no cinema. Durante a pandemia, todo mundo comprou uma TV de muitas polegadas com home theater e se acostumou a ver cinema em mansão”, diz ela. “Agora, ainda tem a IA. São tecnologias muito mais rápidas do que a nossa capacidade de legislar sobre elas. Por isso, estamos muito atrasados em termos de lei.”

Em paralelo, já está em pós-produção o filme “Os Corretores”, uma comédia sobre as ambições e dilemas de um grupo de agentes imobiliários, escrita e estrelada por ela, e dirigida pelo marido, Andrucha Waddington. A previsão é que chegue aos cinemas até o final do ano.

Quando o tema é curso internacional, Torres é mais esquiva. Diz calcular alguns filmes no exterior, mas prefere não entrar em detalhes. “Não falo sobre coisas que ainda não existem”. A artista, porém, discorre de forma mais ensejo sobre o longa “Cuddle”.

Com direção de Bárbara Sossego, a produção tem no elenco Torres e Willem Dafoe —espargido por filmes porquê “Varão-Aranha”, “O Farol” e “Projeto Flórida”. O projeto será gravado no Brasil e falado em inglês.

“Estou muito feliz de fazer esse filme e tenho muita curiosidade também”, diz a atriz, animada para dividir o set com Dafoe. “Ele se sentou ao meu lado na noite do Oscar. Era sensacional e tem um humor maravilhoso.”

Folha

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