Manifestantes carregam placas, distribuem panfletos e batalham por novas condições de vida. Em “I Love Boosters”, filme em papeleta na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, essa cena acontece num desfile de voga, mas deve ocorrer em diferentes cidades do Brasil neste sábado (24), véspera do segundo vez das eleições presidenciais.
O longa de Boots Riley será exibido pela primeira vez no evento justamente nessa data, no teatro Cultura Artística, às 19h30, horas depois dos atos finais das campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Logo posteriormente a sessão, o cineasta, que integra o júri solene desta Mostra, se junta ao rapper Emicida para debater a obra.
“Tenho visto uma vez que as pessoas se organizam, uma vez que elas estão garantindo que o fascismo não volte. Tem sido muito educativo para mim estar cá neste momento que, de qualquer forma, será histórico”, diz ele, espargido por obras que criticam trabalhos abusivos, o racismo estrutural e o uso da mídia uma vez que forma de desvario, entre outros tópicos.
“Só tenho visto pessoas ‘fazendo o L’ e com adesivos do Lula. Acredito que as pessoas que me conhecem presumem, com razão, de que lado eu estaria”, adiciona o americano ao reproduzir o gesto associado ao candidato à reeleição.
Em “I Love Boosters”, justiçeiras roubam roupas de luxo para revendê-las por preços mais acessíveis. Elas se tornam heroínas e a líder do grupo, papel de Keke Palmer, se divide entre o sonho de ser uma estilista e um movimento revolucionário.
Segundo Riley, a protagonista demonstra que a vontade de se atingir uma vitória pessoal é uma das forças que mais mobiliza causas coletivas. “É geral que revoluções sejam vistas uma vez que um pouco abstrato, que pode não sobrevir ou ocorrer só em qualquer momento horizonte. Isso muda quando as pessoas percebem que os seus objetivos individuais estão conectados com um pouco maior.”
Ele cita um “incidente psicótico” que viveu aos 12 anos, quando era obcecado por histórias em quadrinhos e decidiu malhar e praticar artes marciais para seguir os passos de personagens favoritos. Pouco depois, escolheu o Prince uma vez que o ídolo da vez, sentenciado a obter a mesma influência que o cantor de “Purple Rain”.
Não é de hoje, aliás, que Riley enquadra o músico dos anos 1980, que marcou aquele período ao misturar gêneros uma vez que o funk, o rock e o pop, entre as suas principais inspirações. Décadas antes de virar cineasta, o artista criou o grupo de hip-hop The Coup, junto do rapper E-roc e, mais tarde, da DJ Pam the Funkstress.
A filarmónica manteve o ritmo dançante e o apelo sexual das faixas de Prince, mas repensou o misticismo de suas letras com rimas sobre a exploração econômica nas periferias e a luta de classes. Foi de uma cantiga homônima, lançada pelo logo cantor e produtor em 2006, que saiu a trama absurda de “I Love Boosters”.
O mesmo aconteceu com “Sorry to Bother You”, longa de 2018 que marcou sua estreia na direção, pegou o título emprestado de um disco do The Coup e reforçou a vocação de Riley para denunciar contradições da sociedade com contos irreverentes.
“Queria ser uma vez que Prince, mas sem praticar tanto quanto ele. Só queria ter a mesma valia. Quando me envolvi na organização comunitária, olhei para trás e entendi que, antes, eu procurava um pouco individual”, afirma ele, que se inspirou no pai, o ativista Walter Riley, e se envolveu com sindicatos, cômites e outros grupos dedicados a direitos humanos desde a puberdade.
“Nos ensinaram que não somos importantes, mas sim pessoas da TV, estrelas de filmes, influenciadores digitais ou um pouco do tipo. Mas fazer segmento de um movimento que tenta mudar a história, mesmo que você não seja espargido, fez com que eu percebesse a valia de minha vida.”
Em “Sorry to Bother You”, um rapaz preto trabalha uma vez que atendente de telemarketing e é instruído a “usar a sua voz branca” para ocupar clientes. No processo, descobre que sua empresa, uma big tech que troca comida e moradia por trabalho servo, planeja mudar o DNA de funcionários para aumentar a produção.
Com cores fortes, enquadramentos estilizados e figuras bizarras, uma vez que homens que se transformam em cavalos, o filme abandona o realismo para emular o repelo mental de seu protagonista. Sua atmosfera é parecida com a de “Sou de Virgem”, série do Prime Video, cancelada posteriormente a primeira temporada, que Riley lançou em 2021.
Na trama, um jovem preto gigante vive só, protegido pelos tios. Quando chega à maioridade, decide deixar a toca e descobre o sexo, o ativismo e desigualdades. A profundeza exagerada é um modo que o diretor encontrou de denunciar a desumanização de corpos negros na América, e a fantasia do seriado se deve a referências afro-surrealistas —vertente cultural que reimagina a existência negra a partir do onírico.
Mesmo que Riley seja bastante ativo nas redes, interagindo com fãs e os convidando a ir às ruas, “Sou de Virgem” ainda zomba do ativismo do dedo, por vezes diluído por correntes artificiais e tendências de TikTok.
“Se estivéssemos usando a internet para organizar uma revolução, provavelmente o retorno de usuários seria descrescente, e só seríamos capazes de juntar um grupo pequeno de pessoas. Precisamos de uma base material de poder para essas manifestações, para que não sejam só espetáculo”, diz ao mencionar questões atuais uma vez que a guerra na Fita de Gaza, que tem despertado inúmeras mobilizações digitais.
Agora, em “I Love Boosters”, ele denuncia a apropriação cultural. No longa, Demi Moore vive uma magnata da voga que explora operários chineses, rouba ideias e investe em coleções monocromáticas. Entre bolas gigantes de boletos que rolam pelas ruas e demônios sugadores de almas, os figurinos multicoloridos das vigaristas lembram as roupas histriônicas de Riley e adicionam à loucura da obra.
Feito por produtoras independentes uma vez que a Neon, o filme chega ao Brasil com distribuição da Universal, um dos estúdios mais tradicionais de Hollywood, com sua estreia mercantil prevista para novembro.
“Já trabalhei com os capitalistas independentes e os capitalistas de grandes corporações. Os primeiros querem ser iguais aos últimos, logo é tudo a mesma coisa”, afirma. “Esse filme custou US$ 20 milhões, mas faz mais do que muitos filmes de US$ 100 milhões. Tenho muitas ideias e sempre tento fazer mais, não importa o orçamento. Talvez a ‘origem indie’ seja ‘uma vez que fazer tudo de um jeito mais barato’.”
Num período em que filmes uma vez que “Uma Guerra Em seguida a Outra” são reconhecidos por premiações, mas os seus autores se esquivam de comentar mazelas atuais, Riley diz que situações do tipo estão longe de ser novidade.
“Muitos filmes que hojem são considerados progressistas não passam de pessoas pregando um oração, mas elas não estão envolvidas nisso pelos mesmos motivos que eu. Não culpo elas. Culpo os movimentos radicais por não estarem envolvidos nas campanhas que as fazem crescer. Se queremos esse tipo de arte, precisamos de movimentos com que as pessoas possam se conectar.”





