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Bairro 'brasileiro' 'respira' na Copa após cerco de Trump
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Bairro ‘brasileiro’ ‘respira’ na Copa após cerco de Trump – 04/07/2026 – Esporte

As bandeirinhas começam no topo das janelas e descem até as calçadas. Virente e amarelo do Brasil. Vermelho e virente de Portugal. Amarelo do Equador.

Nas vitrines dos restaurantes e das padarias da Ferry Street, artéria principal do bairro do Ironbound, em Newark, Novidade Jersey, é difícil encontrar um estabelecimento sem ao menos uma bandeira.

A música que sai das caixas de som na lajeada muda de porta em porta –cumbia, funk, reggaeton– e as camisas que passam pela rua contam a história de um torneio disputado ao mesmo tempo em três países com 48 seleções.

“Em todas as Copas que eu estou cá, em todos esses 38 anos, essa superou todas”, disse José Moreira, possuidor de cinco restaurantes na região, enquanto preparava o salão para receber o fluxo de torcedores que chegaria horas mais tarde.

“Para o meu negócio, está maravilhoso.”

O Ironbound recebe imigrantes há quase dois séculos –portugueses, italianos, poloneses, brasileiros, cabo-verdianos, equatorianos. Cada geração chegou sem muito e foi refazendo o bairro à sua imagem. Hoje, dois em cada três moradores nasceram fora dos Estados Unidos.

Desde 2025, o bairro carrega um título a mais: está oficialmente na lista do governo Trump porquê objectivo prioritário de fiscalização de imigração.

Uma tradição que começou nos anos 1830

O nome vem das ferrovias que o cercaram no século 19 –ironbound significa, em inglês, “circunvalado de ferro”. O bairro começou a receber imigrantes nos anos 1830, com a chegada dos alemães, seguidos de poloneses e italianos no final do século.

Os portugueses chegaram a partir dos anos 1920, vindos inicialmente de New Bedford e Pawtucket, atraídos pelo trabalho nas fábricas químicas, cervejarias e curtumes.

Em 1926, a Diocese de Newark já havia criado uma paróquia luso-espanhola no bairro para atender a crescente comunidade.

Em janeiro de 1995, o New York Times publicou uma reportagem de página inteira sobre o Ironbound com um título que resumia aquele momento: “In Newark, Immigration Without Fear” – “Em Newark, imigração sem temor”.

O texto descrevia porquê as mesmas pessoas que décadas antes corriam pela Ferry Street quando uma van da imigração aparecia tinham se tornado proprietárias dos comércios ao longo da rua.

“Se você entrar em cada negócio, um por um, quase todos começaram ilegalmente”, disse ao jornal Jack Santos, possuidor de um restaurante no Ironbound, que havia chegado ao país sem documentação em 1966.

Três décadas depois, o Ironbound mudou –mas o ciclo recomeçou.

A partir dos anos 1980, à medida que a comunidade portuguesa envelheceu e segmento dela se mudou para os subúrbios, uma novidade vaga de imigrantes chegou, atraída pela infraestrutura lusófona já estabelecida: igrejas, padarias, associações.

Os brasileiros, impulsionados pela crise de hiperinflação no Brasil, vieram primeiro.

Em seguida, cabo-verdianos e equatorianos, que hoje representam os grupos de desenvolvimento mais rápido. Segundo dados do Recenseamento americano de 2022, tapume de 15 milénio pessoas de progénie brasileira vivem em Essex County, o condado onde fica Newark –o duplo do registrado no Recenseamento de 2000.

No bairro do Ironbound especificamente, estimativas do setor imobiliário apontam que 26% dos moradores têm progénie brasileira e quase metade da população fala português em lar.

“Quando eu era menininho, com 5, 6 anos, a comunidade cá nem se preocupava com deportação”, lembrou Kalani Mubarak, fruto do fundador do restaurante Boi na Brasa, que opera no Ironbound desde 1995 e nasceu nessas ruas.

“Era sempre uma cidade santuário para os imigrantes. Tu chegava cá, de qualquer país que fosse, e sabia que seria asilado. Daí veio o Trump com essas leis do ICE e começaram a invadir a nossa cidade.”

De santuário a objectivo

Durante décadas, Newark funcionou porquê o que comunidades imigrantes nos Estados Unidos chamam de “cidade-santuário”: um lugar onde as autoridades locais não cooperam ativamente com a fiscalização federalista de imigração. Para quem chegava sem documentação, era uma promessa de relativa segurança.

Em agosto de 2025, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou uma lista de jurisdições-santuário que identificava porquê alvos prioritários de fiscalização. Newark estava na lista, ao lado de cidades porquê Chicago, Los Angeles e Novidade York.

No terreno, as consequências chegaram rápido. Em 23 de janeiro de 2025, três dias depois da posse do presidente Trump, agentes do ICE realizaram uma operação no Ocean Seafood Depot, um repositório de frutos-do-mar na rua Adams, dentro do Ironbound. Três funcionários foram levados sob custódia.

O prefeito de Newark, Ras Baraka, emitiu um expedido solene condenando a ação: “Agentes do ICE invadiram um estabelecimento lugar em Newark, detendo residentes sem documentação, muito porquê cidadãos, sem apresentar um mandado. Newark não ficará de braços cruzados enquanto pessoas são ilegalmente aterrorizadas.”

Em novembro do mesmo ano, o mesmo repositório foi objectivo de uma segunda operação, desta vez com mais de duas dúzias de agentes. Murado de 20 pessoas foram interrogadas e detidas.

O temor se instalou na comunidade de repentino e se traduziu em comportamento concreto.

“Eles ficaram com temor de trespassar de lar para qualquer coisa e estavam ficando mais em lar, pedindo delivery, fazendo a própria comida”, disse Mubarak.

O empresário José Moreira descreveu o mesmo fenômeno do ponto de vista de quem administra restaurantes.

“Hoje, as pessoas estão buscando permanecer mais em lar. Perdemos grandes clientes, grandes amigos, ex-funcionários e funcionários”, afirmou.

Segundo ele, as operações de imigração costumam suceder em locais públicos, e não dentro dos estabelecimentos comerciais.

“Eles esperam as pessoas na porta de lar, não vão aos negócios. Isso faz com que muita gente ainda se sinta mais segura para ir a um restaurante. Porque, imagina, se tivessem prendido alguém dentro de um restaurante, ninguém mais iria frequentar.”

A menos de dois quilômetros do restaurante Boi na Brasa fica o meio de detenção de Delaney Hall, com capacidade para milénio pessoas, operado pela empresa privada GEO Group sob contrato com o ICE.

O próprio prefeito de Newark, Ras Baraka, foi recluso pelo ICE em frente ao meio em 9 de maio de 2025, ao tentar escoltar uma visitante de fiscalização do Congresso ao lugar.

Baraka havia saído da espaço de aproximação controlado e estava em espaço público quando agentes federais o cercaram, algemaram e levaram para dentro do meio.

A arguição de invasão de propriedade foi depois retirada.

Em maio de 2026, tapume de 300 detentos iniciaram uma greve de miséria denunciando condições precárias, falta de assistência médica e mantimentos estragados.

Os protestos do lado de fora resultaram em confrontos com a polícia, toque de recolher e ao menos 50 prisões em uma única noite.

O secretário de Segurança Interna negou que houvesse greve de miséria.

Para quem mora no Ironbound, a presença do meio de detenção a poucos quarteirões não é abstrata. “Eles já pegaram um cliente nosso na porta do restaurante, inclusive. Assistimos tudo.”

“É, muito triste, né? Muito triste. Muita gente do muito, trabalhador que não tem nem tempo de fazer zero de inverídico. Trabalha 7 dias por semana, 6 dias por semana só para remunerar conta, mandar numerário para o seu país para tentar erguer a família, levar para outro patamar.”

A Despensa porquê respiro

A Despensa do Mundo trouxe um clima mais festivo para comunidade.

O Brasil jogou a período de grupos inteira nos Estados Unidos –Novidade York, Filadélfia e Miami.

O estádio da final fica em East Rutherford, Novidade Jersey, a menos de 30 quilômetros de Ironbound. Para a comunidade brasileira e latina do bairro, a Despensa não é só um evento esportivo: é um motivo para trespassar de lar.

“Parece que o pessoal está saindo sem temor, por fim não tem porquê viver lacrado dentro de lar, é impossível. E agora o movimento já aumentou bastante com essa questão da Despensa do Mundo”, disse Kalani.

“Estou caminhando nessas ruas, nas avenidas principais cá, qualquer dia da semana, todo mundo usando a camiseta do seu país, boné… Estão todos esparramados pela rua fazendo sarau. Isso é muito bom.”

No Boi na Brasa, onde o salão tem capacidade para algumas dezenas de pessoas e uma garagem ao lado tem telões para acoitar mais clientes, Kalani estima que por volta de 1.500 a 2.000 pessoas passam pelo restaurante a cada jogo do Brasil, entre os que assistem dentro e os que circulam pelo espaço.

José Moreira diz que esta é a melhor Despensa financeiramente que já viveu em quase quatro décadas nos Estados Unidos.

A sensação de quem trabalha no Ironbound é que, durante a Despensa, o ICE reduziu a pressão sobre a comunidade. Isso não é alguma coisa solene ou anunciado, mas sentido.

Os dados, no entanto, contam uma história dissemelhante.

Em 1º de julho de 2026, o jornal New York Times revelou que agentes federais de imigração haviam impedido mais de 10 milénio pessoas em unicamente cinco dias – um salto significativo no ritmo de prisões.

Segundo documentos internos obtidos pelo jornal, líderes do ICE foram orientados a colocar 80% de seus agentes em operações de detenção, priorizando as prisões. O número de detenções diárias praticamente dobrou em relação ao início do ano, chegando perto de 2,4 milénio em um único dia. A população sob custódia da escritório ultrapassou 63 milénio pessoas.

O aumento, porém, aconteceu sem ufania. Markwayne Mullin, o secretário de Segurança Interna, disse publicamente em entrevista à Newsmax que queria conduzir as operações de forma “mais silenciosa” –em segmento para se distanciar das operações-espetáculo que marcaram a gestão de sua antecessora, Kristi Noem, e que terminaram com a morte de dois cidadãos americanos durante protestos em Minneapolis. O ICE não parou. Ficou mais simples.

E o Ironbound não ficou de fora. “Semana passada levaram uma pessoa que eu conhecia, um brasílico que estava cá há muito tempo”, disse Mubarak.

“Também tinha um ponto num parque tapume de 1 km daqui, onde ficavam aglomerados pessoas sem residência, e que também eram imigrantes. O ICE levou todos.”

A BBC News Brasil enviou perguntas ao ICE sobre estatísticas de detenções em Newark e sobre a existência de alguma diretriz específica para o período da Despensa do Mundo. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

A material do New York Times de janeiro de 1995 sobre o Ironbound descrevia um bairro que havia se transformado, décadas antes, com a chegada dos imigrantes portugueses que corriam da repressão da imigração.

Agora, eles eram donos de negócios, residentes legais –e olhavam para os novos imigrantes com uma mistura de empatia e pragmatismo.

Três décadas depois, o ciclo se repete. Os brasileiros e equatorianos que hoje servem as mesas, trabalham nas cozinhas e entregam mercadorias são os protagonistas de um capítulo parecido. Dissemelhante no linguagem, nos países de origem e no contexto político, mas familiar na estrutura.

José Moreira, que chegou aos Estados Unidos porquê jardineiro em 1987 sem nenhum negócio e hoje tem cinco, entende essa trajetória de dentro.

“Cá em Newark a gente tem um prefeito que governanta o Brasil. Ele está sempre no meio da gente, está sempre falando com a gente. Quem você está em Newark, você está no Brasil. É um pedaço do Brasil”, disse ele.

Sua estimativa de que 30 milénio brasileiros vivem em Newark é maior do que o Recenseamento registra. Uma diferença que, ele mesmo sabe, reflete a parcela da comunidade que vive fora dos registros oficiais.

Quando a Despensa do Mundo terminar, a rotina do Ironbound deve seguir com operações de imigração, e o meio de detenção Delaney Hall continuará operando a poucos quarteirões dali.

Por enquanto, a comunidade tenta aproveitar o momento para comemorar as diferentes nacionalidades reunidas no bairro, e sonhar com títulos.

“Estou esperançoso, muito esperançoso. O hexa vem esse ano”, disse Kalani Mubarak.

Folha

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