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'Boa Noite, Mãe' expõe abismo entre mãe e filha no
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‘Boa Noite, Mãe’ expõe abismo entre mãe e filha no Rio – 22/10/2026 – Mise-en-scène

Com a frieza de quem já tomou uma decisão irrevogável, Jessie anuncia à mãe que não estará mais ali quando o dia amanhecer. E, a partir daí, a sala do teatro mergulha numa enumeração regressiva implacável. Sob a direção precisa de Leonardo Netto, “Boa Noite, Mãe” abandona concessões sentimentais para transformar o texto de Marsha Norman num embate em tempo real, sem elipses que aliviam a tensão ou reviravoltas que ofereçam respiro.

O desfecho está posto na mesa desde o primeiro momento, e o verdadeiro impacto da peça está em escoltar o desgaste definitivo de uma relação familiar ao longo de pouco mais de uma hora de conversa aparentemente geral.

O espetáculo se sustenta inteiramente sobre o duelo interpretativo entre Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horto, que constroem uma dinâmica de escuta mútua quase magnética. Cada inflexão de voz, vacilo corporal ou respiração suspensa encontra repercussão inesperado na parceira de cena, elevando o impacto dramático sem nunca resvalar no histerismo.

Andréia Horto compõe Jessie com sobriedade e precisão, evitando tanto a impassibilidade tediosa quanto a vitimização. Existe viveza e frescor em cada réplica: a firmeza de sua atuação traduz tanto a exaustão física provocada por anos de crises severas de epilepsia quanto o peso de um divórcio e de um fruto entregue ao delito.

Há uma distinção na maneira porquê ela limpa bancadas e organiza os mantimentos para a mãe que vai deixar para trás. Jessie não pede socorro nem procura validação —ela somente exerce o único resquício de autonomia que lhe restou depois uma vida inteira tutelada por terceiros.

No outro lado, Ana Beatriz Nogueira demonstra domínio técnico integral ao conduzir Thelma pela rota tortuosa do desespero materno. A atriz vai da zombaria inicial, quando julga que o pregão da filha não passa de uma provocação de mau sabor, para o pavor paralisante de quem vê ruir qualquer chance de controle.

Nogueira trabalha com um palavreado contínuo e orgânico, controlando a respiração mesmo nas passagens aceleradas pelo pânico, ao mesmo tempo em que pontua a dor com lampejos de um humor provinciano e cáustico.

Ao capitular diante das instruções práticas deixadas pela filha, Thelma expõe uma fragilidade desoladora. O embate entre a calma de Horto e o desespero de Nogueira sintetiza a maior tragédia da obra: a constatação de que a convívio mais íntima ainda pode homiziar uma incomunicabilidade absoluta.

Leonardo Netto reforça esse desnudamento ao expelir a trilha sonora incidental. Sem música para conduzir as emoções do público, o ritmo da peça é ditado exclusivamente pelos ruídos ordinários da cozinha, porquê o atrito das panelas e o fragor sedento dos frascos de remédio. Esse envolvente hiper-realista, bravo na movimentação coreografada por Márcia Rubin, faz do silêncio uma força sufocante.

O espaço concebido por Ronald Teixeira e Flavio Graff, somado à luz uniforme de Ana Luzia Molinari de Simoni, completa o cerco às atrizes. A cenografia funcional da cozinha divide espaço com um mezanino soturno repleto de velharias e memórias recalcadas, incluindo uma arma do falecido patriarca.

Vestidas com figurinos terrosos e sem o mínimo de vaidade, as duas personagens enfrentam o colapso sob uma claridade crua e residencial, revelando que os vazios mais profundos se consumam à vista de todos, no meio da rotina mais trivial.

Três perguntas para…

… Ana Beatriz Nogueira

Você trouxe pequenas quebras de humor provinciano e ironias domésticas para dentro de um horror que se aproxima. O que essas faíscas do cotidiano fazem para a tragédia não desabar numa solenidade monocórdica?

Eu vejo humor em todas as situações da vida, mesmo nas mais impensáveis. O humor é vizinho do trágico. Às vezes é uma risca muito tênue, uma vírgula em outro lugar. Ele nos alivia e nos resgata.

No caso da Thelma, desde a primeira leitura percebi esse humor no texto da Marsha Norman. Não porque ela seja uma pessoa engraçada, mas pelo descompasso de uma situação em que dois mundos não se conectam, mesmo no laço mais próximo da face da Terreno, que é entre mãe e filha. A linguagem e o olhar sobre a vida são opostos: a filha reflete, elabora e sente; a mãe não quer elaborar, quer somente seguir em frente —é o jeito dela de ser feliz.

O humor surge exatamente desse choque. A Thelma é um pouco Fernando Pessoa, “a vida vivida é essa coisa esquecida entre um momento e um momento”. Ela somente faz o que consegue e espera para ver no que dá. Mas, naquela noite, a situação a obriga a verbalizar coisas que nunca parou para pensar na vida. Essas faíscas evitam que a peça vire um samba de uma nota só sobre uma tragédia anunciada. O riso que brota na plateia é de estranhamento, muitas vezes nervoso, porque a perspectiva da mãe diante do que a filha diz pertence a uma dimensão completamente dissemelhante. Em meio a tanto desamor aparente, há um paixão imenso.

Nos ensaios, o que foi mais difícil: erigir a intimidade dos hábitos domésticos ou o barranco intransponível entre mãe e filha?

O que mais me desafiou e tocou foi erigir esse barranco intransponível. Uma vez que a Thelma diz em cena: “você vive em outra dimensão”. As duas habitam realidades distintas. Para mim, o trágico da peça mora mais na impossibilidade de notícia entre duas vidas tão próximas do que na decisão em si da filha de partir. Se não fosse esse barranco, não haveria peça, já que o desfecho é anunciado logo no início.

É fascinante observar o público: muitas pessoas saem do teatro convictas de que a filha mudará de teoria. Isso reflete o nosso próprio libido de que os filhos sempre tenham um chamado maior para a vida, ainda que o texto deixe muito claras as razões que a movem a não querer mais permanecer.

Dissemelhante de dramas em que o confronto limpa o ar e traz alguma catarse, “Boa Noite, Mãe” termina sem conciliação. Uma vez que é para você trespassar de cena toda noite depois de um embate em que ninguém vence e ninguém é salvo?

Esse é um dos pontos mais potentes da obra. O que nos move em cena é o embate em si, não a expectativa de uma vitória ou de uma salvação. Na vida real, ninguém sai totalmente vencedor ou incólume de um confronto desse tamanho. A grande questão é que, enquanto houver embate, ainda existe possibilidade de diálogo e de vida. Quando ele cessa, não resta mais zero.

Três perguntas para…

… Andréia Horto

Uma vez que a lida física contínua com os objetos —organizando mantimentos e gavetas— ajudou a ancorar o estado psicológico de Jessie em cena, considerando também o histórico de epilepsia da personagem?

Através das ações físicas pude ir compreendendo e construindo o ritmo, as angústias e frustrações, delicadezas e pensamentos de Jessie. Esse dia a dia vazio de sentido fundeado nas funções de organizar a lar e, nessa noite específica, deixar organizado para a mãe o que ela precisa. Uma espécie de ato final do paixão antes de executar seu objetivo.

Para tutorar essa personagem, é preciso concordar com a decisão dela, ou é verosímil erigir essa distinção em cena mesmo discordando intimamente da escolha que ela faz?

É verosímil fazer um personagem sem concordar com ele mas meu processo é de tentar compreender e nesse caso eu desejava, ao me aproximar dela, compreendê-la profundamente. E chegamos a isso.

Em que medida a atriz que pisa hoje no Teatro Poeira encara a responsabilidade do texto de forma dissemelhante da Andréia que fazia teatro há quase uma dez, com outra bagagem de vida e de curso?

Dissemelhante da última vez que subi em um palco hoje sou mãe (o que mudou tudo), passamos por uma pandemia e vimos o que vimos e vivemos em um mundo que atravessa a extrema direita. Essa terreno que treme sob meus pés reorganiza meu compromisso com a vocábulo a ser dita em cena que é o que ofereço na esfera pública.

Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h. Até 25/10. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 60 (meia-entrada) em sympla.com.br

Em fevereiro de 2027 a peça estreia sua temporada paulistana, no Teatro Santos Augusta.



Folha

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