Bethânia Pires Amaro desponta no romance com ‘Ressalga’ – 05/05/2026 – Ilustrada
Bethânia Pires Amaro subiu ao palco do Auditório Ibirapuera para receber o prêmio Jabuti por seu livro de estreia, “O Ninho”, aninhando a filha no pescoço.
A moça Aurora guardava no rosto a confusão assustadiça dos bebês, sob os holofotes que consagravam os contos de sua mãe —sobre os fardos inescapáveis da família— porquê os melhores da literatura brasileira em 2024.
Dez meses antes, quando Aurora nasceu, Bethânia recebeu logo a notícia de que seu marido, Bruno, foi convocado para tomar posse em um concurso do Senado, em Brasília. Ou seja, a escritora baiana ficaria em São Paulo, sem rede de escora evidente, desafiada a gerar sua primeira filha.
É uma história que ela conta crispando os dentes, olhos arregalados, de pé em frente ao prédio Copan, no coração da capital paulista. A solidão de mulheres sobrecarregadas, enfim, é um dos temas de “O Ninho”, que àquela profundidade já estava publicado pela Record.
Menos de um ano depois, veio o Jabuti. E Aurora estava ali, embalada num vestido com cerejas vermelhas, a mesma cor que estampava a roupa de sua mãe radiante.
Agora, na requisito de autora convidada do programa principal da Flip em julho, Bethânia lança seu primeiro romance, “Ressalga”, expandindo seu interesse nos frutos bons e ruins que vêm lá de cima da árvore genealógica.
“As relações familiares moldam quem nós somos”, diz a escritora e advogada de 37 anos, baiana que calhou de nascer no Recife em uma temporada dos pais por lá. “E é geral que nós não demos influência suficiente a isso.”
Isso não é muito uma coisa boa, porquê se vê em “Ressalga”. A trama acompanha três gerações de mulheres itinerantes na Bahia: a avó, Janaína, nasce nas águas do interno do estado; a mãe, Perdão, vai mudando de cidade e de nome até liderar um dos mais famosos bordéis de Salvador, na célebre Ladeira da Serra; e a filha, Flora, anos depois retorna a sua terreno para tentar entender melhor quem são as matriarcas.
O livro repisa porquê essas mulheres acabam se enredando numa lesma similar de erros e violências, cada uma a seu tempo, vítimas da negligência dos homens, da brutalidade do machismo e do preconceito dos carolas.
“É difícil se despir de condicionamentos da juventude. Nós reproduzimos padrões por não percebermos porquê são violentos”, diz a autora. Se o agravo de homens contra mulheres está mais muito representado na literatura, a autora buscou realçar também as “violências naturalizadas” de uma mulher contra outra.
“Passam porquê um recomendação, porquê um ensinamento para que você se saia melhor no mundo. Quando você é gaiato, uma sátira ao seu peso por segmento de um estranho é uma coisa. Por segmento da sua mãe, sua tia ou mana, pode moldar sua relação com seu corpo a vida inteira.”
Arrastada de volta a um ciclo perene, a narradora culpa o rumo. Mas Bethânia diz esperar que “o leitor ponha em xeque essa visão e duvide das afirmações dela”.
É uma literatura que quer desafiar quem abre suas páginas —se a linguagem de “Ressalga” flui com o ritmo da oralidade baiana, gula porquê o melado, ela também se desdobra em parágrafos longuíssimos, que chegam a tomar várias páginas sem parar para tomar fôlego. Bethânia é hábil em intercalar temporalidades e em terminar seus períodos caudalosos com flechadas no peito.
Ler o romance é porquê ouvir sua vizinha racontar um causo daqueles que se alongam sem importunar, com a saliência das melhores fofoqueiras e também sua saborosa habilidade narrativa. Passeando pelos fundos de igrejinhas pouco habitadas até o furdunço das ladeiras de Salvador, o livro carrega em gírias, apelidos e palavrões.
Finalmente, no meio da história está uma prostituta, mito antiga das rodas boêmias da capital baiana. A figura da Garça Preta, que no livro é a mãe da protagonista, se inspira em Maria da Vovó, dona de um cabaré que ganhou notoriedade por praticar preços tabelados e padronizar um “serviço completo”, com práticas inusuais nos inferninhos da cidade.
No romance, ela se promiscuidade com a figura da Mulher de Roxo, outra imagem muito viva na memória sítio. Uma vez que reza uma explicação no início do livro —sugerida por uma editora paulista que não conhecia a história—, a mulher circulou por décadas no Meio Histórico de Salvador. “Era vista usando um hábito roxo que lembrava o traje de uma madre, deixando à mostra somente o rosto, as mãos e os pés. Sua exata identidade nunca foi confirmada.”
Será que era a mãe de quem rumo a protagonista nunca soube? É o gancho que motiva uma procura com ares de realismo mágico, que inclui uma senhora com ossos de pássaro que flutuava de levinho supra do solo, e outra tão imersa nas águas dos rios que acaba se confundindo com as ondas.
É um romance que mistura a literatura mais fantástica —e a autora enumera porquê fundamentais leituras de Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Fernanda Melchor e Luciany Aparecida— a acontecimentos históricos —um dos episódios ficcionais pode ou não ter selado a morte do logo presidente Getúlio Vargas.
Para a autora, a fabulação parece chave para entender a verdade mais verdadeira do país. “Queria grafar sobre onde essa boemia se encaixava no desenvolvimento da história e da cultura da Bahia. Eu precisava de alguém que tivesse trabalhado naquela região de prostituição para investigar porquê as mulheres chegavam até ali e porquê sobreviviam à repressão.”
Flora, a mulher que conduz o livro, nasce do ninho desse turbilhão, com consequências incendiárias que deixam marcas para a vida toda. Há mães que legam esse fardo porquê legado. Há outras que deixam, porquê presente tenra da meninice, uma ovação em pleno palco do prêmio Jabuti.





